Os nós das esquerdas
Por Flávio Aguiar*
Um nó das esquerdas é um ponto onde as argumentações começam a se enredar de tal modo que fica difícil detectar o conceito, ou a lógica que as informa, a não ser o pré-conceito, ou a lógica do interesse da posição. Três exemplos disso aparecem nos debates sobre Israel, o Irã e Barack Obama.
O que é um nó das esquerdas? É um ponto onde as argumentações começam a se enredar de tal modo que fica difícil detectar o conceito, ou a lógica que as informa, a não ser o pré-conceito, ou a lógica do interesse da posição. São questões difíceis, complicadas, complexas, para as quais se quer dar respostas simples, breves, e muitas vezes uni-dimensionais. O que usualmente complica mais a situação.
Primeiro exemplo: Israel. Com freqüência brande-se a resolução de 1967 da ONU, exigindo -se a manutenção daquelas fronteiras. Mais adiante, vai se encontrar a pregação do fim do estado de Israel – o que vai de encontro à resolução da mesma ONU que criou aquele estado. Quer dizer, para um argumento, a ONU vale; para o outro, não.
Segundo exemplo: a OEA. Nos últimos tempos tenho lido comentários irados de que o pedido de Hillary Clinton para que o presidente Arias da Costa Rica mediasse o conflito em Honduras visava esvaziar a competência da OEA para resolver a questão, uma vez que este organismo se inclinou pela exclusão de Honduras. Ao mesmo tempo vou acompanhando argumentos que aplaudem a decisão de Cuba de não voltar à OEA, mesmo depois desta ter suspenso a resolução que expulsou-a em 1962. De novo: de um lado da moeda, a OEA vale; do outro não. Isso é um problema. Para as argumentações e para a diplomacia cubana também, pois hoje Cuba precisa, na verdade, de um, dois, três, de muitos, de todos os fóruns internacionais possíveis.
Terceiro exemplo: o Irã. Considerar Ahmadinejad uma espécie de “Hugo Chávez do Oriente Médio” é um erro de grande monta. Em primeiro lugar, a “revolução islâmica” tem muito pouco em comum com a “revolução bolivariana”. A “revolução islâmica” abriu espaço para um regime clerical reacionário, com instituições fechadas, anti-democráticas, onde se debatem interesses de grande monta e que mantém, em relação ao povo empobrecido, uma espécie de “populismo caritativo”. Essa é a moldura em que cresce e em que navega Ahmadinejad com sua proposta dúbia, para dizer o mínimo, de programa nuclear. Às vezes parece até haver um raciocínio do seguinte tipo: “nós somos pela causa palestina; Ahmadinejad fala mal de Israel, então ele é um dos nossos”. Devagar com o andor, que o argumento é de barro.
Nos confrontos iranianos recentes, interessa mais ver os movimentos sociais por detrás do proscênio da peça. No Irã existe um movimento de classe média – com suas contradições, evidentemente – um movimento de mulheres bastante significativo, que não podem simplesmente ser reduzidos a fantoches do imperialismo. Embora seja claro que há interesses imperialistas norte-americanos e britânicos na região, e que para estes a “república islâmica”, que eles mesmo ajudaram a criar favorecendo o esmagamento das outras oposições ao tempo do Xá Reza Phlavi, agora tornou-se incômoda, por controlar uma reserva trilionária, em qualquer moeda, em termos de reservas naturais. Mais ou menos o que aconteceu com os talebãs e a Al-Qaeda no Afeganistão.
Por fim o quarto nó chama-se Barack Obama. Naveguemos pela internete. Vamos encontrar, por parte de críticos à esquerda, os mais variados retratos do novo presidente dos Estados Unidos. Já não falo daquelas mais simplistas, de que ele é apenas um “traidor” de sua pele, de seu povo, etc., alguém pior do que Abraham Lincoln, porque este, para subir, não precisou passar por um processo de “branqueamento”: já era branco.
Falo de posições mais complexas. Às vezes as coisas parecem assim: Obama é uma fachada, uma espécie de bobo da república, quem manda é Hillary. Outras vezes: Obama e Hillary são os bobos, quem manda mesmo é a Casa Branca 2 de McCain e seus empresários de extrema-direita, que “reconheceram” o golpe em Honduras. E que Barack Obama é apenas um malabarista de palavras e promessas – mais ou menos mal ou bem intencionado.
Ressalta aí esse nosso gosto pelos julgamentos imediatos morais e pessoais em detrimento da análise dos personagens e de seus contextos, um gosto de tradição no personalismo ibérico, como bem demonstrou Sérgio Buarque no Raízes do Brasil.
A primeira grande batalha dentro e fora do “esquadrão Obama” vai se dar agora, com a proposta de reforma do sistema de saúde norte-americano, reconhecidamente um dos piores do mundo, que deixa pelo menos 46 milhões de cidadãos ao relento, e condena outra centena de milhões a condições ao mesmo tempo caras e precárias de atendimento. Essa vai ser uma batalha tão dura, ressalvadas as armas em combate, quanto a de Stalingrado. Quanto à questão de quem manda de fato ser o “esquadrão da Casa Branca 2 republicana”, o mínimo que se pode reconhecer é que desastre teria sido a eleição da “solução McCain” ao invés do “problema Obama”.
É claro que, às vezes, no calor da hora, precisamos tomar posições com os recursos que temos e as visões que discernimos, e neste mundo de neblinas tão espessas, em que se vê com clareza o que naufragou (os regimes socialistas), o que adernou (o estado do bem estar social), o que triunfou (a lógica neoliberal, agora também adernada), e não se distinguem muito bem as alternativas que estejam em ascensão, busquemos tábuas de salvação. Mas elas podem nos levar também na direção da cachoeira, se não atentarmos para de onde vêm e para onde almejam ir, em seus contextos específicos, que demandam análise, ao invés de crenças imediatas.
* Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.
Fonte: Agência Carta Maior
Publicado em 03/08/2009
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