“Negócio do Ensino” ganha espaço na grande imprensa

No último período, o noticiário de economia e de educação tem se misturado como nunca se viu antes. As grandes negociatas do setor educacional, que movimentam milhões de reais, chamam a atenção dos colunistas de veículos de comunicação da grande imprensa. Até mesmo anúncios no caderno de “Classificados” procuram investidores para setor da Educação.

Infelizmente, as notícias não refletem sobre as conseqüências de tais negócios para a educação brasileira e limitam-se a divulgar os valores estratosféricos que grandes conglomerados educacionais movimentam no “mercado da educação”.

Somente na Revista Veja, nas últimas semanas, já foram vistas diversas citações sobre o tema. A coluna on-line de Lauro Jaridm divulgou, entre os dias 29/02 e 03/03, as novas ações do Grupo Anhanguera Educacional e da Estácio de Sá.
Veja as notas publicadas na “Veja on line”:

ECONOMIA

O negócio do ensino
(29/02/2008)
A Anhanguera Educacional, que abriu o seu capital na Bovespa há um ano, acaba de botar o pé em Santa Catarina. Comprou a Educar, que possui cinco faculdades no estado, por 30 milhões de reais. Na semana passada, a Anhanguera comprou a brasiliense Facnet. Os dois negócios somam mais 9 400 alunos para a instituição fundada em 1994. Hoje, a Anhanguera possui cerca de 60 000 alunos e fatura 200 milhões de reais por ano. O foco da Anhanguera é a classe média e classe média baixa
.

O negócio da educação 1 (03/03/2008)
A carioca Estácio, o maior grupo universitário do país, comprou na sexta-feira três faculdades - todas em São Paulo. Pagou 16,9 milhões de reais pela Faculdade Interlagos, Instituto Euro-Latino-Americano de Cultura e Tecnologia e pela Faculdade Brasília de São Paulo. E acrescentou 4 000 alunos aos seu portfólio. No total, são quase 190 000 alunos.

O negócio da educação 2
(03/03/2008)
É uma espécie de reação da Estácio às últimas investidas da paulista Anhanguera, que, nas duas últimas semanas, comprou seis faculdades (cinco em Santa Catarina e uma em Brasília) e acrescentou quase 10 000 alunos aos seus 50 000 estudantes. O nome do jogo no negócio da educação é consolidação e concentração. Por isso, as aquisições têm ainda longo caminho pela frente.

Um mercado paralelo
A lógica da mercantilização da Educação se projeta na mídia com desenvoltura e a moeda de troca que se tornou o estudante universitário no Brasil é evidente. Leia nota publicada na coluna de Edison Veiga, na mesma Revista Veja, de 27/02/08:

Alunos à venda

No último dia 18, a Universidade Estácio de Sá pagou 15,3 milhões de reais por três faculdades de São Paulo. Esse valor levou em conta o número de estudantes das instituições (na média, cada aluno saiu por 4381 reais). Agora, além do Centro Universitário Radial, adquirido em agosto de 2007, as faculdades Interlagos, Europan e Brasília passarão a ter a bandeira do grupo carioca.

Total descontrole
A situação é grave e chegamos a um ponto, até o momento, inédito. Em anúncio publicitário, publicado no Jornal Folha de São Paulo, de 02/03/2008, um dito “jurista de conceito internacional” anuncia que está a “procura 20 ou mais investidores atuantes ou não para o melhor negócio do planeta com Insolvência Zero. Para lançamento da primeira e única Universidade Tributária/ Mercado Financeiro fechando parceria e intercambio com Hardward EUA”.

O anúncio diz ainda: “Nossa capacidade inicial será de 5 a 8 mil alunos c/ aulas ao vivo, nosso público alvo serão quase 30 milhões de profissionais, advogados, executivos e empresários de todo país c/ aulas diárias também via Internet. Incluso escritório da Universidade que prestará serviços na área tributária p/ empresas de médio e grande porte de todo país inclusive mercosul. Após a inauguração ainda este ano nosso faturamento ultrapassara os 30 milhões de reais/mês c/altíssima rentabilidade além de editora que publicara livros e apostilas p/ concurso público atualizadas inclusive gráfica. A Universidade terá um escritório que vendera pareceres e ser- viços p/ empresas de grande e médio porte. Instalada a 10Km do centro de Uberlândia MG c/ área de 60.000‹ anexo finíssimo escritório já pronto p/ Reitoria e Diretoria c/ restaurante já monta- do p/ diretores e professores em salão nobre decorado em gesso. Possui todo Know know c/ equipe composta por ex-auditores, ex-delegados receita e juristas de renome que serão convidados p/ todo final de semana p/ palestras sobre atualização tributária. O mais Lucrativo negócio do Planeta E.mail: ubrasil@yahoo.com.br F:(34)9158-3995”.

Situações absurdas, como esta, só são possíveis num cenário de total desregulamentação, tal qual acontece no Brasil. Não podemos ficar de braços cruzados enquanto cidadãos quaisquer se lançam a criar Universidades e a buscar investidores como se o “negócio” se tratasse de um produto industrial indiferente.

O País não pode perder a noção do caráter estratégico que a educação tem para o desenvolvimento da Nação, e a imprensa tem papel fundamental neste aspecto. Não podemos permitir que a total falta de escrúpulos e a mercantilização indiscriminada das Instituições de Ensino tornem a sociedade brasileira uma vítima de empresários e investidores, que estão – claramente – apenas interessados em ganhar dinheiro com a verdadeira e indiscriminada exploração comercial da educação em nosso País.

É por isso que a CONTEE segue sua luta em defesa da Educação e acredita cada dia mais na importância da Campanha “Educação Não é Mercadoria”. Venha fazer a sua parte! Entre você também nesta luta.

Daniele Moraes, da redação
Publicado em 07/03/2008