Campo atrasado: só 36% dos jovens de 15 a 17 anos no ensino médio

Proporção de adolescentes que conclui a educação básica com a idade ideal subiu 13 pontos percentuais, mas índice ainda é baixo

Os índices usados para medir o progresso dos estudantes na trajetória educacional revelam uma grande distância entre a realidade das cidades e da área rural. Nas cidades, metade dos adolescentes com idade entre 15 e 17 anos estudam na etapa correta – o ensino médio. No campo, a proporção é bastante inferior: somente um terço desses jovens está concluindo a educação básica.

Apesar dos dados das taxas de escolarização – que mostram quantos estudantes frequentam a etapa correta em relação à idade – dos adolescentes do campo com idade entre 15 e 17 anos terem melhorado nos últimos cinco anos, os detalhes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram o tamanho da desigualdade educacional do País . De 2004 para 2009, o crescimento foi de 13,7 pontos percentuais.

Segundo as informações chamadas de microdados da pesquisa, em 2004, enquanto 49,3% dos adolescentes da área urbana estavam concluindo a educação básica, apenas 22% dos jovens da área rural estavam na mesma situação. Em 2009, os números subiram para 54,4% e 35,7%, respectivamente. Entre as crianças de 7 a 14 anos, a situação é bem melhor: 94,8% das 5 milhões que moram no campo estão matriculadas no ensino fundamental.

Mais de 1,2 milhão de estudantes do campo com idade para cursar o ensino médio ainda estão no ensino fundamental ou desistiram da escola. Mônica Molina, doutora em desenvolvimento sustentável e professora adjunta da Universidade de Brasília (UnB), reconhece os avanços, mas defende políticas mais incisivas para a área. “O volume de ações não é proporcional ao tamanho do problema”, garante.

Para Daniel Ximenes, diretor de Estudos e Acompanhamento das Vulnerabilidades Educacionais da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do Ministério da Educação, a dispersão geográfica dos alunos dificulta o trabalho das escolas. Neste sentido, ele acredita que as classes multisseriadas – na mesma turma, o professor dá aulas para estudantes que são de séries diferentes – contribuíram para a permanência dos alunos na escola. O material didático distribuído pelo MEC aos colégios, para ele, também ajudou a melhorar os índices.

Campo X cidade

Os índices que apontam a quantidade de adolescentes com idade entre 15 e 17 anos que estão cursando a etapa correta, o ensino médio, mostram uma grande distância entre os estudantes que vivem em áreas urbanas e rurais.

Fragilidades

Mônica estuda as dificuldades e as especificidades da educação do campo há anos. Para a professora, alguns fatores explicam a distância entre a educação realizada nas áreas urbana e rural. Primeiro, diz ela, a oferta de escolas no ensino médio é insuficiente para a demanda. Há quase 9 mil colégios em áreas rurais. Deste total, 75% oferecem aulas para estudantes de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental e 25%, para alunos de 5ª a 8ª. Só 4% desses estabelecimentos têm turmas de ensino médio.

Levar os estudantes para estudar na cidade, de acordo com especialistas, não é uma boa solução para o problema. A distância desanima, o transporte público muitas vezes não funciona e, o pior, a escola da cidade perde o significado para o jovem nascido e criado no campo. “A educação no campo tem especificidades que não se limitam à adaptação de conteúdos. Houve um desmantelamento da educação no campo. O conselho definiu novas diretrizes para a área e podemos avançar muito mais”, afirma a conselheira Clélia Craveiro Brandão, do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Para a professora da UnB, entender as necessidades de quem mora no campo é essencial para que a realidade possa ser diferente no futuro. “Primeiro, é preciso reconhecer que levar a educação até o campo é um direito dos brasileiros que lá vivem e não um favor. A oferta no local onde eles moram também é importante para que as vivências e o conhecimento prático produzido por eles sejam reconhecidos como valores”, analisa.

Mônica acredita que é preciso romper preconceitos. “A ideia de que tudo o que vem do campo é atrasado e arcaico precisa acabar. Os professores também precisam estar preparados para lidar com isso”, comenta. Para ela, o Programa de Apoio as Licenciaturas em Educação do Campo (Procampo) é fundamental. Ela conta que, no último estudo que fez, com base em dados do próprio MEC, 57% dos 300 mil professores do campo em exercício não tinham formação superior.

A infraestrutura das escolas, segundo a professora, também precisa ser melhorada. “A maioria não possui biblioteca, laboratórios de ciência ou informática, nem acesso à internet”, critica Mônica.

Fonte: Andifes

 

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