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A direita e a estratégia da criminalização, editorial do Brasil de Fato
Texto editorial publicado no BRASIL DE FATO, Edição 268, de 15.04.2008.
O que parece uma criminalização apenas dos movimentos populares em nosso país, faz parte de uma trama bem mais ampla. Trata-se de uma ofensiva da direita contra tudo o que possa representar por ações presentes, e/ou simbolizar por sua história passada a resistência a qualquer interesse do grande capital.
O alvo é preciso: destruir a cabeça, para que o corpo estrebuche e desagregue.
Assim é com os movimentos populares, insubstituíveis sujeitos da ação presente e, dos quais, o alvo principal é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
De modo semelhante, tem sido também com os perseguidos políticos da ditadura, que simbolizam a história recente de resistência e combate, além do fato de persistirem muitos (a maioria esmagadora), pelos mais diversos caminhos, trilhando a defesa do essencial dos seus princípios de outrora: os interesses dos trabalhadores e do povo, que constituem a maioria da população. E é nisto que convergem os primeiros e os últimos. A elite econômica é implacável com ambos, e contra ambos açula seus pitbulls.
O MST e os outros movimentos
Por diversos fatores, o campo se tornou, no Brasil, o principal palco da resitência popular. São dezenas de organizações e movimentos a lutar: pequenos agricultores, “bóias-frias”, trabalhadores temporários, atingidos por barragens, mineradores, castanheiros, seringueiros, povos ribeirinhos, povos indígenas, mulheres camponesas, movimentos ambientalistas, etc De todos, o que mais cresceu, que adquiriu maior visibilidade e maior capacidade de articulação em nível nacional (e mesmo internacional), foi o MST. Desse modo, tornou-se não apenas uma força real e importante, como também – e por isto mesmo – referência e símbolo para todos os que lutam, ocupando lugar de destaque no imaginário dos brasileiros.
Por esse motivo – pensam as elites – precisa ser destruído. Daí, elegeram, no campo, o MST enquanto o inimigo principal. Na sua estratégia de criminalizar os movimentos populares, a demonização do MST é peça chave. Mais do que criação de leis e outras normas, é no plano da subjetividade, da ideologia, que devem agir pois, para destruir qualquer movimento e/ou organização, é necessário e imprescindível criminalizá-lo sobretudo no imaginário da população, da opinião pública. Este é o papel da propaganda. E, uma vez alcançada a estigmatização desse movimento, esta “naturalmente” contaminará todos os seus aliados que – pretende-se – cairão um a um.
Visando esses objetivos, as elites (através de seus porta-vozes, representantes de entidades patronais, políticos e a grande mídia comercial) não hesitam em atribuir ao MST qualquer conflito no campo. Encontram sempre um meio de responsabilizá-lo por qualquer episódio, mesmo sabendo que mentem.
Os perseguidos pela ditadura
No que diz respeito aos perseguidos pela ditadura, o objetivo principal das elites é destruir a saga dos anos 1960-1970, enquanto referência e parte do imaginário do nosso povo. Sobretudo agora, quando completamos 40 anos de 1968 e, no próximo ano, 45 anos do golpe de 1964, e o interesse pela história do período se acende, principalmente entre os jovens, que descobrem que a história do seu país naquele período não é feita apenas de pusilânimes.
Nesse caso, dois são os alvos escolhidos: as da indenizações pagas pelo Estado aos perseguidos (sobre o assunto publicamos artigos nas edições 264 e 265, pág. 2 ), e a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. Se a imprensa comercial exorbita no tratamento da ministra, os sites de direita e ultra-direita são de uma virulência inaudita. Tendo como centro de sua hidrofobia a história da militante, não hesitam – como no caso do MST – em enfileirar mentiras no sentido de desqualificá-la.
O ódio contra a ministra não se alimenta apenas do passado. O “vazamento” do seu nome enquanto possível sucessora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a expôs – como exporia qualquer um – às feras.
Pequena digressão
O mais interessante é que, enquanto isto, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, escondendo-se na cortina de fumaça produzida pela “fritura” da ministra, entre uma bazófia e outra, vai construindo sua carreira de tertius – caso, é claro, não emplaque a tese do terceiro mandato.
A última do senhor Jobim (que se cacifou e se tornou popular por ter fraudado o texto da Constituição), aparentemente ridícula e desastrosa, foi sua declaração sobre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Farc. De acordo com o ministro, caso as Farc entrem em território brasileiro, ele as receberá a bala. Com isto, choca-se frontalmente com a política desenvolvida pelo seu colega ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que tem reconhecido essa organização colombiana como uma força beligerante (e portanto, nem terrorista, nem inimiga do Brasil). Isto, porém, não tem a menor importância: ao fazer a declaração, seu público alvo não éramos nós, mas a direita e ultra-direita brasileiras, a CIA e outras instituições estadunidenses de mesmo corte e porte, perante as quais certamente se fortaleceu e se legitimou para a sucessão que pretende disputar.
Fonte: Brasil de Fato
Publicado em 24/04/2008 |
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