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Educação como produto
Por Rosely Sayão*
Vernor Muños Villa-Lobos, costa-riquenho, é relator especial da Organização das Nações Unidas pelo Direito à Educação. Esteve no Brasil recentemente e reafirmou o princípio que defende de modo intransigente: o de que a educação é um direito humano que deve ser garantido, e não um serviço a ser oferecido.
Duvido que alguém, pelo menos no plano das idéias, rejeite tal concepção. Entretanto, na sociedade com ideal de consumo em que vivemos, a idéia de educação como prestação de serviço -tanto estatal quanto privada- pegou mesmo.
Vejamos, por exemplo, o que ocorre no início do ano letivo nas escolas, principalmente particulares: diretores, orientadores e coordenadores passam horas atendendo aos pais que solicitam que seus filhos sejam transferidos de turma.
Todo ano é a mesma ladainha, e já me referi ao assunto. Mas parece que é preciso abordá-lo sob outro ponto de vista. Todo tipo de justificativa é levantado pelos pais para convencer a escola a atender a solicitação. Em alguns casos, o comportamento dos pais evidencia a arrogância: exigem e ameaçam trocar de escola caso não sejam atendidos. Esse é um dos maiores sinais do tratamento da educação como serviço, e tal atitude compromete a educação como direito de acesso à cidadania.
Professora grávida no início do ano escolar é motivo suficiente para alguns pais -mães, na maioria- solicitarem a mudança. A alegação é a de que a mestra se licenciará e, por isso, o filho ficará prejudicado na continuidade do aprendizado.
Quem diria que algumas mulheres seriam capazes de colocar a gravidez como problema no trabalho, não é mesmo? Será que elas não pensam que elas mesmas podem sofrer tal discriminação em sua profissão? Quanto ao aluno, é bom saber que ele é capaz de se adaptar às novas situações, fazer novas relações com outro professor e continuar progredindo no estudo. Esse é um aprendizado excelente para a vida.
Uma razão que me espantou foi a de uma família que pediu para seu filho trocar de sala porque um colega é filho de um casal com o qual os pais não se dão e isso poderia criar situações constrangedoras. Esses pais não pensam que a formação para a cidadania, dever também da escola, supõe o aprendizado da convivência respeitosa e que situações da vida privada não podem interferir na passagem da vida familiar para a vida pública? Por fim, os de sempre: os colegas do ano anterior estão em outra sala, o filho não teve empatia com o novo professor etc.
Todas as razões desses pedidos apontam para um mesmo rumo: o do tratamento da educação como serviço. Os pais que fazem tais solicitações não se dão conta de que o maior prejudicado nessa história é o próprio filho, que precisa aprender a viver no mundo público. As escolas que os atendem se comprometem no trabalho educativo porque tornam lícita a idéia de prestação de serviço. Moral da história: com essa atitude de pais e escolas, quem sai perdendo é toda a sociedade.
* Rosely Sayão é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
Fonte: Folha de São Paulo
Publicado em 14/02/2008 |
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