A década da América Latina

Por Emir Sader*

A década de 1990 foi das piores que a América Latina já viveu. A crise da dívida - com suas consequências: FMI, cartas de intenção, ajustes fiscais, etc. - e as ditaduras militares abriram o caminho para que se impusessem governos neoliberais em praticamente todo o continente. Passamos a ser a região do mundo com a maior quantidade de governos neoliberais e com suas modalidades mais radicais.

A capacidade de reação da América Latina se revelou na sua capacidade de reverter radicalmente esse quadro: passamos a ser a região que concentra os governos eleitos pela rejeição do neoliberalismo, que abriga processos de integração regional independentemente dos EUA, que promove formas inovadoras de integração fora da lógica mercantil.

Líderes latino-americanos como Lula, Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, entre outros, se projetaram internacionalmente, por sua capacidade de encarnar as necessidades dos seus povos. A Bolívia, o Equador e a Venezuela se somaram a Cuba, com os países que - conforme da Unesco - terminaram com o analfabetismo.

Os países que optaram pela integração regional e não por tratados de livre-comércio, expandiram suas economias, distribuíram renda, avançaram nos direitos sociais da população, estenderam notavelmente o mercado interno de consumo popular, diversificaram seu comércio exterior, aumentaram significativamente o comércio entre eles.

Na década anterior, a América Latina havia sido reduzida à intranscendência. Governantes subalternos - Menem, Fujimori, FHC, Carlos Andrés Perez, Carlos Salinas de Gortari - tinham aplicado mecanicamente o mesmo modelo neoliberal, enfraquecido o Estado, a soberania, as economias nacionais.
Os governos dos países que assumiram os programas neoliberais não incomodavam ninguém, havia reduzido nossos Estados a subsequentes perdedores da globalização, que a aplaudiam, à custa da deteriorização ainda maior da situação dos povos dos nossos países.

A primeira década do novo século apresenta uma nova América Latina, com a maior quantidade de governos progressistas que o continente jamais teve. Com processos de integração regional fortalecidos - do Mercosul à Alba, do Banco do Sul à Unasul, do Conselho Sulamericano de Segurança ao Parlamento do Mercosul, entre outras iniciativas.

Desenvolveu-se a Operação Milagre, que já permitiu recuperar a visão a mais de 2 milhões de pessoas, que de outra maneira não teriam possibilidade de recuperar a vista. Formaram-se novas gerações de médicos pobres na melhor medicina social do mundo - a cubana -, nas Escolas Latino-americanas de Medicina.

As crises econômicas da década anterior, típicas do neoliberalismo, que debilitou a capacidade de defesa dos Estados nacionais diante do capital especulativo, que promoveu, entre tantas outras crises, as do México de 1994, do Brasil de 1999 e da Argentina de 2001-2002, devastaram as economias desses países.

O Brasil de FHC deixou um país em recessão prolongada e profunda para Lula, a quem coube superar a crise com políticas de desenvolvimento econômico.

Na década que termina, os países latino-americanos que participam dos processos de integração regional - com destaque para o Brasil, a Bolívia, o Uruguai, o Equador - superaram a crise, desatada pelos países centrais do capitalismo, que ainda estão em recessão, que deverá se prolongar ainda por um bom tempo.

Revelou a capacidade desses países de diversificar seu comércio exterior, de intensificar o comércio intrarregional e de seguir expandindo o mercado interno de consumo popular.

A América Latina mostra hoje ao mundo a cara - imposta pela predominância de governos progressistas - de um continente em expansão econômica, afirmando sua soberania - em questões econômicas, políticas e de segurança regional -, melhorando a situação social do povo, consolidando políticas internacionais que intervêm na decisão dos grandes temas mundiais.

Foi, sem dúvida, essa primeira década do novo século, a década da América Latina que se projeta para a segunda década como um dos exemplos de luta na superação do neoliberalismo e de construção de sociedades mais justas e solidárias.

* Emir Sader é Sociólogo

Fonte: Publicado originalmente no Correio Braziliense


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