Antecedentes da 'ditabranda' da Folha de S.Paulo
Por Osvaldo Bertolino*
Certa feita, quando o coronel Erasmo Dias - personagem que integrou a estrutura repressiva da ditadura militar - era vereador na cidade de São Paulo, ouvi ele dizer sobre o aborto, em resposta à uma citação de Jean-Paul Sartre por um aparteante, que não lia bobagens, só coisas sérias.
E citou a Folha de S.Paulo como exemplo de publicação que tratava bem o assunto - o jornal sempre lembrava que a então prefeita Marta Suplicy (PT) foi deputada federal de 1995 a 1998 quando levantou a bandeira dos direitos da mulher e dos homossexuais, defendeu a legalização do aborto e a união civil entre pessoas do mesmo sexo.
A ligação de Erasmo Dias com a Folha de S.Paulo é antiga.
Quando ele era secretário da Segurança Publica do Estado de São Paulo, almoçava regularmente com o empresário Carlos Caldeira Filho, sócio de Octávio Frias no grupo que editava a Folha de S.Paulo e a Folha da Tarde.
Eles eram tão ligados ao regime que deram origem a uma anedota segundo a qual a Folha da Tarde, uma espécie de porta-voz oficiosa dos torturadores, tinha alta "tiragem" - uma grande quantidade de "tiras" trabalhava em sua redação.
O empresário amigo de Erasmo Dias chegou a ser nomeado, quando Paulo Maluf foi governador paulista - fiel escudeiro da ditadura militar em São Paulo -, diretor extraordinário de Terminais Rodoviários da Companhia do Metropolitano (Metrô), de onde saiu três meses depois deixando um rastro de coisas mal feitas.
Caldeira Filho mandou demolir parte da obra do Terminal Rodoviário Tietê e adiar a sua inauguração por razões nunca claramente explicadas - ação que causou enormes prejuízos ao estado.
Temos, pois, no desprezo de Erasmo Dias pelo pensamento humanista, uma definição da ojeriza da mídia à democracia.
Essa pirraça e esse desprezo pela cultura universal não são imotivados: a verdade é que, em todos os tempos, o progresso social esteve contra a opressão.
E a recíproca é verdadeira: nenhum opressor admite a pensamento avançado.
Não se admira que nessa cruzada conservadora, a mídia, pressupondo haver esgotado a sabedoria humana, tenha perdido o pé na realidade, o apoio no chão firme, e por isso não recebe as vibrações da terra.
Imagina-se também uma divindade e confere a si mesma o título e as credenciais de senhora suprema do bem e do mal, do que convém ou não ao país.
É evidente que não podemos nos calar diante de tudo isso.
Esses pecadores contra a civilização querem tirar do ambiente social aquilo que faz a alegria e a cultura de um povo: as liberdades de palavra, de reunião, de organização, de opinião, de discordar ou concordar sem prêmio ou castigo.
São essas liberdades que fazem a gente viver numa sociedade mais alegre e evoluída.
E quem diz alegria pressupõe bondade, ou, pelo menos, ausência de maldade.
Algo oposto ao pensamento dos prelados da mídia, que chegaram onde chegaram por virtude de batistério, por habilidades (não por habilitações), pela politiquice ou pela correnteza das ascensões por bajulação - os Frias, os Mesquita, os Marinho, os Saad e seus asseclas - e que fornecem até anedotas - exemplo de Arnaldo Jabor - para rechear o discurso moralista, como nos velhos livros de homilias.
O nome dessas trovoadas já existe, sem concurso do Ministério da Cultura: é terrorismo cultural.
Querem afastar do debate os que se irmanam não só por doutrinas religiosas, mas pelo amor à liberdade.
O famoso processo movido na França contra Flaubert, acusado de ultrajar a moral pública e a religião com seu Madame Bovary, há mais 150 anos (1857), o famoso caso de David Herbert Lawrence (que por motivos religiosos teve seu livro O Amante de Lady Chatterley proibido e a obra Mulheres Apaixonadas recusada pelos conservadores editores de Londres do começo do Século 20) e todas as vítimas ilustres da incompreensão e da burrice não servem para mostrar a esse Ku-Klux-Klan da falsa moralidade que ele está errado.
São seres que parecem cheios de ressentimentos contra a realidade humana que, pecado maior, faz as pessoas sorrir.
No mais, é pegar o tomo segundo de Os Sermões, do Padre Vieira, notável conjunto de obras-primas da oratória ocidental que constituem um mundo rico e contraditório, revelador de uma inteligência voltada para as coisas sacras e, simultaneamente, para a vida social portuguesa e brasileira do seu tempo.
Lá se diz: "Vai o navio navegando e o marinheiro dormindo, e o (peixe) voador toca na vela ou na corda e cai palpitando. Aos outros peixes mata-os a fome e engana-os a isca, ao voador mata-o a vaidade de voar e a sua isca é o vento".
* Jornalista, editor do blog O Outro Lado da Notícia
Fonte:Blog O Outro Lado da Notícia
Publicado em 26/02/2009
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