|
|
O modelo que transformou a Educação em um negócio lucrativo
O avanço dos processos de mercantilização do Ensino Superior desperta muitas discussões e uma preocupação importante: o modelo de Instituição de ensino que se consolida a partir de tais práticas. Em geral, ele estabelece parâmetros deficientes de formação dos futuros profissionais e reflete a total falta de comprometimento com o desenvolvimento do País e a soberania nacional.
Hoje, o Grupo Anhanguera Educacional pode ser apontado como um dos exemplos emblemáticos desse novo modelo de universidade, dirigido pelas “leis do mercado” e que tem como objetivo a expansão agressiva e o aumento da lucratividade, em detrimento da qualidade do ensino.
A Anhanguera é enfática ao afirmar que seus “serviços” são voltados aos estudantes de baixa renda (classes C e D), que trabalham e estudam, e frequentam, em sua maioria (80%), os cursos noturnos. A universidade já está presente em 24 cidades e 4 Estados brasileiros e, em 2008, deve atingir a marca de mais de 130 mil estudantes. Sua política é a redução de custos, mensalidades baratas e classes lotadas, muitas vezes com mais de 175 alunos por turma.
Assim, não há como não despertar dúvidas em relação à qualidade da educação oferecida.
Segundo reportagem da Revista Exame, a Instituição não se preocupa com “aparência”. Suas salas de aula geralmente têm paredes de blocos aparentes, pintadas de branco, com chão de cimento, em prédios que já foram ocupados por galpões de fábricas.
Organização docente e estudantil
O que para seu proprietário, Antonio Carbonari Netto, é motivo de satisfação, preocupa as entidades ligadas à Educação, em especial a CONTEE, no que tange às relações de trabalho.
Em reportagem do jornal “A Tribuna Piracicabana”, o diretor acadêmico da Instituição, José Luiz Polli, afirma que a Anhanguera não contrata profissionais que façam parte de sindicatos. Segundo ele, essa é uma política da empresa, que acredita que a negociação com profissionais sindicalizados é mais díficil. Além disso, os professores da Instituição são submetidos a duas avaliações semestrais, sendo que, se forem mal avaliados por três semestres, são demitidos.
A Anhanguera também se opõe aos conceitos de formação humanista da universidade, que além de preparar o estudante para o exercício profissiocal também é responsável por subsidiar seu desenvolvimento como cidadão, por meio da relação acadêmica e da produção de conhecimento.
Segundo Carbonari, “nosso curso é voltado para o estudante-trabalhador, que não quer vida acadêmica, mas sim saber se a sua formação irá possibilitar inclusão e ascenção social”. A “fórmula mágica” fez com que, nos últimos três anos, o faturamento do Grupo praticamente triplicasse, passando de 52 milhões para 143 milhões de reais.
O que prova que o modelo “fábrica de diploma” pode ser atrativo e lucrativo. Não é a toa que a Anhanguera, nosso exemplo, entre tantas Instituições que seguem a mesma receita, abriu seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo, em março de 2007. Ela obteve, até o momento, uma captação de R$512 milhões e uma valorização de suas ações de mais de 9%. Seguindo este caminho estão a rede Pitágoras, de Minas Gerais, e a Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, que já adotaram a mesma estratégia.
Um prato cheio para os investidores internacionais, evidentemente interessados em aumentar seus lucros e rendimentos. Entretanto, eles alertam que a manutenção da expansão do ensino privado depende da “gestão profissional” das empresas. "A chance de crescimento está nas camadas populares, que apostam em um diploma de nível superior para melhorar de vida", diz Ricardo Scavazza, diretor de relações com investidores da Anhanguera e sócio da Pátria Investimentos, gestora de recursos que, por meio de um de seus fundos, associou-se à rede em 2003 e, logo depois, assumiu seu controle. O negócio tem dado tão certo que a Anhanguera já anunciou: até 2009 serão implantadas mais 12 Instituições no País.
Vale refletir, contudo, sobre as conseqüências, de permitirmos que esse modelo de educação se expanda, domine o mercado, canibalize as pequenas Instituições, formando grandes corporações. Para isso, é bom lembrar que esse modelo de exploração comercial da educação não é fruto de uma “fantástica descoberta” dos empresários brasileiros. É uma velha e conhecida recomendação dos organismos internacionais para os países em desenvolvimento. Uma manjada tática que propõe a adoção de políticas educacionais em países pobres, que jamais seria permitida nas nações desenvolvidas. Afinal, semeam a subjugação. São apenas novas formas de manutenção do espírito de colonização e exploração de muitas nações.
Portanto, o modelo de Instituição do Grupo Anhanguera é também, indiretamente, reflexo das políticas do Banco Mundial, que declararou, em um documento chamado “Highter Education – The Lesson of Experience” (“Educação Superior – As Lições da Experiência”), de 1994, que os países da América Latina devidam abandonar o modelo educacional europeu, que presupõe a produção de conhecimento por meio de pesquisa, considerado caro e pouco eficiente, para oferecer ensino “não universitário” – baseado em institutos técnicos e cursos de curta duração.
Ação urgente
Sâo muitas as razões que mostram que o Brasil não pode sucumbir diante da ingerência internacional em áreas estratégicas para o desenvolvimento do País. Por isso, a regulamentação do ensino superior privado por parte do Governo Federal se faz cada dia mais necessária e urgente, se opondo aos interesses do capital, que trabalham incessante e ardilosamente para manter o status quo.
Da redação
Publicado em 23/11/2007 |
|
|
|