"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer"

Por Rosane da Silva*

Desde a sua criação em 1986, a Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora da CUT, hoje, Secretaria Nacional sobre a Mulher Trabalhadora - SNMT, tem atuado para superar as desigualdades e discriminações a que as mulheres são submetidas nos diversos espaços de sua vida, ações estas que foram fortalecidas com a aprovação da cota mínima de gênero de 30%, em nosso Congresso de 1993.

Quinze anos depois desta importante conquista das mulheres na CUT, o debate sobre a presença destas nos espaços da Central se faz atual, justamente porque, embora tenhamos assumido posições e travado lutas a favor da igualdade de gênero, o que verificamos é que, internamente à CUT, continuam-se sendo estabelecidas relações de poder desiguais entre homens e mulheres.

A CUT tem como base os princípios de democracia e de igualdade, portanto, quando reivindicamos as cotas nos remetemos nada mais do que a estes princípios fundadores de nossa entidade.

A classe trabalhadora é composta por homens e mulheres, e estas, em nossa sociedade capitalista, além de oprimidas por sua classe, também assim o são por seu sexo. A situação por que passa a mulher no mercado de trabalho é conhecida. Faz parte de sua realidade a dupla jornada, os baixos salários, o trabalho precário, e o assédio moral e sexual. Os dados sobre a participação das mulheres no movimento sindical comprovam o que já sabíamos: as mulheres ainda têm uma participação sindical inferior à sua inserção no mercado de trabalho. E, ainda que, a sindicalização das mulheres tenha aumentado, nas diretorias das entidades essa inserção não inclui os três cargos tradicionalmente considerados mais importantes: Presidência, Secretaria Geral e Tesouraria.

A ausência das mulheres nos espaços de poder não só é uma situação discriminatória como faz com que pautas que atingem diretamente a vida das trabalhadoras não sejam tidas como prioridade. Exemplos desta questão podemos ver quando tratamos sobre a necessidade de creches ou da ampliação da licença maternidade, que mesmo que não seja uma questão apenas das mulheres, as negociações só avançam quando estas estão pautando.

Mudar essa realidade passa, obrigatoriamente, pelo fortalecimento dos espaços e estruturas específicas de organização das mulheres no interior da CUT, e de suas instâncias verticais e horizontais, capaz de incorporar a realidade das diferentes categorias profissionais. E para superar a situação de ausência das mulheres nos espaços de poder é fundamental também ter uma ação concreta com esta finalidade. No âmbito das ações afirmativas, a adoção das cotas significa o reconhecimento de que a ausência das mulheres é expressão de uma desigualdade e desconsidera a inserção social e política das mulheres. Assim, esta medida é um passo para uma política que altere as condições gerais da participação política das mulheres.

Para avançarmos na efetiva aplicação das cotas, encontramos um grande desafio que é o de desenvolver um trabalho de sensibilização, a partir da base, para a necessidade de renovação dos quadros dirigentes, especialmente de jovens e mulheres, seja com cursos de formação voltados para esse público, seja com campanhas de sindicalização permanente, e com a garantia de creches em todas as atividades das entidades. Vale salientar que muitas vezes a participação das mulheres nas atividades torna-se inviável pela ausência de creches, bem como de horários compatíveis para a participação destas.

Entendemos que atualizar o debate das cotas não entra em conflito com outros temas que também precisam ser pauta de nossa Central. Além disso, acreditamos que esta é a hora adequada para a discussão, já que é aquela em que temos a consciência de uma situação discriminatória e sentimos a necessidade de modificá-la. E aqui retomamos os versos ainda atuais do cantor Geraldo Vandré "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

* Rosane da Silva é secretária Nacional Sobre a Mulher Trabalhadora

Fonte: CUT
Publicado em 30/07/2008