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A queda dos diferenciais de salário do ensino superior
Por Naércio Menezes Filho*
Os novos dados da Pnad de 2007 confirmam uma tendência que estava aparente nas pesquisas de 2005 e 2006. Os diferenciais de salário do ensino superior com relação ao ensino médio estão realmente declinando. Como mostra a figura ao lado, estes diferenciais, que estavam na faixa de 140% em 1992, atingiram seu ápice em 2004 (200%) e passaram a declinar a partir de então, atingindo 180% em 2007. Por que a queda desses diferenciais é tão importante? Quais são as perspectivas para o mercado de ensino superior no Brasil?
A queda no prêmio salarial para o ensino superior é importante porque sinaliza que a demanda por profissionais com esse nível já não está mais crescendo à frente de sua oferta, o que estava ocorrendo desde a década de 90. Isso pode significar duas coisas: ou o crescimento econômico baseado em novas tecnologias, que necessitava dramaticamente de pessoas com maior formação, foi atendido pela explosão de matrículas no superior dos últimos anos, ou a queda na qualidade dos novos formandos provocou uma diminuição de sua produtividade no mercado de trabalho. De qualquer forma, isto implica que deverá haver uma diminuição na taxa de transição do ensino médio para a faculdade, o que afetará o mercado de ensino superior no Brasil nos próximos anos.
Mas será que as coisas acontecem de forma tão mecânica assim? Será que as pessoas prestam tanta atenção nos diferenciais de salários para tomar suas decisões de educação? Certamente. Grande parte da abertura de novas faculdades, que ocorreu desde meados da década de 90, visava atender à demanda crescente por ensino superior. Esse aumento da demanda, por sua vez, decorreu basicamente de dois fatores: o grande crescimento do número de concluintes do ensino médio e o aumento dos diferenciais de salário no ensino superior. Isso fez com que mesmo as pessoas que não tinham tanto a ganhar com o ensino superior ingressassem nesse ciclo. Além disto, as instituições que buscavam o lucro rápido puderam sobreviver sem se preocupar com a qualidade do ensino oferecido. Isso deve acabar no futuro próximo, pela reversão dos fatores que determinaram o aumento da procura.
As matrículas no ensino superior brasileiro atualmente somam 4,5 milhões, 74% das quais são em instituições privadas. O número total de matrículas dobrou nos últimos dez anos, tendo triplicado no setor privado. O problema é que o potencial de crescimento desse mercado está se esgotando, por vários motivos. Atualmente, cerca de 3 milhões de alunos formam-se no ensino fundamental brasileiro todos os anos. Desses, 2,3 milhões de alunos concluem o ensino médio, seja nas escolas tradicionais ou nas de jovens e adultos (antigos supletivos). O número de ingressantes no ensino superior já está na casa de 1,7 milhão, o que significa que há "apenas" 600 mil alunos que concluem o ensino médio e não chegam ao ensino superior, seja por falta de condições ou por já acharem que não vale a pena. Vale notar que o número de vagas oficialmente oferecidas no ensino superior é 2,7 milhões, ou seja, é superior ao número de alunos que concluem o ensino médio.
Além disto, o número de matrículas no ensino médio tem declinado continuamente nos últimos anos. Muitos jovens faziam o ensino médio para comprar uma opção para chegar ao nível superior, que era o que realmente importava. Mais ainda, a transição demográfica brasileira está fazendo com que o número de crianças e jovens não esteja aumentando, pela primeira vez na história. Somando todos estes fatores, a conclusão é que em pouco tempo não haverá mais crescimento da demanda para as faculdades e a explosão de novos cursos abertos todos os anos deverá diminuir sensivelmente.
Mas isto é bom ou ruim para o país? É bastante ruim. Ainda haveria muito espaço para crescimento das matrículas no ensino médio, que atende apenas 50% dos jovens de cada geração. Além disto, o diferencial de salário do ensino médio ainda está em torno de 28%. Nos Estados Unidos, por exemplo, o ensino médio está praticamente universalizado. As razões para o declínio das matrículas no ensino médio estão na volta de programas de repetição de ano em algumas redes (que provocam o abandono), na péssima qualidade da educação que é oferecida nas escolas e na falta de cursos técnicos ou profissionalizantes, que seriam mais úteis para os jovens no mercado de trabalho.
Mas o que farão os empresários que estavam pensando em expandir seus negócios no ramo do ensino superior? Em vez de se apoiarem no crescimento inercial da demanda por novos cursos, eles agora terão que brigar mais agressivamente por parcelas de mercado, como ocorre em outros mercados. Para isto, terão que fornecer algum programa de crédito educativo, para atingir as pessoas com capacidade mas sem recursos, conjugado com uma grande melhoria de qualidade nos cursos oferecidos, para que os formandos possam pagar o empréstimo uma vez no mercado de trabalho.
*Naércio Menezes Filho , professor de economia do IBMEC-SP, da FEA-USP e diretor de pesquisas do Instituto Futuro Brasil, escreve mensalmente às sextas-feiras
Fonte: Valor Econômico
Publicado em 3/10/2008 |
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