MURAL DO 2° GOVERNO
 
 


 

MARILENA CHAUÍ
Grande mídia é antidemocrática, diz filósofa

A filósofa Marilena Chauí concedeu, na tarde de 25 de outubro, entrevista coletiva promovida pelo Sinpro/RS e Jornal Extra Classe na sede estadual do Sindicato. A intelectual quebrou o silêncio que vinha mantendo com a imprensa ao conversar com jornalistas da imprensa sindical, dos movimentos sociais e imprensa alternativa. Ela não dá declarações diretamente para grandes veículos desde 2004. Entre outras questões, ela fez uma avaliação da cobertura da grande imprensa sobre o governo e do processo eleitoral. Segundo Marilena Chauí, “o comportamento da imprensa se dá de forma coordenada e perigosamente antidemocrática, beirando o golpismo”. Leia a seguir a íntegra a coletiva. (decupagem de Daniela Santos)


(Maricélia Pinheiro, da Revista Adverso, publicação do Sindicato dos Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS)

Segundo o Observatório Brasileiro de Mídia, na semana que antecedeu o primeiro turno, os cinco principais jornais do país publicaram 257 matérias prejudiciais a Lula e 17 a Alckmin. Paulo Henrique Amorin tem chamado de Golpe de Estado o fato de a imprensa ter divulgado material sigiloso no caso da compra do dossiê, sem sequer questionar o conteúdo de tal documento. Qual debate sobre ética na mídia pode ser feito em cima desse fato e a condição de Lula como Presidente poderia justificar, em partes, o maior número de ataques da imprensa?

