Livros didáticos de religião possuem conteúdo preconceituoso
Pesquisa revela ainda que, nas obras mais usadas pelas escolas, cristianismo é predominante em relação a outras religiões
Os livros didáticos de ensino religioso mais adotados no País não seguem preceitos básicos das leis brasileiras que tratam do tema. Ao contrário do que diz a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), as obras professam doutrinas religiosas específicas, discriminam comportamentos e ideias.
A conclusão é das pesquisadoras Débora Diniz, Tatiana Lionço e Vanessa Carrião, da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. Incomodadas com a falta de definições claras na legislação educacional sobre o ensino religioso, elas decidiram investigar a que conteúdos os alunos brasileiros têm acesso durante essas aulas.
O estudo, transformado no livro Laicidade e ensino religioso no Brasil, foi feito com base em uma amostra de 25 obras produzidas por editoras laicas ou religiosas. “Os livros analisados estão em circulação no cenário nacional como potencialmente os de maior uso em escolas privadas ou públicas”, conta a antropóloga Débora Diniz.
A primeira constatação da pesquisa, realizada em 2009, é a prevalência da representação das religiões cristãs nas obras analisadas, sobretudo do catolicismo. “As religiões afro-brasileiras e indígenas eram sub-representadas, nem sequer eram reconhecidas como religiões”, critica.
Jesus Cristo aparece nas obras 80 vezes mais do que as lideranças indígenas no campo religioso, segundo o livro. O único líder indígena citado entre as 25 obras é anônimo e não possui biografia. Lutero, única referência intelectual do protestantismo nas obras, aparece 20 vezes menos que Jesus. Há duas vezes mais aparições de lideranças cristãs que de todas as outras religiões juntas.
Débora, que é professora da Universidade de Brasília (UnB), diz que a visão dos ateus é ainda pior nas lições dos livros didáticos analisados. “Não havia nenhuma representação positiva de pessoas ou grupos sem religião”, afirma.
Nas entrelinhas, segundo ela, os sem religião são relacionados a episódios violentos. Cita um exemplo da coleção Todos os Jeitos de Crer, da Editora Ática, de 2007. Na página 192 do volume 4, há um quadro que apresenta as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche (que era ateu e, no século XIX, declarou a morte de Deus) e, na sequência, mostra uma foto de um campo de concentração nazista.
Preconceito
A diversidade sexual – especialmente a homossexualidade – ainda é um tema pouco explorado pelos livros didáticos de ensino religioso. Um único livro tratou do tema, demonstrando “julgamentos discriminatórios” de acordo com as autoras. No mesmo livro da coleção Todos os Jeitos de Crer, na página 156, há um quadro sobre o tema.
No texto, há expressões como “desvio moral”, “doença física ou psicológica”, “conflitos profundos” e “o homossexualismo não se revela natural” são usadas para se referir a quem se relaciona com pessoas do mesmo sexo. O quadro termina com a seguinte reflexão: “Se isso se tornasse a regra de conduta humana, como a humanidade se perpetuaria?”.
Débora também critica o tratamento dado às pessoas com deficiência. Segundo ela, os textos carregam estigmas no vocabulário e nas lições. “Deficiência não é uma tragédia pessoal, mas uma das muitas formas de habitar os corpos. A criança com deficiência não se vê representada nos livros de ensino religioso, senão como a negação de si pela bondade divina ou compaixão dos colegas”, afirmam as pesquisadoras.
Sem orientação
Para as pesquisadoras, a falta de orientações claras do Ministério da Educação sobre como devem ocorrer as aulas de ensino religioso e que conteúdos devem ser trabalhados com os estudantes é que abre espaço para esses problemas. Elas lembram que, nas outras disciplinas dos currículos escolares, o governo federal abriu mão de definir conteúdos.
“É importante, frente a esse cenário, que sejam definidos delineamentos claros quanto ao ensino religioso, especialmente em relação ao conteúdo, para que as escolas não sejam utilizadas como espaço para o proselitismo religioso”, ressalta Débora.
A oferta de ensino religioso nas escolas públicas do País é obrigatória. Os estudantes, no entanto, podem escolher se querem se matricular nas aulas ou não. Cabe a Estados e municípios definir o conteúdo a ser ministrado aos estudantes. Sem qualquer orientação do governo federal.
“Ao mesmo tempo em que o Brasil não adota nenhuma crença religiosa em particular, as religiões participam ativamente das instituições básicas do Estado”, comenta a antropóloga.
Produção
O iG entrou em contato com as editoras cujos exemplos de livros foram citados pelas autoras na obra Laicidade e ensino religioso no Brasil. João Batista Kreuch, responsável pela área editorial da Editora Vozes, afirma que todas as obras publicadas passam por uma avaliação inicial dos editores.
No caso dos livros que tratam de ensino religioso, seguem orientações gerais da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e das dioceses específicas. Por causa disso, ele admite que algumas obras ou coleções podem “tender mais para uma visão confessional ou não”.
“O que não faríamos é publicar um material sem conhecer seu conteúdo ou discordando dele, mas respeitamos a peculiaridade das diferentes instituições”, afirma Kreuch. Ele diz que as publicações na área religiosa seguem uma tendência intercultural e multicultural. “O objetivo das obras não é o proselitismo e sim o diálogo e a abertura aos valores de todas as tradições religiosas tradicionais”, garante.
As Editoras Ática e a Scipione não se pronunciaram sobre o assunto.
Fonte: IG
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