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Palpite infeliz

Por Umberto Martins*
"Quem é você, que não sabe o que diz?" Noel Rosa (Palpite infeliz)


Muito embora desmoralizado e, dizem as más línguas, muito próximo da falência, o FMI continua ativo e ainda se julga no direito de aconselhar os governantes dos países mais pobres, situados na chamada periferia do sistema capitalista internacional, sobre como agir diante da crise. Diante da turbulência financeira irradiada pelos EUA, os dirigentes da instituição já se apressaram a advertir o governo brasileiro a evitar a expansão do “gasto primário”, que podemos traduzir como o conjunto das despesas públicas (incluindo os investimentos do PAC) menos, é claro, os juros, o generoso quinhão do orçamento destinado ao pagamento dos banqueiros e especuladores.

O lucro dos banqueiros, em nome do qual se faz o custoso superávit fiscal, é considerado sagrado pelo FMI. Convém lembrar que todas as intervenções da famigerada entidade na periferia do sistema, ao longo da história desde sua criação em julho de 1944, serviram ao único propósito de garantir a solvência e os lucros da banca internacional, ainda que à custa da miséria e da fome dos povos.

Receita recessiva
Assim foi quando eclodiu a chamada crise da dívida externa no início dos anos 80 do século passado. Os acordos celebrados pelo Brasil e outros países com o Fundo continham cláusulas que induziam ao arrocho fiscal, depreciação do câmbio, liberalização da conta de capitais e outras condicionalidades orientadas pelo propósito de garantir a capacidade de pagamento dos juros e a transferência líquida de riquezas dos mais pobres aos mais ricos, o que foi feito sobretudo através da obtenção de mega-superávits na balança comercial.

O Brasil conhece bem os resultados das receitas recessivas impostas pelo FMI e pelo Tesouro americano. Elas nos custaram pelo menos 25 anos de desenvolvimento nacional, deprimindo as taxas de crescimento do PIB e cobrando a estagnação da renda per capita. Foi uma verdadeira tragédia, que ainda não logramos superar de todo.

Duas medidas
É curioso notar que, conforme denunciou mais de uma vez o presidente Lula, o FMI não ousa dar palpites aos EUA, ao Japão e às potências européias sobre como lidar com a crise. Lembremos, a este respeito, que o plano Bush amplia em 850 bilhões de dólares a dívida pública do império, que já supera 10 trilhões de dólares e, mesmo como percentual do PIB, é significativamente superior à dívida interna brasileira,
Neste caso, pelo contrário, depois que o plano já estava elaborado, sem nenhuma consulta prévia aos burocratas do Fundo, esses vieram a público expressar de forma acrítica, submissa e cínica o seu apoio. É um caso notório do uso de dois pesos e duas medidas. Fato é que a dieta recessiva é nociva e desnecessária para o Brasil, porém faz muito sentido para os EUA, pois Tio Sam poupa muito pouco e consome em demasia, conforme podemos deduzir da escandalosa necessidade de financiamento externo, estimada em 3 bilhões de dólares diários. Para ajustar suas contas com o mundo é necessário que reduza o consumo e amplie a taxa de poupança, privada e pública. Isto não se faz contraindo novas dívidas.

Evitar o vôo de galinha 
O governo Lula deve fazer ouvidos moucos ao palpite infeliz do FMI. Será mais produtivo imitar os ricos no que diz respeito às despesas públicas do que seguir conselhos hipócritas orientadas pela máxima do “façam o que digo e esqueçam o que faço”. No fundo, o que eles querem é transferir o ônus da crise provocada pelos excessos dos EUA aos mais pobres, como já ocorreu no passado durante a crise da dívida externa.

Nossa receita deve ser outra. É hora de mudar a política econômica. Precisamos ampliar os investimentos públicos, reduzir (ou zerar) o superávit primário, controlar a conta de capital e o câmbio, proteger o emprego dos trabalhadores e trabalhadoras, preservar as reservas, avançar no processo de integração da América Latina, entre outras coisas. Se formos seduzidos pelo canto de sereia do neoliberalismo estaremos condenando a nação brasileira a mais um vôo de galinha.

* Umberto Martins é jornalista


Fonte: Vermelho
Publicado em 28/10/2008


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