Enem revela, outra vez, o que deveria ser evidente
Por Vitor Barletta Machado
As escolas particulares ocupam os primeiros lugares do Enem novamente. Das vinte melhores 18 são privadas. As duas públicas que aparecem entre elas são ligadas à universidades, uma com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e outra com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A melhor escola, o Colégio Vértice em São Paulo, fez 749,7 pontos e a pior, a Escola Estadual Indígena Dom Pedro I no Amazonas, fez 249,25 pontos. Os vinte últimos lugares são ocupados somente por escolas públicas estaduais ou municipais. Até aqui nada de novo, pois é a repetição do quadro geral de todo Enem.
O Jornal do Brasil publicou entrevista com Wanda Engel, do Conselho de Governança do movimento Todos pela Educação, a qual afirma que o Enem não serve para avaliar a qualidade das escolas. Serve para avaliar a qualidade do aluno, uma vez que o exame não é obrigatório e muitas escolas estimulam somente a participação de seus melhores alunos. É um argumento importante.
O Colégio Vértice teve 62 inscritos mas somente 37 fizeram a prova (cerca de 40,3% de ausentes). Já o colégio da UFV teve 159 inscritos, dos quais 152 fizeram a prova (somente 4,4% de ausentes). É uma diferença que certamente afeta o estar em primeiro lugar ou em sétimo (caso do colégi o federal). O colégio que ficou em último teve 58 alunos inscritos e 40 que efetivamente fizeram a prova (31% de ausentes).
O relatório de classificação das escolas no Enem possuí 632 páginas (pode ser baixado aqui, do site da Folha.com), mas o ranking termina na página 485 (com o colégio aqui mencionado do Amazonas). As primeiras 80 páginas são praticamente exclusivas das privadas e as últimas 80 páginas quase exclusivas das públicas estaduais. Mas sobram 147 páginas com escolas que tiveram menos de 2% de seus alunos participando do exame e que por isso não tiveram suas notas divulgadas. São 5399 escolas, 3483 públicas e 1916 privadas, para as quais o Enem passou quase que literalmente em branco. São alunos que não vão poder disputar uma vaga em nenhuma das u niversidades federais que vão utilizar somente a nota do Enem como critério de seleção.
Mas o que é mais revelador nos dados do Enem, como sempre, é aquilo que apontado como a receita do sucesso do primeiro lugar. Uma escola com 900 alunos, que não ultrapassa o máximo de 50 alunos por sala, com uma mensalidade que vai de R$ 2.253 até R$ 2.756, incluindo neste valor várias atividades extracurriculares, como aulas de música, atividades esportivas, dança, culinária, teatro entre outras. A escola estimula a autonomia dos alunos e enfatiza a leitura. Todos na escola estão atentos e disponíveis para identificar problemas com os alunos e atendê-los sempre que necessário. Buscam uma parceria de confiança mútua com as famílias, que precisam conhec er o trabalho da escola. O que fazem quando tal confiança não existe? Recomendam que os pais procurem outra escola para seus filhos. O salário médio pago aos professores é de R$ 7.000,00.
O Colégio de Aplicação da UFV possuí professores selecionados em concurso público, no qual a titulação é levada em consideração, em regime de dedicação exclusiva. Estão disponíveis para atender os alunos em todos os horários do dia. O salário inicial, divulgado em edital este ano, é de R$ 2,757,64, havendo uma progressão significativa deste valor no plano de carreira. No ano passado, 2009, a remuneração de seus professores ficou entre R$ 2.300,00 e R$ 5.800,00.
Não vamos nos alongar mais. A receita segue os seguintes pontos:
- escolas estruturadas para receber os alunos, com laboratórios, computadores e biblioteca;
- professores com dedicação exclusiva ou quase exclusiva;
- parceria real entre pais e escola (o que excluí a relação de cliente/empresa praticada em muitas escolas e universidades);
- respeito aos professores, demonstrado tanto pela direção, pelos alunos e os pais;
- respeitos aos alunos praticado por professores, direção e pais;
- estimular a qualificação dos profissionais;
- remuneração que valoriza o profissional e lhe permite uma dedicação exclusiva, bem como o tempo necessário para preparara aulas inovadoras, com uso de recursos tecnológicos.
E não importa se é privada ou pública, a receita é a mesma. Quem não gasta dinheiro e tempo de dedicação com a educação não colhe resultados positivos.
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