As polêmicas eleições iraquianas

Por Lejeune Mirhan *

Eu Após mais de 21 dias, finalmente saíram os resultados oficiais e finais das eleições iraquianas do último dia 7 de março, convocadas sob regime de ocupação militar pela potência estrangeira dos Estados Unidos e seus acólitos. Pretendíamos já ter tratado desse assunto, mas só com dados oficiais nas mãos poderíamos compor um mosaico ainda complexo sobre esse pleito. E por isso, tratamos desse assunto relevante nesta coluna semanal.

Os resultados e os blocos em disputa


Antes de tecer uma análise sobre os possíveis desdobramentos das eleições, vamos aos resultados oficiais. No entanto, convém ressaltar que desde 2005, esta eleição foi a segunda para o parlamento, mas realizada sob um regime de ocupação militar estrangeira, que viola todas as normas internacionais de direito estabelecidas pelas convenções da ONU. Ainda mais pelo simples fato de que o maior de todos os Partidos, o Socialista Árabe Baath, do ex-presidente assassinado, Saddam Hussein, continua banido da vida pública e teve pelo menos 500 pré-candidatos impugnados para disputar as eleições.

De qualquer forma, não tivemos notícias de grandes grupos, políticos ou religiosos, que tivessem boicotado o pleito. Quatro grandes blocos disputaram as eleições. Vamos à eles e seus resultados. Lembramos que o parlamento é composto por 325 cadeiras de deputados (unicameral, sem senadores).

1. Bloco “Iraqyia” – de Iyad Allawi –
ainda que um muçulmano xiita, Allawi é um político secular. Viveu exilado por 30 anos, no período que Saddam governou o Iraque. Chegou a ser primeiro Ministro antes das eleições de 2005. Fundou o “Acordo Nacional Iraquiano” e sua coligação foi ampla. Colaborou com o MI6, órgão de inteligência da Inglaterra onde vivia com a família no exílio, antes da invasão de 2003. Sua coligação elegeu 91 deputados (28%);

2. Coalizão “Estado de Direito” – de Nouri El Maliki –
atual primeiro Ministro acabou perdendo a maioria por pouco. Elegeu 89 deputados (27%). É presidente do Partido Dawa. É o atual primeiro Ministro, também xiita, mas também de orientação laica. Aceitou o acordo proposto por Bush ao final de seu governo em janeiro de 2009, de manter tropas americanas no Iraque ocupado até pelo menos dezembro de 2011. Foi considerado derrotado nas eleições, pois, apesar de toda a máquina governamental, ficou atrás de seu opositor Allawi. Também viveu no exílio na época do governo de Saddam, retornando com a ocupação e sob proteção estadunidense e com colaborou e fez vários acordos com os americanos. Vai tentar, de todas as formas, formar um segundo governo;

3. Aliança Nacional Iraquiana – de Moqtada Al Sadr –
foi de certa forma o grande vitorioso. Sua coalizão, apoiada pelo Irã, conseguiu eleger 70 deputados e todos terão que negociar com esse bloco para formar uma maioria no governo. Esse jovem clérigo muçulmano de 36 anos é filho de conceituado clérigo, morto na época de Saddam. Neste momento encontra-se estudando para ser um Marja, caminho para chegar a ser aiatolá. Esta morando no Irã, na cidade sagrada de Qom. É o que se pode chamar de estrela em ascensão e anti-Estados Unidos;

4. Aliança Curda/Gorran –
demonstrou força no Iraque, pois conseguiu eleger 51 deputados. É composta por deputados de várias correntes, que formam essa frente política inclusive o PKK. O atual presidente do Iraque, o curdo Jalal Talabani é desse bloco. São forte no norte do país, em especial em Mossul, cidade rica em petróleo. Devem participar de uma coalizão de governo, formando maioria ou com Allawi ou com Maliki.

Partidos políticos menores elegeram outros 24 deputados, mas seguramente não jogarão papel importante no processo de formação de governo que será decidida por dois grandes blocos acima.

Pequenos comentários


De minha parte, em meio a uma extrema complexidade, gostaria de deixar registrado algumas opiniões:

  • As eleições não foram e nunca seriam legítimas, pois foram realizadas sob ocupação militar de nação estrangeira;
  • As liberdades políticas nunca foram amplas. A Comissão Eleitoral “Independente” foi presidida por Ahmed Chalabi, que foi vinculado com a CIA durante anos; convenhamos: chamar algo de “independente” num país ocupado militarmente é uma piada;
  • Houve denúncia de um candidato de nome Hasan Salman, que disse que foram impressas seis milhões de cédulas a mais do que o número de eleitores inscritos nas seções eleitorais;
  • As abstenções chegaram a quase 40%, elevadas, e muito maiores que as de 2005;
  • Mais uma vez as imagens não falam a realidade. Não haviam filas nas cabines de votação e mesmo que 60% dos eleitores tenham comparecido, era de se esperar enormes filas; um blog do NYT menciona “ruas vazias e cabines eleitorais às moscas”;
  • O Iraque segue sendo estratégico para a política externa e para o suprimento energético dos Estados Unidos; é estratégico colocar as reservas petrolíferas nas mãos da EXXON, da Chevron, da Shell e da BP;
  • Mesmo após sete anos de ocupação militar, reina o caos no país, onde a luz e a água são ainda totalmente racionadas (lembremos em depois de fevereiro de 1991, quando os americanos deixaram o país, Saddam o reconstruiu em apenas um ano);
  • Os Estados Unidos devem iniciar a retirada de tropas a partir de agosto, mas até dezembro de 2011, quase cem mil soldados ficarão estacionados nesse país árabe.

É imprevisível o desfecho para a formação de um novo governo. Esperamos que não venha a ser um governo sectário e confessional, apesar da força da religião islâmica no processo (o principal aiatolá, Ali Al Sistani incentivou o comparecimento, mas não apoiou desta vez nenhuma coligação). A complexidade do processo, as contradições mesmo entre os apoiadores da ocupação, como Allawi e Maliki, podem se acirrar, abrindo portas para o avanço da resistência que luta tenazmente pela expulsão dos americanos de solo pátrio iraquiano. Vamos seguir monitorando o processo e em breve voltamos com mais comentários.

* Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, escritor, arabista e professor. Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association.


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