Marilena Chauí
- Eu queria começar dizendo o seguinte: os ataques que a mídia fez ao Lula começaram no dia 2 de janeiro de 2002. Meu marido é historiador, então, ele faz arquivos. Ele é criador de um arquivo na UNICAMP, então nós colecionamos os principais jornais, as principais revistas. Eu não prestei muita atenção em rádio, televisão, porque eu teria que gravar. Mas, pelo que estava nos jornais, pelo modo como rádio e televisão simplesmente reproduzem, repercutem o que está nos jornais, isso dava uma média de que nos jornais e na televisão se passava a mesma coisa. Eu nunca, em toda minha vida vi uma coisa igual. Eu nunca vi. Durante 4 anos, o bombardeio a que o Presidente da República e o Governo foram submetidos pela mídia. Eu nunca vi em nenhum país uma coisa igual a essa. Sobretudo pelo seguinte: raras vezes era algum ataque a uma ação governamental. Os ataques eram dirigidos à pessoa do Presidente e às pessoas dos ministros. Eram ataques pessoais e no caso do Presidente da República, eram ataques onde o preconceito de classe era absolutamente nítido. Ele era um metalúrgico que só tem o ensino primário e que não tem competência para governar. Isso aparece em todos os artigos e entrevistas dos tucanos: o eleitorado de Lula, era o eleitorado dos três P’s: os pretos, os pardos, os pobres. E a afirmação de que, Lula tem um eleitorado não instruído. Uma jornalista, da Globo, escreveu que estava ocorrendo um fenômeno muito interessante, muito curioso e preocupante no Brasil: era o fato de o povo estar contra a opinião pública. A idéia, por tanto, é de que a opinião pública é a propriedade de um conjunto de intelectuais, de jornalistas, de empresários detentores da verdade sobre a realidade social e política. De alguma maneira, parece mais assustador o volume das matérias por causa do período eleitoral. Porque você faz uma comparação entre o que é escrito sobre um candidato e o que é escrito sobre o outro. Se você esquecer o período eleitoral e esquecer o elemento comparativo, e acompanhar o comportamento da mídia durante esses quatro anos, é assustador. É uma das coisas mais assustadoras que eu já vi. É uma luta de classes. Você tem um conjunto de senhores do poder, senhores do capital, senhores da burguesia contra o povo. É um governo que, do ponto de vista da própria esquerda, deixa muito a desejar. Não é o Governo dos nossos sonhos. No entanto, do ponto de vista da direita e do centro, é mais do que o povo brasileiro merece. Então, é uma coisa sinistra. Porque o povo brasileiro, este que é contra a opinião pública [do ponto de vista da jornalista da Globo], ele está tão bem sem escola, sem educação, sem saúde, sem coisa nenhuma. É uma coisa sinistra. Ao lado disto, eu acho que há mais duas componentes importantes: uma delas foi analisada pelo Wanderlei Guilherme dos Santos, num artigo que ele publicou, eu penso que foi no jornal do Brasil, que está reproduzido num livro, publicado pela Fundação Perseu Abramo, que se chama Leituras da Crise, que são entrevistas sobre a crise. No artigo do Wanderlei, diz que embora a mídia falasse em crise, eu me lembro do Jabor dizendo: “ estamos às vésperas de um novo 31 de março.” Me lembro da economista tucana, Lurdes Solla, indo ao debate na televisão propondo a convocação de novas eleições no início de 2005. Vanderlei Guilherme diz: “vamos analisar como está o país.” A economia está andando. Não tem nenhuma crise econômica. Nada. Não houve problemas com nenhum setor da economia. Vamos avaliar o campo social: vamos ver se tem crise em alguma coisa: não, não tem. A escola funciona, a saúde funciona, o transporte funciona. A vida das pessoas, tudo, funciona. Será que tem uma crise política? Não, uma crise política não tem. Teria uma crise política se a Constituição do País estivesse ameaçada. A Constituição não está ameaçada, não há nada afetando a Constituição. Então, o que é essa crise? Essa crise é o fato de que o PFL e o PSDB não admitem a eleição do Lula. Não admitem e não suportam a idéia do PT no governo e a mídia também não admite. Então, você tem o simulacro da crise. Você tem uma crise que é inteirinha midiática. E porque que essa crise é midiática? Se você toma o Roberto Jefferson. Vamos analisar pra valer o que o Roberto Jefferson está