|
|
Época e a caça aos Livros didáticos - Polêmica é bom...mas vamos conversar um pouco
Por Marcelo Rito
Sou Professor. Isso me credencia a falar sobre livro didático. Não que outros não devessem, mas também tenho o que dizer.
Em primeiro lugar, devo agradecer aos três repórteres da Revista Época que escreveram longa matéria sobre o conteúdo dos livros didáticos (edição de 22/10/2007, nº 492). Estou comovido com a atenção dispensada por Luciana Vicária, Renata Leal e Alexandre Mansur a um osso do meu ofício. Realmente ele é difícil de roer.
A trinca de jornalistas, em tom de denúncia, despertou seus leitores para uma grave mazela: estão doutrinando nossas crianças.
Segundo a trindade, as pobres criaturas estão sendo submetidas, desde o fim da ditadura (termo historicamente discutível, mas vá lá, não estou discutindo história) militar, a um bombardeio de falsidades, distorções, manipulações, generalizações, inverdades e ideologia esquerdista.
De forma maniqueísta, o trio alerta para a avalanche de pregações que invade a sala de aula. Confrontados com realidade tão cruel, os inocentes e desprotegidos alunos seriam levados ao imobilismo ou à culpa. Acresce-se a isso uma profunda descrença dos malvados autores de livros didáticos pelos valores do empreendedorismo individual.
Os ilustres jornalistas repetem aquilo que vejo predominar na nossa depauperada imprensa. E ainda seguem o mesmo roteiro dos livros didáticos que criticam: recortam, descontextualizam, transformam opiniões locais em teorias cabais, arrogam-se a interpretações apressadas, revelam realidades escusas... Em ambos os casos o mecanismo é o mesmo. Vender cultura pasteurizada.
Parece que vivemos uma nova época da cultura. Finalmente o conhecimento tornou-se acessível a qualquer um, como que por encanto. Meia dúzia de experts vem a público vaticinar soluções através de centenas de triúnviros da verdade remanufaturada.
Para eles, a escola não ensina, doutrina. Os professores não transmitem conhecimento, transformam consciências.
Nos meus sonhos mais torpes imagino-me trabalhando numa dessas instituições idealizadas pelos jornalistas. Um lugar em que as crianças aceitem sem questionar verdades prontas e acabadas. O paraíso da imposição de idéias. Quem sabe, após anos de labuta, não me torno jornalista de grande circulação e saio falando superficialidades?
E em nome de quê? Da verdade histórica? Dos fatos verossímeis? Da defesa de nossas crianças? Ou da democracia?
Arrisco um conselho a esses jornalistas: tomem vergonha, leiam Walter Benjamin, parem de chutar cachorro morto.
E se quiserem saber mais sobre as famosas “outras versões” ou os aspectos positivos da sociedade liberal meritocrática, ainda recomendo: assistam a uma aula de um professor minimamente dedicado e vejam sua luta, muitas vezes inglória, para desfazer as frases feitas e o amorfismo destilado por uma imprensa mercadologizada e servil aos ditames do VOCÊ / SA.
Ah! Se o livro didático fosse o único problema...
*Marcelo Rito - Professor de História do ensino fundamental e médio; mestrando em Educação na Universidade de São Paulo.
Fonte: Sinpro/ Campinas
Publicado em 05/11/2007 |
|
|
|