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Enfrentando a crise como oportunidade

Por Marcio Pochmann

No balanço preliminar que já se pode fazer a respeito do conjunto de políticas econômicas adotadas para enfrentar a crise atual, destaca-se a existência tanto de confluência de ações como distinção de objetivos entre países. De maneira geral, percebe-se a inegável convergência no padrão de políticas públicas adotadas, quase todo elo comprometido com a defesa e sustentação da produção, ocupação e renda.

Isso se tem traduzido no uso de medidas anticíclicas que se caracterizam pelo afrouxamento de políticas fiscais e monetárias, pelo socorro a empresas e bancos em dificuldades, pela ampliação do gasto público e pela regulação das forças de mercado. Na falta de melhor definição, poder-se-ia associar à tática da reprodução de medidas consagradas pelo velho keynesianismo bastardo, muito distinto da trajetória das duas últimas décadas de tratamento das crises pela via recessiva e de reformas liberalizantes.

Por outro lado, nota-se também como uma minoria de nações consegue conceber estratégias mais amplas a partir das opções de políticas de combate à crise. Muitas vezes são medidas que buscam ir além do papel meramente anticíclico de políticas keynesianas, embutindo visão de longo prazo a respeito de como o país deseja se colocar no cenário do após-crise mundial.

Noutras palavras, o desafio de enfrentar a crise se transforma numa oportunidade de renovação e revigoramento de instituições, bem como na possibilidade de avançar a reestruturação do setor produtivo e o padrão de financiamento. Da mesma forma com que as decisões governamentais rompem com as amarras do neoliberalismo, coloca-se no seu lugar um novo projeto de nação que implica, inclusive, a reinserção econômica global.

Esse parece ser o caso de países como Rússia, China e Índia, apenas para citar alguns. Por meio do acompanhamento sistemático das ações formuladas e implementadas observam-se elementos de uma perspectiva mais ampla do que a postura anticíclica de políticas econômicas e sociais.

Para ir além, não se trata de somente evitar o pior, mas de transformar a crise no amálgama das transformações mais profundas que provocam a antecipação do novo a partir da fragmentação do velho. Destaca-se nesse sentido que, frente ao surgimento do cenário internacional cada vez mais multipolar que resulta da fase de decadência dos Estados Unidos, alguns países adotam medidas que apontam para o seu reposicionamento na geopolítica da produção, competitividade e produtividade global.

Entre as medidas nacionais encontram-se aquelas de suporte e reforço à infra-estrutura interna que se alia à complementaridade da estrutura produtiva e ao maior fortalecimento do mercado interno. Da mesma forma, merecem atenções as ações que se direcionam ao reposicionamento nacional e regional no espaço global, como as decisões governamentais de apoio às forças militares, acordos supranacionais regionais para a defesa do comércio externo e a atração de maior quantidade de investimentos associados.

No caso da América Latina, ganha relevância a posição do Brasil, detentor da maior população e vigor econômico. Percebe-se que o país, assim como a região como um todo, vinha registrando mais recentemente melhora econômica e social significativa à medida que se afastava do receituário neoliberal. Não somente a estrutura produtiva era recuperada, como os indicadores sociais melhoravam positivamente.

Tudo isso após ter passado por cerca de um quarto de século de nítidos retrocessos, que fizeram encolher o peso relativo da América Latina (e do Brasil) no mundo da produção, do emprego e da renda. É dentro desse contexto que a crise econômica internacional está sendo enfrentada. Para a maioria dos países latino-americanos, as políticas adotadas não se voltam para a saída externa, como no passado recente, de opção governamental pela redução do papel do Estado, de elevação dos juros e demais medidas recessivas e anti-sociais.

De maneira geral, as políticas econômicas e sociais anticíclicas buscam evitar o pior, podendo se mostrar, todavia, insuficientes para o atendimento do desafio de evitar a inflexão do ciclo de melhoras que a região colhia até 2008. O curso do soerguimento das economias latino-americanas fortemente abaladas pelas políticas ortodoxas das últimas duas décadas conecta-se com a conformação de uma estrutura econômica e social pós-neoliberal.

Mas isso se encontra ainda em fase inicial, cuja interrupção pela crise atual poderá terminar recolocando novamente o cenário de aprofundamento da realidade brutal de desigualdade na geração de oportunidades econômicas e sociais ao conjunto das populações.

Merece atenção, portanto, uma maior reflexão sobre os principais pontos de contágio da região com a crise internacional originada nos países desenvolvidos. Inicialmente, destaca-se a dependência da região para com o crédito externo, que coloca ênfase no avanço mais rápido na consolidação do Banco Sul, capaz de contribuir na formulação de um novo padrão de financiamento para a infra-estrutura, produção e consumo regional. Imediatamente, ressalta-se a dependência da região no comércio externo.

O estreitamento do Mercosul com a Unasul pode permitir o reforço de acordos supranacionais que agilizem a integração produtiva e comercial entre os países, esvaziando a subordinação das trocas para com os países desenvolvidos atualmente em recessão.
Por fim, constata-se também a dependência da estrutura produtiva da região às grandes corporações transnacionais. Nesta fase de crise elas terminam retransmitindo por meio das redes globais de produção viabilizadas pelas filiais instaladas na região os impactos negativos gerados pelas decisões nas matrizes.

A opção pela adoção de políticas de apoio comercial, financeiro e produtivo supranacionais permitiria gerar confiança empresarial para fazer avançar o investimento na região.

Ou seja, a defesa comercial e a sustentação da produção e do emprego pelo conjunto dos países da região permitiriam emergir uma estratégia de nova institucionalidade supranacional, contemporânea com as oportunidades da economia pós-industrial. Ela já se impõe por meio da renovação das elites, bem como pela reestruturação da sociedade em novas bases e à mercê da conformação de inovadora maioria política.

Estão os governos da região conscientes da oportunidade histórica de renovação latino-americana? Eis uma excelente questão a ser acompanhada pelos seus desdobramentos nos próximos meses.

Tais como na década de 1930, quando a região aceitou o desafio de mudar o velho modelo primário-exportador pelo padrão de desenvolvimento urbano-industrial, os países da região podem agora consagrar um grande acordo que permita manter os bons resultados econômicos e sociais obtidos até o momento, a partir do abandono do neoliberalismo. Muito há ainda de ser fazer, desde que o aprofundamento da crise não venha a representar a defesa dos interesses historicamente dominantes na região.

*  Marcio Pochmann é Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).


Fonte: artigo publicado originalmente no Valor Econômico
Publicado em 23/01/2009

 

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