colocando: a privatização dos Correios. É criar uma situação aparente de crise e justificar a privatização dos Correios. Foi o que eles fizeram quando o Banespa foi privatizado em São Paulo. Inventaram que havia uma crise no Banespa e que precisava privatizar e eles privatizaram. Ninguém nunca analisou que a aparição do Roberto Jefferson e toda a discussão e toda agressão dele ao José Dirceu se dirigia ao problema da privatização dos Correios. A segunda coisa que não foi analisada: quando se monta a CPI. A primeira CPI, tanto a CPI dos Correios, como a CPI dos Bingos. A CPI dos Bingos é uma piada. A CPI dos Bingos se ocupou de todos os assuntos na República desde 1980. Qualquer assunto fazia parte da CPI dos Bingos. O que está por trás da CPI dos Bingos? A questão do papel do Daniel Dantas e do bando Oportunitty nessa história toda, que está ligado ao Valerioduto. Nada disso aparece. Nada. Como é que a mídia produz o espetáculo? A mídia produz o espetáculo da forma mais perfeita possível, ou seja, ela não permite em instante nenhum que as questões que subjazem a argumentação e a discussão política possam aparecer. Até hoje ninguém sabe porque o Roberto Jefferson criou aquele caso, ou porque a CPI dos Bingos sai dessa maneira. Ninguém sabe, pois o conteúdo das CPI’s não pôde nunca se explicitar porque na verdade, era um teatro. Era um teatro que tinha apenas uma finalidade: produzir o Impeachment. Só isso era visado. Começa comendo pelas bordas, vai tirando quem está em volta do Presidente, até chegar a ele. É o que tentarão fazer agora, caso o Lula seja reeleito. O Lula sendo reeleito, eles tentarão pela via jurídica, pelo TSE impugná-lo. Isso é o que o Borhausen e o Agripino estão fazendo. Então, resumindo sua pergunta, eu acho que não há como produzir uma mudança na posição da mídia. Veja, vamos tomar a concessão máxima que esse Governo fez à essa mídia: a questão da TV Digital. É uma concessão. Nós temos que discutir a TV Digital. O PT de todas as regiões do País, em todas as áreas tecnológicas, tem propostas geniais, fantásticas, excelentes de TV Digital, que foram apresentadas. Então, nada disso foi escutado, nada disso foi levado a sério. Faz-se uma concessão. Beneficia-se essa mídia que está aí. E apesar disto, a mídia se comporta como se comportou. Não adianta você ir ao ataque frontal. Perde-se. Não adianta você tentar negociar. Perde-se. Não adianta você ceder a concessão. Perde-se. A única solução, é uma mídia alternativa, que esse Governo não tem. É necessário criá-la. Nós, da esquerda,temos que ter. Nós temos a nossa mídia, que são os pequenos jornais, as pequenas revistas, o trabalho fragmentado na internet. Eu acho que tem que ter tudo isso. Nós temos que ter um ponto com o qual nós nos identifiquemos como sendo o lugar onde nossas informações são produzidas e onde elas circulam. Nós temos que ter. Em resumo, nada a fazer com relação ao comportamento da mídia. O que eu posso fazer, é o que quase todo mundo tem feito: a crítica. Eu me recuso a me relacionar com a mídia. Me recuso: não concedo entrevistas, eu não vou às rádios, às televisões, eu não escrevo nos jornais. Eu não quero. A minha liberdade determina que eu não faço isso, pois eles [a mídia] não são meus soberanos. Eles podem ter o império que eles quiserem. Sobre mim, eles não têm. Acho que vai desde a revolta individual, como é o meu caso até a atitude mais coletiva de revolta. Lembrem-se: Brizola fez algo genial quando foi candidato a governador pelo Rio de Janeiro: a Globo começou a apresentar o resultado da apuração da votação antes do fechamento das urnas, para provar que Brizola estava perdendo. Brizola, juntamente com o povo, invadiu a Globo e foi ao ar. Através da própria televisão, denunciou o que a Globo estava fazendo ao TSE. Ganhou a causa. O apresentador Cid Moreira leu o texto de Brizola, no qual a Rede Globo se retratava. O povo, na rua, gritava. O povo não é bobo. Ninguém acredita na Rede Globo. Ele [Brizola] desmontou a tentativa da Globo de fazê-lo perder as eleições. Você pode ter momentos heróicos, exemplares, formas individuais de recusa e de revolta, mas nós temos que nos organizar para ter a nossa mídia. Nós temos que ter. A esquerda do mundo inteiro tem uma boa mídia. Só nós não temos.

