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Mídia, educação e credibilidade – desafios para o Brasil
Não é de hoje que o tipo de cobertura e de tratamento dado pelos meios de comunicação no Brasil aos temas relacionados ao movimento social é discutível. Muitos setores denunciam o preconceito, a indiferença e até mesmo a criminalização dos líderes e das entidades. Na área educacional isso não é diferente. E a importante presença de grandes anunciantes do setor nos principais veículos de comunicação brasileiros não contribui em nada para melhorar a questão.
As empresas fazem um lobby forte e os órgãos de imprensa, por sua vez, se vêem talvez em dois grandes impasses. Um de natureza ‘ética’, outro estritamente ‘comercial’. Do ponto de vista financeiro, certamente não é interessante para uma empresa expor as fragilidades, fazer denúncias ou mesmo contestar os procedimentos e a conduta de um grande anunciante. Em relação à questão ética, a situação é ainda mais complexa. Especialmente em se tratando das corporações de mídia no Brasil, haja vista que estão concentradas – todos sabem – nas mãos das mesmas famílias conservadoras que representam as maiores fortunas do País. Nestes casos, a deformidade na abordagem dos movimentos sociais tem de fato um viés ideológico, calcado na manutenção das instâncias de poder e no desinteresse pela ascensão da massa popular.
Merecem destaque também nesta discussão as campanhas publicitárias de grandes corporações de ensino superior, que contratam artistas e celebridades para protagonizarem suas propagandas na televisão. Pessoas que, muitas vezes, sequer cursaram o Ensino Superior, mas que emprestam (ou vendem?) a sua “credibilidade” para assegurar a qualidade de uma instituição de ensino.
Em reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo, no início de novembro, o presidente das Faculdades Anhanguera falou sobre a garota-propaganda contratada para estrelar a campanha publicitária da Instituição: a apresentadora de televisão e modelo Ana Hickmann, que terminou recentemente o curso supletivo do ensino médio. Para Antonio Carbonari Netto, "não interessa se a Ana Hickmann não fez faculdade. Na publicidade, o que interessa é a imagem que você passa para o público. Procuramos artistas que representassem a Anhanguera de forma culta e que mostrassem uma ascensão", diz ele.
Aparentemente a contestação do Jornal paulista parece pertinente e bem intencionada. Afinal, a situação apontada é no mínimo constrangedora. Mas essa não é, entretanto, a opinião do jornalista Alberto Dines, criador e coordenador do portal Observatório da Imprensa – “entidade civil, não-governamental, não-corporativa e não-partidária” – que, segundo informam, tem como objetivo “acompanhar, junto com outras organizações da sociedade civil, o desempenho da mídia brasileira”.
Em artigo publicado no referido Portal, Dines afirma que “a matéria foi encomendada à Folha pela universidade do senhor Carbonari para aproveitar a festa de lançamento da sua nova campanha de anúncios”. Segundo ele, “as matérias de interesse comercial agora entram na pauta normalmente, são publicadas no corpo do jornal sem características de matéria paga e assinadas por repórteres do quadro fixo”.
A denúncia de Dines parece dizer que para determinadas estratégias de marketing o importante é estar “na pauta do dia”, não importa como. Dar o que falar, gerar polêmica, vender notícia, jornal, diplomas. E assim caminha a mercantilização da educação.
A informação não chega surpreender, mas chama atenção pela falta de compromisso com a verdade, com o leitor, com a credibilidade do veículo e das fontes consultadas. Esse é apenas um dos muitos exemplos cotidianos que demonstram o grau de comprometimento dos órgãos de imprensa com os interesses privados, e a ausência de transparência com o leitor. Sem contar a superficialidade e o menosprezo dos publicitários e das ‘empresas’ com a credibilidade e a responsabilidade do seu trabalho.
Ana Hickmann não é menos qualificada a exercer nenhuma atividade por não ter freqüentado uma universidade. Em absoluto. O fato apenas caracteriza emblematicamente a falta de importância que o Brasil dá à Educação. Ao que parece, ela conquistou a ascensão social, e isso basta para ser admirada e copiada. Seja como for. Enquanto a cultura, a educação e cidadania não representarem o verdadeiro marco de credibilidade e apontarem como exemplo a ser seguido, vivenciaremos tais incongruências e deixaremos que os mesmos velhos setores da elite conservadora mandem e desmandem na mídia, nos governos, no País.
Da redação
Publicado em 11/12/2007 |
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