Reprovar ou recuperar o aluno?

Repetir o ano nem sempre é ruim para o estudante. Mas há casos isolados.

A estudante Ana Elisa Vicentin, 18 anos, chegou ao final do segundo ano do Ensino Médio com dificuldades em diversas disciplinas e com a certeza de que a recuperação era inevitável. Depois de uma longa conversa com o pai, resolveu abrir mão da tentativa de salvar o ano e decidiu que passaria pela mesma série novamente.

A situação de Ana Elisa é mais comum do que se pode imaginar, e, com o fim do ano letivo, os pais de alunos com problemas na escola passam pelo dilema: investir até o fim na recuperação ou deixar que o estudante repita o ano para conseguir um aproveitamento melhor das matérias? "Eu mudei de colégio depois de repetir o ano e, no início, foi muito difícil porque as pessoas da minha classe eram mais novas e eu sabia que teria de rever um monte de assuntos", conta Ana Elisa. "Mas foi muito importante para o meu amadurecimento e me fez perceber que não havia outro jeito: eu tinha de estudar para conseguir me livrar daquela situação desconfortável. O resultado foi excelente e consegui passar de ano com tranquilidade, sem fazer recuperação. Acho que aprendi a lição", completa. A repetência, no entanto, para muitos não é a melhor solução.

A professora Mirtes Maria Santoro considera a experiência desnecessária porque, além de ser um atraso na vida acadêmica do estudante, influencia negativamente na auto-estima da criança ou do adolescente. De acordo com Mirtes, é fundamental que haja uma sintonia entre escola, pais e aluno. "Pais e professores têm que prestar mais atenção no estudante para perceber possíveis dificuldades, evitar o desempenho ruim e, depois, conscientizá-lo sobre todo o incentivo e o investimento que é feito em busca de um rendimento satisfatório", explica a professora.

Alternativas - Mirtes Santoro opina sobre as alternativas que poderiam ser criadas para extinguir o sistema de repetência no Brasil. Para a professora, uma das soluções já é adotada em alguns centros de ensino do País: o chamado de esquema de dependência de disciplinas, quando o aluno passa para a série seguinte, mas tem a obrigação de ser aprovado na matéria em que não obteve nota suficiente no ano anterior. "O procedimento de repetir o ano não é adotado em países desenvolvidos. Não entendo por que somente países emergentes, como o Brasil, continuam com essa prática", questiona.

A coordenadora do Centro de Ensino Médio Elefante Branco (908 Sul), Edileuza Aguiar, ressalta que em alguns casos a repetência é a única saída para o aluno. "Eu divido esse assunto em dois casos: os que têm dificuldades em uma ou duas disciplinas e os que brincaram o ano inteiro e não têm base para ir à série seguinte", destaca. Segundo ela, não adianta empurrar o aluno para o próximo ano porque, com a falta de conteúdo, ele acabará sendo reprovado cedo ou tarde.

Edileuza concorda com Mirtes e alerta para a falta de cobrança dos pais: "Escola não é depósito de meninos. Eles também precisam da atenção da família". Dilema - A difícil escolha entre gastar quase o equivalente a uma mensalidade da escola com aulas particulares e deixar o filho reprovar está tirando o sono da funcionária pública Joelma Alves, 40 anos. Mãe de um adolescente de 15 anos, ela não sabe o que seria melhor para o garoto. "Mesmo com as minhas cobranças, admito que meu filho não gosta de estudar. Acho que a reprovação seria o melhor, mas temo que a repetência o desestimule mais ainda", ressalta. Joelma tem a impressão de que o filho "brinca de estudar" o ano inteiro e, nas provas finais, sempre consegue notas para aprovação. "Só que este ano foi diferente. Ele não conseguiu a salvação final", conta.

Aula extra pode ajudar - O advogado Ênio Machado paga, há alguns anos, aulas de reforço escolar para a filha Rafaela, 17 anos, que tem dificuldades em disciplinas como matemática, química e física. Quando a ajuda externa não é suficiente e a aluna não consegue atingir as notas necessárias, Machado faz questão de bancar a recuperação da adolescente, que está no último ano do Ensino Médio. "Vou tentando até ela conseguir achar a metodologia de estudo correta e adquirir a maturidade suficiente para não precisar mais do reforço. Na minha opinião, essas aulas fora da escola ajudam bastante", relata o advogado. Rafaela Machado garante que tenta retribuir o investimento do pai com muito esforço e estudo.

De manhã, a estudante fica no colégio até as 12h30. A partir das 14h, a garota é acompanhada por professores em um curso de reforço escolar.  Ainda assim, deve fazer a recuperação de três disciplinas este ano. Para a proprietária do Curso Nota 10, Débora Botelho, o acompanhamento com reforço escolar desde o início do ano letivo é essencial para alunos com histórico de dificuldades no colégio. "Se o adolescente ou a criança não foi bem no ano anterior, é lógico que ele irá precisar de ajuda", analisa. "O problema é que muitos pais só procuram o reforço quando os filhos já estão afundados na escola e, muitas vezes, é tarde. Os pais que estão sempre atentos ao rendimento dos filhos no colégio dificilmente são surpreendidos com problemas no final do ano".

Outro aspecto importante que pode fazer a diferença no desempenho, explica Débora, é observar se o estudante está feliz no colégio e se o relacionamento com professores e colegas é bom. Desenvolver a ortografia e a interpretação de texto, além da prática de esportes e o estudo de instrumentos musicais, também são iniciativas recomendadas para ajudar no rendimento escolar. "Essas atividades relaxam e ajudam na concentração", aconselha. "Vale a pena, sim, investir na recuperação do aluno, mas, se o estudante não atingir o objetivo, mesmo depois de todos os esforços, é preciso avaliar muito bem o caso de cada um para não transformar em tragédia uma situação que, por si só, é muito ruim", conclui a educadora.

Reflexos - Para a pedagoga Anete Lemos, a reprovação pode ser conseqüência de vários fatores, isolados ou em conjunto. Existem dificuldades que estão ligadas à questão da aprendizagem anterior, como falta de base, aulas desinteressantes, sistema de avaliação, questões psicológicas e relacionamento com os professores e colegas. Sem falar das relações familiares. De acordo com ela, quando o aluno vai mal em uma ou até duas matérias, a recuperação pode ser a melhor opção. Mas Anete se lembra de um caso em que o filho de uma amiga precisou fazer recuperação final em sete disciplinas. "Esse caso mostra que há um problema amplo de aprendizado. Eu recomendei que ela deixasse o filho repetir o ano porque ele não estava aprendendo nada", conta.

Fonte: Jornal de Brasília
Publicado em 27/11/2007