Kucinski e Venício detonam tese de que papo inteligente é chato
Por Renato Rovai
Os professores Bernardo Kucinski e Venício Lima lançaram na quinta (22/10) o livro “Dialogos da Perplexidade – reflexões críticas sobre a mídia”. Para isso participarão de um debate organizado pelo Vermelho, onde terão a companhia do jornalista Luis Nassif.
Já li o livro. E o fiz de um fôlego só. Não gosto do termo, mas assim é que foi.
Trata-se de uma publicação diferente. Ao invés de escrito a quatro mãos ou de um trabalho produzido a partir de textos de ambos, é uma copilação de cinco encontros. E editado respeitando os diálogos. Como já conversei pessoalmente e em algumas ocasiões sobre comunicação com ambos, sentia-me no meio do papo. E em alguns momentos impelido a pedir licença para um pitaco.
O debate flui página a página como se fosse uma conversa de mesa de bar sobre a última rodada do Brasilierão. Mas os autores vão tratando de temas relativamente complexos no debate da comunicação. Discutem desde a cultura autoritária do jornalismo (reflexão que muito me agrada) até à perda da função informativa do que chamam grandes jornais (ainda seriam grandes?).
Na opinião deles (e também na minha) esses veículos estão ampliando a função ideológica para compensar a perda da função informativa, onde foram atropelados pela Internet.
Neste livro, aliás, Venício publiciza uma nova posição sobre a Internet. Ele que antes relativazava o potencial que ela poderia ter numa possível mudança no âmbito das comunicações, hoje admite que “tem implicações muito importantes, por exemplo, na influência da mídia na formação da opinião e na decisão do voto”. Como a opinião de Venício me importa (e muito), fico feliz. Há algum tempo tenho defendido que as novas tecnologias (em especial a Internet) têm construído instigantes possibilidades de intervenção e até que vem gerando uma nova esfera comunicativa. E que precisamos estudar e aproveitar melhor esse momento e suas possibilidades para diminuir a verticalização do processo informativo.
Os autores também fazem um bom debate sobre o crescimento dos jornais populares no Brasil. E tiram esse fenômeno da invisibilidade acadêmica.
Por incrível que pareça, apesar de ser algo muito relevante, esse tema é pouco debatido. Poucos sabem que, por exemplo, o jornal diário Super Notícia, da região metropolitana de BH, que custa R$ 0,25, praticamente divide há algum tempo a liderença da circulação nacional com a Folha de S. Paulo.
Para se ter uma idéia da queda na venda da Folha de S. Paulo, ela começou o ano 2000 com média diária de 429.476 e fechou o primeiro trimestre de 2009 com 298.352. Em relação ao imponente O Estado de S. Paulo, o tombo foi ainda maior. No iniíco de 2000, era 391.023. Hoje a média diária é de 217.414.
Aliás, falando em público, uma informação desinformadora que alguns estudiosos da comunicação ajudam a difundir é de que mesmo com o advento da Internet a audiência da TV permanece intacta e que, por exemplo, o Jornal Nacional se mantém firme e forte como dantes na terra de abrantes.
Não discuto o tamanho do bicho, nem a sua cara feia. Mas em janeiro/fevereiro de 2000 o JN tinha 39,3% da audiência total das TVs no seu horário de tranmissão. Em janeiro/fevereiro deste ano o percentual era de 28,3%, uma perda de quase 1/3 da audiência, que, por sinal, já foi ainda maior nas décadas de 80 e 90.
Será que a Internet não tem nada a ver com isso? Há ainda quem diga que não. Não é o caso de Kucinski e Venício.
Pra fechar, queria destacar uma reflexão de um trecho que os autores intitularam de “A grande mídia e o supraeditor”. Venício diz que “seria muito interessante fazer uma lista de temas em torno dos quais a grande mídia tem posição consensual”. Achei ótima idéia e convido os leitores a iniciarem este trabalho. E Kucinski completa dizendo que esse tipo de consenso parece fazer crer em algo “na esfera jornalística, (como) um único editor, um supraeditor”. Ainda não sei da existência de tal Big Brother midiático no jornalismo brazuca, mas durante um bom tempo na Venezuela isso de fato ocorreu. Um grupo de editores operava o que ia ao ar em todos os telejornais comerciais para garantir a mesma versão da cobertura noticiosa, principalmente na editoria de política. A isso se deu o nome de “una sola voz”, fenômeno que abordo em “Midiático Poder – O Caso Venezuela e a Guerrilha Informativa”.
Há muito tempo respeito e admiro o saber e o trabalho intelectual de Kuscinki e Venício. E também há muito sei que nossas convicções percorrem trilhas muito semelhantes. Mas a cada encontro com ambos descubro novas afinidades. Foi o que aconteceu neste último “encontro” a partir da leitura de “Diálogos da Perflexidade”, livro que ajuda no debate que estamos realizando no processo da Conferência de Comunicação e que deveria ser lido por todos que se interessam pelo tema, mesmo pelos que se acham espertos no assunto. Principalmente porque não é chato e rançoso. Pelo contrário: é leve, consistente, atualizado, moderno e muito inteligente.
Fonte: Blog do Rovai
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