A questão de fundo dos cartões

Por Luiz Weis*

Porque hoje é domingo, imaginei encontrar nos grandes jornais - ou pelo menos em um deles - alguma tentativa de ir à raíz do problema dos cartões corporativos, até aqui ignorada no mar de números em que navega o noticiário sobre o seu uso, com duvidoso proveito para o leitor.

A questão básica, de que a imprensa continuou a passar ao largo, é a de como o setor público pode administrar melhor o seu custeio - a infinidade de despesas do dia-a-dia, parte delas pagas com dinheiro de plástico ou com cheques de contas especiais dos pagadores, sem as quais o Estado estanca.

Esse gerenciamento beira a quadratura do círculo. Idealmente, a manutenção da máquina deve se dar com um mínimo de burocracia, em nome da agilidade, mas com regras e controles tais que limitem o desperdício - fazendo cada real render o máximo, ou quase, em cada gasto-, previnam os abusos e flagrem os desvios, com a punição rápida dos que deliberadamente privatizam em benefício próprio recursos públicos ao seu alcance.

Uma das provas da imensa dificuldade de conciliar tudo isso, mesmo no mais honesto e austero dos governos, está no vai-vem das diretrizes a respeito. Todos os ministros devem ter cartão, se diz num dia. Nenhum ministro deve ter cartão, se diz no outro - para citar um de uma montanha de possíveis exemplos das mudanças de políticas no setor.

Governar o governo é um nó. Começa pela imensidão das zonas de sombra entre o que obviamente deve ser permitido e obviamente deve ser proibido no manejo cotidiano do dinheiro do contribuinte. E termina na necessidade de um exército de funcionários que fiscalizem os desembolsos dos colegas.

De novo para pegar um caso entre milhares, pensem nos R$ 8 reais que o ministro dos Esportes gastou com uma tapioca, bancados por seu cartão. Foi uma irregularidade única e exclusivamente porque ele estava em Brasília. Estivesse ele a serviço, digamos, em Goiânia, a uma pedrada de distância da capital, teria o direito de pagar o manjar com o meu, o seu, o nosso - pela razão elementar de que o custeio do governo federal inclui hospedagem, deslocamentos e alimentação dos servidores em viagem.

Acho que já deu para pegar o espírito da coisa, pois não? Imaginem então que belo serviço poderia ter feito hoje o jornal que gastasse um par de páginas mapeando o pantanoso terreno da economia doméstica dos governos, discutindo alternativas, fazendo comparações - para não reduzir as coisas, pela enésima vez, ao facilitário do denuncismo.

Até porque o dinheiro público que vai para o ralo por indiferença ou incompetência de quem o gasta representa um escândalo tão ou mais grave do que o do dinheiro que vai para o bolso dos corruptos.

* Luiz Weis é Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.

Fonte: Observatório da Imprensa
Publicado em 11/02/2008