(Kátia Marco, jornalista da Associação dos Servidores Técnicos e Administrativos da UFRGS)

Gostaria que a senhora falasse sobre a principal diferença nas políticas adotadas por Lula e FHC quanto à Educação Superior e qual é a expectativa de um futuro governo Lula diante de uma reforma universitária?


Marilena Chauí - Para entender o procedimento do Governo FHC com a educação, é bom lembrarmos a fundamentação que foi dada para a Reforma Administrativa do Estado que eles realizaram. Quando eles a realizaram, além de redesenharem a estrutura do Estado, eles definiram um conjunto de direitos como serviços. Consideraram que alguns serviços, só o Estado, exclusivamente, realizaria. Outros, o Estado ou as empresas privadas realizariam. Entre os direitos transformados em serviços que o Estado não poderia realizar e as empresas privadas poderiam, foram colocadas a Educação e a Saúde. A privatização, no sentido profundo da palavra, da Educação e da Saúde, foram feitas através de uma Reforma Institucional. Foi a redefinição do lugar dos direitos na política tucana. Então, quando a Educação e a Saúde deixam de ser direitos, primeiro perdem universalidade da sua existência e seu reconhecimento. Segundo, perdem a necessidade de serem oferecidos, conservados e garantidos pelo Estado. Ao mesmo tempo, como são definidos por serviço, você as deixa sob a lógica de mercado. Portanto, têm-se essa tragédia dos planos de saúde, tudo o que aconteceu, além do desprezo de todo o campo da saúde popular e a mesma coisa com a Educação. Então, a primeira diferença que eu vejo entre o Governo Lula e o Governo FHC foi o esforço que o Governo Lula fez ao repor a Educação como um direito da cidadania e não como um serviço e por tanto, todo um trabalho no sentido de desfazer a privatização da Educação no seu núcleo base, que é sua definição. Redefini-la como um direito. Isso do ponto de vista da ação institucional geral. Depois, por causa das ações em sua particularidade. Eu quero falar um pouquinho sobre o Pro Uni, sobre a política de Cotas e sobre a criação das Federais. Falarei mais sobre o Ensino Superior, porque é onde estou no Conselho. Uma primeira ação, é o ProUni. Eu tenho ouvido desde que o Pro Uni começou as críticas, vindas primeiro dos estudantes, depois do PSOL, do PSTU de que o ProUni foi o ProeR da Educação Superior. Quando eu cheguei no Conselho Nacional de Educação, lá recebemos processos para julgar: conhecimento de curso, transformação de faculdade em Centro Universitário, transformação de Centro Universitário em Universidade. A primeira coisa que vem no processo é quem é o interessado que está fazendo a solicitação. Eu recebi alguns processos: Unip, Unipam, Uninove. Todo o baronato das empresas privadas de educação. O processo vinha com: a instituição X mantida pela mantenedora Y a qual é sem fins lucrativos. Eu falei: tão brincando comigo. O Conselho está dizendo que o Di Gênio tem a Unip sem fins lucrativos? E assim, para cada instituição. Todos eles estão inscritos juridicamente como instituições sem fins lucrativos. Como são instituições sem fins lucrativos, a LDB garante a essas instituições a isenção de praticamente todos impostos. Então, o Governo não anistiou essas instituições porque devessem impostos. Não as isentou de impostos. O Governo disse uma vez que vocês são declaradas sem fins lucrativos, nós examinaremos juridicamente quais são as obrigações das entidades sem fins lucrativos e vocês cumpriram essas obrigações. Uma dessas obrigações é o atendimento à população. Eles foram para a Câmara Federal, para o Senado. Eles não queriam. Foram obrigados. Já que a lei diz que vocês estão isentos de impostos, vejamos quais suas obrigações. Outra coisa, é a questão das Universidades Federais. Vocês sabem que eu batalhei contra a transformação da universidade pública brasileira na universidade operacional, desligada da formação, da pesquisa, destruída física e academicamente. Substituída no campo da pesquisa por institutos privados de ciência e tecnologia financiados com dinheiro público e no plano da docência, pelas empresas privadas de ensino superior. Entre os elemento importantes desta batalha, estavam dois temas: a ampliação da rede nacional das universidades públicas e a redefinição acadêmica, financeira e funcional das universidades públicas. Muito do que foi objeto de luta foi conseguido nesse governo. O reconhecimento da importância da Universidade Pública Estadual, Federal e Municipal. A criação dos cargos, a abertura dos concursos, o financiamento das bibliotecas, dos laboratórios, todos esses elementos mostram que estamos recuperando a educação como direito. O terceiro elemento, as cotas: a primeira vez que ouvi sobre as cotas fiquei em dúvida. Agora sou a favor, porque as cotas não são uma concessão do Estado. São uma conquista da sociedade brasileira, dos movimentos sociais. Exprime um momento de participação política e cidadania dos movimentos sociais. Em segundo lugar, do ponto de vista simbólico, da cultura política, as cotas fazem com que o lugar em que a classe média e a burguesia julgaram invioláveis, sendo privilégio natural e divino delas, foi quebrado. Quebrou-se essa imagem. Eu diria que o ProUni e o que foi feito no campo das Federais e as Cotas sinalizam a diferença entre um governo petista e um governo tucano. Não foi feito tudo o que queríamos na educação e como queríamos. A diferença entre uma esquerda democrática e um liberal que seja democrático é : para o liberal, sua tarefa como cidadão começa e termina no ato de votar . Ao votar, você escolhe um programa realizado por um conjunto de técnicos administradores competentes. Você fica como expectador dizendo: acertou, errou, está bom, ruim, mas a sua cidadania já acabou. Numa perspectiva de esquerda, o momento do voto exprime apenas instantes da sua essência como cidadão, afinal sua cidadania exige que você participe continuamente, através de movimentos sociais, populares. É preciso participar, exigir. Se não exigimos, quem está no governo se acomoda. Temos que exigir e fazer as críticas. Acho que o divisor de águas está claro: entre uma compreensão da Educação como serviço e uma compreensão da Educação como direito.

(Beliza Lopes, da Rede Abraço de Rádios Comunitárias)

A minoria da população brasileira defende a estatização dos serviços, que são direitos básicos, como saúde e educação. Numa analogia na área de comunicação, o modelo de comunicação mais democrático que o Brasil, no seu posicionamento, passa pela estatização dos meios de comunicação?

