Arrogância, preguiça e ignorância, uma combinação explosiva

Por Renata Mielli

Os predicados deste título foram alguns dos escolhidos pelo jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, para qualificar os jornais. Nenhum deles chega a ser uma novidade, mas ganham um peso maior por terem sido ditos por um representante da grande mídia.

Sabatinado por ocasião dos 20 anos de criação do cargo de ombusdman na Folha, Lins da Silva disse: “Os jornais, a imprensa, os jornalistas não gostam de ouvir críticas em nenhuma hipótese, e não querem ser melhorados”.

O jornalista falou, também, que “80% dos erros que saem no jornal podem ser atribuídos a três fatores: pressa, preguiça e ignorância”. E seu prognóstico para a melhoria dessa situação não foi nada animadora: “E acho que isso não tem muito como melhorar, a não ser com um controle firme do comando da Redação”.

Foi, então, que ele disparou a proposta: “Se a imprensa não se autorregular, ela vai ser regulada por alguém e isso será pior para ela”.

Interesse antagônicos

Lins da Silva foi preciso em sua colocação. A autorregulação interessa aos veículos e somente a eles. Para a sociedade interessa controle social. E este, como grifou o ombusdman, não interessa a imprensa. Fica claro como são antagônicos os interesses da mídia e da sociedade, quando deveriam, ao menos em tese, caminhar no mesmo rumo.

Isso porque a mídia transformou-se num negócio lucrativo, que não tem compromisso com a informação e que está a serviço do que há de mais conservador no pensamento político, econômico e social do país.

Imparcial: quem disse?

Muitos dos “erros” apontados por Lins da Silva como o da publicação da ficha falsa da ministra Dilma Roussef e sobre o alastramento da gripe H1N1 não foram cometidos nem por preguiça, nem por ignorância e muito menos por pressa. Foram conduzidos conscientemente pelo “comando firme da Redação” com o claro objetivo político de desgastar o governo Lula e suas lideranças e cumprir o papel de partido da oposição de olho nas eleições de 2010. Mas isso Lins da Silva não disse.

Apesar de se considerar não um representante do jornal, mas um representante do leitor, Lins da Silva sofre do mesmo vício de origem dos veículos: utilizar a maquiagem do distanciamento, da imparcialidade, da objetividade e do uso de critérios predominantemente técnicos para cumprir sua tarefa de crítico do jornal.

O repórter é o culpado

Assim, diz não ter as ferramentas necessárias para avaliar se o jornal fez uma cobertura mais crítica do governo Fernando Henrique Cardoso do que está fazendo do governo Lula. Para o jornalista, a dose usada para ambos é a mesma.

Nessa mesma linha, classifica como erro orientações editoriais e acaba, com isso, responsabilizando o elo mais frágil dessa cadeia: o repórter, que chega nas redações com salários menores, jornadas de trabalho maiores, na maioria das vezes sem vínculo trabalhista – são os PJ (pessoas jurídicas) – e que por tudo isso se submetem a todos os mandos e desmandos do editor.

Aliás, vale ressaltar que foram os próprios veículos de comunicação que, ao longo dos anos, precarizaram a função do jornalista, contratando profissionais sem preparo adequado, substituindo colegas de longa experiência por jovens estagiários.

Fórmula explosiva

Impuseram a ditadura do texto burocrático  e sem gosto, adotando o new journalism norte-americano. A ditadura do  que, quem quando,  onde e porque pasteurizou as faculdades e reduziu a demanda por profissionais de sólida formação cultural, afinal, basta aplicar a fórmula mágica e pronto, o texto sai quentinho da prensa.

Ai, o que temos são ingredientes que, juntos, compõem a explosiva combinação que está corroendo a atividade jornalística: pitadas de prepotência, arrogância, ignorância e pressa a serviço dos interesses políticos dos donos dos jornais. Vai uma Folha ai?

Fonte: Blog Janela sobre a Palavra


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