Ubes: o que muda no ensino médio com Sociologia e Filosofia?

Nesta segunda-feira (2/06), o Projeto de Lei que obriga todos os estados da federação a incluírem no currículo das escolas de ensino médio as disciplinas de Sociologia e Filosofia foi sancionado pelo vice-presidente, José Alencar, num ato com os movimentos sociais. O que deve ser discutido nas salas de aula para que possamos utilizar estas disciplinas como instrumentos poderosos da superação da alienação que persiste na educação? Que mudanças poderão acarretar na escola brasileira a inclusão destas disciplinas?

Por Ismael Cardoso*

A nova Lei, sem dúvida, representa grandes mudanças na educação pública. O ser humano se diferencia dos demais animais porquê não se adapta a natureza para construir a sua sobrevivência e satisfazer as suas necessidades. Ao contrário, o ser humano intervém na natureza para dela extrair a sua sobrevivência e a satisfação de todas as suas necessidades. A esta intervenção damos o nome de trabalho. Portanto, o que nos diferencia do outros animais é o trabalho, é ele que nos humaniza.

A divisão do trabalho numa sociedade capitalista é alienante, pois não permite ao ser humano identificar-se no processo produtivo sabendo qual é o seu papel na sociedade. Dizia Marx nos Manuscritos econômicos e filosóficos acerca do trabalho alienado:

“1) converte a natureza em algo alheio ao homem, 2) aliena o homem de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital, e também o aliena do gênero. Ele transforma a vida genérica em meio da vida individual. Em primeiro lugar, ele torna alienadas entre si a vida genérica e a vida individual, em segundo lugar transforma a segunda, de maneira abstrata, em finalidade da primeira, igualmente em sua forma abstrata e alienada.”

O trabalho deixa de ser uma realização do ser humano e passa a ser um fardo para ele, já que o homem é obrigado a fazê-lo para simplesmente não morrer de fome. Ele não se identifica no resultado de seu trabalho. Para ele o produto final lhe é estranho, assim como lhe é estranho o outro homem e conseqüentemente lhe é estranho a própria vida humana.

No capitalismo o trabalho que deveria humanizar também desumaniza. Por isso, defendemos um tipo de educação que mescle o ensino propedêutico com a prática produtiva, mas não um tipo de prática produtiva específica, que ensine apenas uma parte de toda a produção. É preciso que se tenha acesso à pelo menos o que é de fundamental importância para o conjunto da produção. É este casamento da teoria com a prática que poderá emancipar todo povo.

Nossa educação é demasiadamente carregada de subjetivismos, do idealismo que só serve a burguesia e que faz parecer aos seus interesses particulares como sendo interesses de toda a sociedade. Desta forma, a educação que temos cultua a concorrência capitalista como algo positivo e os vencedores desta concorrência como os melhores, mas não diz que os ditos melhores são também os que têm mais oportunidades.

É neste quadro educacional que as disciplinas de Sociologia e Filosofia podem representar uma verdadeira revolução no nosso sistema educacional. Elas podem iniciar um debate nas salas de aula que faz os defensores do dualismo educacional, existente no capitalismo – uma educação de qualidade para uns poucos que se pretendem dirigentes futuros da nação e uma educação rasteira para os futuros dirigidos – perderem o sono.

Estas disciplinas podem debater nas salas de aula a dialética e o materialismo-histórico A apropriação destas questões, por parte dos estudantes, e por que não dos educadores, ajuda na elucidação da alienação a que todos e todas estão condenados.

Para tanto é necessário que se discuta amplamente que conteúdos serão utilizados nas salas de aula com a Sociologia e a Filosofia. Os movimentos sociais, que tanto lutaram pela implementação destas disciplinas, devem também dizer o conteúdo a ser apresentado nas salas de aula. A superação na forma idealista de se ensinar não está assegurada com a simples sanção ao projeto que obriga estas duas disciplinas.

Precisamos de uma educação mais racional e menos relativista /subjetivista. É necessário que se utilize os clássicos como conteúdo da Sociologia e da Filosofia. O materialismo precisa ser discutido nas salas de aula para que se faça um debate sobre nosso papel na sociedade. Só assim poderemos dar condições para que se enxergue atrás da arvore o imenso bosque que se esconde, para que se tenha uma visão mais geral de como se organiza a sociedade, o seu modo de produção, a divisão alienante do trabalho a que está submetida a classe trabalhadora.

Os que dizem que isso não é possível de se aprender no ensino médio, o dizem por que sabem que “mirantes teóricos mais elevados viabilizam um olhar sobre horizontes mais distantes”.

É sempre bom observar que vitórias como estas só são possíveis num ambiente de democracia, de um governo democrático e popular como o governo do presidente Lula. Parabéns a todos filósofos e sociólogos que sempre estiveram nesta luta, não por que queriam mais empregos, o que é muito justo, mas por que compreendem a grande mudança que poderemos construir em nosso país com mais esta vitória.

Parabéns a todos os movimentos sociais e aos estudantes secundaristas e de todo o movimento estudantil que sempre estiveram presentes nesta luta e continuarão se empenhado nas novas batalhas que virão! 

* Ismael Cardoso é presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Fonte: Vermelho
Publicado em 05/06/2008