Dez perguntas aos sindicalistas
Por Augusto César Petta*
Recentemente li um texto escrito pelo Professor Helder Molina, Mestre em Educação e Educador Sindical, intitulado ''Concepções e Práticas Sindicais''. Baseado nessa leitura, resolvi levantar algumas perguntas para que os sindicalistas reflitam sobre a atuação que desenvolvem no movimento sindical.
Evidentemente que com essas perguntas não tenho a pretensão de, ao respondê-las, obter uma avaliação completa da atividade sindical, mas tenho a convicção de que podem contribuir para uma reflexão sobre as práticas que têm sido desenvolvidas pelos sindicalistas, no cotidiano de uma entidade sindical. Essa reflexão é fundamental porque permite uma avaliação de questões que interferem significativamente no cumprimento do papel que as entidades sindicais devem exercer.
Eis as perguntas:
1. Os novos diretores e as novas diretoras recebem informações adequadas sobre os processos internos de funcionamento da entidade sindical, da cultura interna, do funcionamento burocrático, do papel que devem desempenhar, da história do sindicato, da federação, da confederação e da central sindical? Ou passam a participar das diretorias sem essas importantes informações?
2. Os diretores e as diretoras da entidade sindical participam de um processo de formação política e sindical - que inclui cursos, palestras, seminários , debates, estudos individuais e ou em grupos - sobre temas de interesse do movimento sindical, tais como História do Movimento Sindical , Concepções Sindicais, Transformações do Mundo do Trabalho e Análise da Conjuntura?
3. Nas reuniões de diretoria, há um tempo determinado para debate sobre temas da conjuntura política, econômica e social, sobre a avaliação da correlação de forças? Ou a reunião é destinada pincipalmente para debater sobre a administração da máquina sindical , apresentando-se rapidamente alguns relatos sobre fatos que ocorrem na Conjuntura?
4. Os diretores e as diretoras leem jornais e revistas , refletindo, comparando , analisando além das aparências? Ou geralmente não leem e, quando leem, simplesmente aceitam passivamente a visão parcial e deturpada da grande imprensa? Leem livros constantemente sobre temas de interesse sindical e político?
5. Os diretores e as diretoras trabalham no sentido de democratizar as relações sindicais, ou se comportam como ''mini-monarcas'' no '' pequeno pedaço'' que dominam , desenvolvendo práticas mandonistas e burocratizantes?
6. Os diretores e as diretoras visitam as empresas constantemente para estabelecer contatos com os trabalhadores, procurando ouvi-los e, ao mesmo tempo, estimulando-os à sindicalização, à participação nas atividades sindicais e à org anização por local de trabalho? As demandas apresentadas pela base são objeto de debate no sentido da entidade apresentar propostas objetivas e viáveis que possibilitem o envolvimento dos trabalhadores e trabalhadoras nas lutas desenvolvidas pela categoria? Ou a base é tratada como massa de manobra, equivocada, ignorante e que, portanto não tem condições para opinar com qualidade?
7. A diretoria da entidade tem possibilitado que os trabalhadores e as trabalhadoras se expressem o mais democraticamente possível, encaminhando as decisões tomadas pela maioria? Ou a diretoria, em geral, comporta-se olhando de cima para baixo, dando ordens para que a categoria as cumpram?
8. As ações da entidade são planejadas estrategicamente, têm governabilidade, são planejadas a curto, médio e longo prazo, têm objetivos e metas definidas, estão baseadas no que é tático, provisório e passageiro e, simultaneamente, no que é estratégico, princípio e permanente? Ou as ações são sempre de apagar os incêndios , de ''correr atrás dos prejuízos'', sem que haja planejamento adequado?
9. Os diretores e as diretoras da entidade fazem uma avaliação constante do trabalho que desenvolvem? Refletem sobre a prática, avaliando o crescimento que estão tendo, se estão produzindo adequadamente no sentido da construção de uma sociedade justa e democrática? Tratam os funcionários da entidade com todo o respeito que os trabalhadores e as trabalhadoras merecem? Conseguem trazer novos militantes para a atividade sindical? Têm,na prática, atitudes que visam a renovação dos quadros sindicais? Ou, ao contrário, já estão acomodados naquela função repetitiva, sem motivação para ações mais consequentes, despolitizando as lutas,ficando aprisionados ao corporativismo imediatista , tendo medo que trabalhadores e trabalhadoras da base possam vir a ocupar seus lugares?
10. Ao montar a chapa para concorrer à próxima eleição da entidade, prevalece um clima de camaradagem, procurando sempre colocar nos cargos companheiros e companheiras que tenham melhores condições para exercê-los, com melhor capacidade , preparação ideológica, dedicação, representação na categoria? Ou prevalece um clima de hostilidade, de disputa desenfreada pelos cargos, de ataques pessoais muitas vezes injustos, desperdiçando enormes energias políticas e esgarçando os tecidos de relacionamento das lideranças?
Estas perguntas não devem ser respondidas de maneira simplista do sim ou não. Elas exigem uma reflexão mais aprofundada. São questões que precisam ser enfrentadas pelos sindicalistas, sobretudo por aqueles que pretendem que as entidades sejam instrumentos importantes na luta econômica por melhores condições de salário e de trabalho, na luta política pela transformação profunda da sociedade e na luta ideológica contra os valores das classes dominantes.Os problemas relacionados à estruração interna das entidades não devem consumir toda a energia e tempo dos sindicalistas, impedindo-os de participar das lutas mais gerais dos trabalhadores.
Quando esses problemas forem verdadeiramente enfrentados as entidades terão melhores condições para exercer seu papel de contribuir na articulação de um movimento sindical forte e democrático, tão necessário nesse momento conjuntural que o país atravessa.
*Augusto César Petta, professor e coordenador- técnico do Centro de Estudos Sindicais (CES).
Fonte: Vermelho
Publicado em 10/03/2009
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