Marilena Chauí - Passaria, mas isto é impensável. Diferentemente da situação da educação e da saúde, em que efetivamente o poderio do capital pode ser integral, essas áreas, entretanto possuem certas proteções específicas a elas que impedem a redução integral a uma questão de mercado. Não é o caso da comunicação. Embora, a comunicação seja o coração de uma sociedade democrática, porque se não houver circulação da informação, se não houver o direito de produção de informação e sua circulação, se não houver o direito de pensamento e expressão, de uma verdadeira opinião pública, se não houver conflitos que se exprimam através da própria informação, não se tem democracia. Só se tem democracia, quando se afirma que do ponto de vista político, todos os cidadãos são competentes, porque a política não é uma técnica. Tem-se técnicas administrativas de que um governante pode lançar mão, mas a política é uma ação social. É uma ação histórica e não uma técnica de competentes. A política como uma técnica de competência é ideologia neo-liberal. Na medida em que numa democracia todos os cidadãos são politicamente competentes, eles só poderão realizar sua competência política se estiverem informados. Se não exprimem suas opiniões,seus interesses, se não discutem com os demais, erra-se na hora em que vai-se fazer um juízo ou uma ação política. Erra-se por falta de informação. A comunicação é o coração da democracia. Ocorre que hoje a comunicação se tornou por um lado, uma questão tecnológica e por outro lado, como o conhecimento se tornou uma força produtiva do capital, a informação se tornou uma força econômica e um poder. Então, do ponto de vista da realização técnica e do ponto de vista dos interesses econômicos e políticos envolvidos, a comunicação tende ao oligopólio, em certos casos ao monopólio, tende a formação de pequenos conglomerados que abarcam o planeta e que usam uma pluralidade de veículos para a comunicação e que tem um domínio sobre a multimídia. Então, a estatização da comunicação implicaria um investimento de recursos do Estado gigantesco.Implicaria também em deixar de lado outras áreas que precisam de investimento, para centralizá-la. É claro que a televisão digital é uma alternativa importante que não passa pela estatização, passa pela democratização da comunicação. O outro ponto, no caso do Brasil, existe uma rede nacional e estatal de comunicação, que são as tvs educativas, a Radiobrás. Só que do ponto de vista tecnológico, elas estão tão atrás do que as empresas privadas têm e investiram, que por mais que um trabalho interessantíssimo seja feito nelas, e acho que Eugênio Bucci fez um trabalho fantástico na Radiobras, isso é mínimo comparado com o poderio tecnológico e econômico das grandes redes. Sobretudo, porque essas redes não são nacionais. Elas são o ramo brasileiro de um oligopólio planetário.Isso vale para as revistas, televisão e rádios. Então, teria-se que quebrar poderes para além daquilo que o Estado brasileiro é capaz. Por um lado, eu acho que a tv digital é uma coisa importantíssima. Por outro, acho que temos que criar mídias alternativas e formas alternativas à nossa comunicação. A esquerda sem dependência do Estado. As rádios comunitárias são importantíssimas. Eu posso estar completamente enganada, fazendo uma análise errada. Pode ser que outras pessoas que conheçam melhor a área da economia, digam que minha análise está errada e que pode-se sim estatizar. Eu, vendo de longe, de fora não vejo como estatizar [a comunicação].

(Cláudio “Caco” Garcia Machado, jornalista da CUT/RS)

A senhora falou que no mundo inteiro, a esquerda tem uma boa mídia. Nós [o Brasil] não. A mídia no processo político é fundamental. Porquê no Brasil, a esquerda não consegue profissionalizar sua rede de comunicação ou criar alternativas competentes para contrapor a quase unanimidade da comunicação comercial, que faz a cabeça do trabalhador?


Marilena Chauí - Não sei responder. A resposta que eu daria, é muito parcial. Vale para o PT, mas não sei se valeria para o PC, PCdoB, ou outras organizações de esquerda do Brasil. Responderei pelo PT. Acho que isso [dificuldade de profissionalização da mídia de esquerda no Brasil] tem a ver com a enorme dificuldade que os petistas têm para lidar com o campo da cultura. O PT, sobretudo as direções petistas, tendem a identificar cultura como as sete belas artes. Tendem a achar que a cultura é pintura, escultura, dança, música, cinema, vídeo... Que todo o restante da produção dos símbolos, que é o que constitui a cultura, fica fora. É uma concepção muito restrita, muito empobrecida da cultura e que leva a uma visão instrumental. Como é a relação das direções petistas com o que eles acham que é cultura: faz-se showmício, vai-se ao rádio e a televisão fazer propaganda do partido. É uma visão inteiramente instrumental da cultura. Não havia a idéia de que nós [PT] poderíamos dar uma contribuição substantiva à existência do próprio partido. Acho que o caso da comunicação entra exatamente na mesma situação em que entra o restante da cultura, em que entra os intelectuais, que é a incapacidade do PT de compreender, primeiro qual o trabalho que nós [PT] realizamos, a importância desse trabalho para a vida partidária e a importância desse trabalho para o País. Acho que essa maneira muito tacanha e pobre de focalizar a cultura, as artes e a vida intelectual que refluem sobre o modo como a comunicação é tratada. Ela também é considerada de menor importância e do mesmo modo que instrumentaliza-se os artistas, os intelectuais, os jornalistas do PT, porquê não instrumentalizar o resto da mídia? Essa é a ilusão de que se pode intrumentalizar. Aí faz-se concessões. Teria essa resposta para o caso específico do PT. Não acho que isso se aplique ao PC, PCdoB, PSTU.

