O desafio das Reservas Extrativistas

Por Eron Bezerra*

O desafio central das Reservas Extrativistas ou de qualquer outra modalidade que comporta o uso de seus recursos naturais para a atividade produtiva é demonstrar, de forma dialética, que é possível preservar o meio ambiente e elevar o padrão de vida das populações tradicionais que lá viviam mesmo antes de se conhecer o conceito de sustentabilidade.

A ciência nos ensina que a humanidade não se põe problema que não possa resolver. Isso não significa que a ciência tenha respostas prontas a todos os problemas e desafios. Significa que com persistência, conhecimento científico, estrutura material e inventividade, ela é capaz de superar qualquer desafio e encontrar a solução adequada aos distintos problemas que condicionam a permanência da humanidade sobre esse planeta chamado Terra.

Há menos de dois séculos uma viagem entre a Europa e o Brasil levaria um mês, a contração de uma pneumonia significava óbito certo, uma informação preciosa como a independência do Brasil só chegou ao Amazonas um ano depois.

Hoje, com o avião de Santos Dumont, a penicilina de Fleming, o telefone de Gran Bell e a rede mundial de computadores as distâncias de meses viraram horas, infecções fatais se transformaram em “resfriados” e é possível assistir em plena selva amazônica, em tempo real, uma conferência, um espetáculo ou acompanhar uma cirurgia complexa realizada em qualquer parte desse planeta. Milhares de pessoas na selva amazônica são educadas à distância, pelo governo do Amazonas, através de uma simples TV alimentada por satélite.

Muitos problemas, evidentemente, ainda estão sem respostas e outros mais surgirão, tanto pela transformação e evolução natural, quanto pela interferência humana. A velocidade com que esses problemas serão enfrentados decorre, essencialmente, da prioridade que a eles se dará e do interesse da classe dominante. Enquanto a cura da AIDS, por exemplo, se torna cada vez mais factível, milhares de pessoas na Amazônia, na Ásia e na África ainda morrem de malária pela simples inexistência de acesso a medicamentos primários, a base de cloroquina.

É nesse contexto que se insere o desafio da humanidade de, a um só tempo, promover o desenvolvimento e assegurar a sustentabilidade dos recursos naturais; preservar os recursos naturais e se desenvolver, especialmente elevando o padrão de vida das camadas populares urbanas e das populações tradicionais do campo – seringueiros, castanheiros, pescadores e agricultores familiares.

Acabo de visitar a reserva extrativista do Arapixi, sob a coordenação do Instituto Chico Mendes (ICMBio), onde esse desafio está plenamente colocado e é, felizmente, pelo que pude perceber, o centro da preocupação daqueles brasileiros e brasileiras que ali estão, tanto na condição de “população tradicional” quanto de gestores do ICMBio.

Esse desafio me é particularmente caro porque eu passei alguns anos da minha infância no seringal Arapixi, que hoje empresta o nome à reserva extrativista. Voltei ao Arapixi, como Secretário de Estado da Produção Rural, atendendo ao convite do ICMBio e para me inteirar das principais demandas da comunidade e como ajudar na solução das mesmas.

Após 3,5 horas de avião de Manaus a Boca do Acre e 2 horas de “voadeira”, conseguimos chegar a Maracaju I, a primeira comunidade da reserva extrativista do Arapixi, onde se deu a reunião com algumas outras comunidades.

Enquanto a “voadeira” (lancha veloz) vencia cada curva desse que talvez seja – ao lado do Juruá – o mais sinuoso rio do mundo, um rastro de borbulhas ia se misturando no caudal barrento e silencioso das águas do Purus, onde tantas vezes nadei misturado com os botos e saciei a minha sede diretamente do leito do rio.

Silêncio e monotonia, aliás, só quebrado pelo ronco ensurdecedor daquela geringonça metálica, indispensável, entretanto, ao nosso trabalho de extensão rural, sem o que as distâncias e a monotonia se tornam ainda maiores e perturbadoras.

A cada curva, a cada praia, a cada barranco que se ia ou que se vinha, vencido pela “voadeira”, eu buscava o passado. Ver as semelhanças, as transformações, as eventuais evoluções. Em vão.

Pouca coisa mudou desde a minha infância e até mesmo, antes de mim, da visita de Euclides da Cunha quando ali esteve, em 1904, fazendo a demarcação do rio Purus. Trabalho que imortalizou através do livro “a margem da história”, onde faz constatações e sugestões até hoje válidas, na medida em que permanecem sem solução em pleno século 21.

A “fotografia” da minha infância – que eu buscava em cada curva de rio – ou o relato de Euclides da Cunha poderiam perfeitamente serem emolduradas para a realidade de hoje. Pouca coisa mudou desde então.

As mudanças certamente existem. Mas elas são imperceptíveis a um olhar menos atento ou criterioso.

Os seringais e os castanhais, que no passado constituíam a base da economia daquela gente e de toda a região, estão parcialmente abandonados e, conseqüentemente, com atividade econômica bastante reduzida.

Começa a surgir uma incipiente atividade agrícola, o que é um fato alvissareiro, na medida em que não mais dependerão do “regatão” para lhes fornecer alimentos básicos que podem perfeitamente ser produzidos na própria comunidade. No passado a produção de alimentos era proibida em função da lógica de aviamento dos barracões, que primava pela eterna dependência do seringueiro em relação ao seringalista.

A água continua sendo consumida diretamente do rio, sem qualquer tratamento, como eu e tantos outros já fizeram. Não há qualquer sistema de tratamento sanitário. Nem mesmo as fossas sépticas, há muito desenvolvidas pelos serviços de saneamento ali existem.

Vi algumas escolas de ensino fundamental. Não há qualquer tipo de comunicação. A comunidade está literalmente isolada. Sem telefone (fixo ou celular), rádio fonia ou um simples posto de correio postal.

O “luz pra todos” ali ainda não é sequer “para alguns”. Os com melhor poder aquisitivo também criam algumas cabeças de gado para leite e alimento próprio. E, pasmem! Com cerca elétrica a base de energia solar e piquetes que se aproximam do que nós chamamos de pastejo rotacionado. Nossa experiência elevou de 1 para 4 animais por hectare. Em Maracaju I vi uma média de 8 cabeças por hectare.

Também há o inicio de uma organização social associativista, o que explica, dentre outros fatores, a minha presença naquela comunidade.

As demandas, por fim, não poderiam ser diferentes. Querem instrumentos que lhes permita melhorar a produção, beneficiar minimamente os seus produtos, dentre os quais o açúcar mascavo, melhorar a apresentação, o escoamento da produção e a comercialização.

Essa parte foi música para os meus ouvidos e, certamente, para todos que defendem o desenvolvimento sustentado, pois como tenho repetido: não há desenvolvimento sem sustentabilidade e nem sustentabilidade sem desenvolvimento.

O que eles reivindicam corresponde a política do governo do estado e da Sepror, razão pela qual envidaremos esforços para atendê-los, contribuindo para que as reservas extrativistas sejam de fato um local de produção com sustentabilidade e não apenas um santuário como alguns desejam. Se não superarmos esse dilema é muito provável que não haja justificativa teórica e política para sustentá-las.

Se fracassarmos, é bem provável que o produtivismo, cuja essência é o completo desrespeito a sustentabilidade, se consolidara como modelo de ocupação da Amazônia.

É isso que está em jogo. Esse é o desafio.

* Engenheiro Agrônomo, Professor da UFAM, Deputado Estadual Licenciado, Secretário de Agricultura do Estado do Amazonas,


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