Educação como cebola

Por Fernando Conceição

Dia desses, o ministro da Educação fez uma declaração que surpreende pelo ineditismo. Disse que seu ministério poderá intervir para dar racionalidade ao vale-tudo em que se transformou o mercado das faculdades privadas no País. Depois da era FHC, multiplicaram-se os cursos superiores em cada esquina. Empresários sérios ou aventureiros viram oportunidades de lucro, fazendo da educação um comércio similar à venda de bananas - no caso, diplomas - na feira. A crença seria de que o mercado se incumbiria de depurar bons de maus negociantes. Apenas as faculdades sérias sobreviveriam e os balcões de negócio sucumbiriam.

Parece que isto não está ocorrendo. Daí a palavra do ministro. Que não se sabe resultará em ato ou se é mais uma boutade do governo Lula.
Mesmo porque o lobby das particulares é forte. Alguns dos seus sócios são eles mesmos parlamentares - nas assembléias legislativas, na Câmara, no Senado. Ou, como recentemente antes de mais um escândalo ligado ao valerioduto tucano em Minas Gerais, até ministro de Estado. Esses capitalistas não distinguem a venda de gasolina, a venda de imóveis e a venda de um diploma de formação superior. Vendese educação como se vende cebola. E até agora o governo federal, responsável pelo sistema, mantinha-se conivente com práticas que prejudicam milhões de jovens esperançosos por um diploma do gênero.

Certa vez, convidado e pago para elaborar o projeto de um curso de jornalismo numa dessas faculdades privadas da Avenida Paralela em Salvador, tive oportunidade de dizer ao dono do shopping, na cara e de chofre, meu desacordo com a exigência que fez para os então futuros coordenadores dos cursos a serem oferecidos.

Ao redor da mesa e diante do silêncio perplexo dos que deveriam ser alçados à condição de coordenadores, o multiempresário condicionou tais contratações à exigência de que cada um encarasse o seu curso "como uma unidade de negócios" (sic!).

Como partícipe, então, de uma comissão de avaliação de cursos de comunicação do MEC, cheguei a encaminhar correspondência a um membro efetivo do comitê, alertando para tais desatinos. Sua resposta foi a de que havia vícios no sistema de tramitação dos pedidos de registro de autorização para funcionamento dos cursos superiores na estrutura do ministério.

Leia-se: corrupção. Mudar tal esquema requereria tempo. Talvez a atual declaração do ministro indique que esse tempo está chegando.
Mas os empresários se acautelam. Investem na nova coqueluche, o sistema de Educação à Distância (EaD). E buscam fortalecer seus laços (eu ia escrever tráfico) de influência. Recentemente um titular do Ministério Público da Bahia, ao meu lado numa mesa de debates, falava à platéia ser coordenador de um curso de EaD em direito de uma dessas quitandas privadas.

Fonte: A Tarde (BA)
Publicado em 31/03/2008