(Abraço – Rede de Rádios Comunitárias)

Durante o governo, foram fechadas de seis a oito mil emissoras de baixa potência, das quais duas mil não neo-liberais. Esse é meu recado e puxão de orelha para o Lula num segundo mandato, sobre as rádios comunitárias.


Marilena Chauí
- Acho que o recado para o Lula, a respeito das emissoras que foram fechadas, não é só da obrigação de reabrir o que se fechou, mas deve estabelecer-se canais efetivos de comunicação para subsidiar essa mídia comunitária alternativa. Isso o Estado pode fazer. Não pode estatizar a comunicação, mas pode subsidiar, financiar, promover toda a rede pelo país inteiro dessa estrutura alternativa. Isso nós temos que exigir do governo aos berros.

(Helen Lopes, Jornal Já Porto Alegre)


A senhora falou sobre o poder da mídia. Entretanto,vemos através das pesquisas [eleitorais] a possibilidade de o Presidente Lula se reeleger. Nesse processo, onde falhou a influência da mídia? E até que ponto existe realmente a tão falada influência da mídia? Como será a organização do governo no segundo mandato, na visão da professora Marilena Chauí?


Marilena Chauí - Na primeira resposta, insisti muito em dizer que concordo com o Vanderlei Guilherme quando ele diz que não houve efetivamente uma crise no país e sim seu simulacro, produzido pela mídia e pela maneira com que o Legislativo se comportou, produzindo um grande circo nacional. Na medida em que foi uma crise inventada, foi um enorme espetáculo, este só funcionaria, se do ponto de vista da vida concreta das pessoas, nada tivesse acontecido. Ocorre que, do lado dos banqueiros, a economia ia muito bem. Do lado da política internacional, a posição do Brasil, era soberana e independente. Todos com orgulho da política externa brasileira e a relação com o Mercosul e os programas sociais. O MST que fez algo maravilhoso, invadindo o Congresso, mantendo suas críticas ferozes em relação à Reforma Agrária, mas ao mesmo tempo, se manteve solidário com o Governo, dentro do que havia sido feito. Todo o conjunto dos programas sociais, os programas de saúde, educação, o Bolsa Família, os programas da economia solidária, os programas da cooperativas, das microempresas que o Paul Singer diz: “ Toda parte referente às microempresas e às cooperativas constituem a primeira etapa da Reforma Tributária no Brasil e de Distribuição de Renda e pôde ser feita porque as palavras Reforma Tributária e Distribuição de Renda não foram utilizadas. Não se disse que era Reforma Tributária, nem Distribuição de Renda. Disse-se que era uma organização da economia cooperativa e de microempresa e é o que está acontecendo. O povo pela primeira vez teve um governo que considerou as classes populares como protagonistas. Há um lado concreto de ações que foram realizadas e programas que foram realizados nos quais o povo brasileiro sentiu-se um cidadão reconhecido. Foi isto que decidiu a eleição. Foi por causa disso que houve um conjunto de mecanismos com a ajuda da inteligência,da capacidade da competência das direções petistas paulistas. Uma contribuição decisiva para coisa nenhuma. Afora isso, as classes populares trabalhadoras e as mulheres se reconheceram neste governo. E quando é dito que é um Governo populista e messiânico, há dois erros nessa análise: ele seria messiânico se dissesse daqui a tantos anos, no futuro darei a vocês isto, isto...É messiânico quando promete o mundo em alguns anos. E é populista quando o líder carismático não pertence a mesma classe social de seus governados. Ele vem de uma classe social dominante, possui uma posição de transcendência perante a sociedade, ele paira acima e fora dela e ele pronuncia um discurso para o social, dizendo o que a sociedade é, o que ela pode ser e o que ele faz para e por ela. Nós temos um governante que pertence a mesma classe social de seus governados, que não dá a eles uma lição contínua sobre o que é a sociedade e o que é a política, não pretende dirigi-los e não pretende salvá-los. Pretende simplesmente assegurar alguns direitos. Então, não se tem nem a forma populista, nem a forma messiânica. Tem-se um governo democrático. Só isso, o que estourou a boca da mídia.

(Jornal Extra Classe  - www.sinprors.org.br - outubro de 2006)