Criança é avaliada por até 5 h para ter vaga em escola

Crianças a partir dos cinco anos precisam passar por avaliações que duram de duas a cinco horas para conseguir vaga no ensino fundamental dos colégios mais disputados de São Paulo e Rio.

É o dia de vivência, em que o aluno assiste à aula, interage com outras crianças, participa de atividades, conversa com professores, pedagogos e psicólogos - e é observado.

O método vem sendo aprimorado desde que os vestibulinhos, provas formais de seleção, foram condenados pelo Conselho Nacional de Educação em 2003 para acesso a qualquer série do ensino fundamental. Como um parecer, o documento não tem valor de lei e cada escola decide como fazer sua seleção.

Dia de vivência e dinâmica de grupo são usados em colégios como São Luís, Lourenço Castanho e Vértice, de São Paulo, e Andrews, do Rio.

Aliado a critérios como ordem de chegada, vínculo da família com a escola, entrevista com pais e testes de sondagem, o dia de avaliação das crianças também faz parte dos processos de aceitação e acolhida de novos alunos.

"Precisamos ver se o aluno tem interesse em estudar na escola, se o perfil dele tem a ver com o nosso", diz Adilson Garcia, diretor do Vértice, de São Paulo, que diz usar o método há pelo menos 15 anos.

Quando o resultado é positivo, tudo bem. Mas e quando é negativo? "Dizemos que, no momento, o aluno ainda não tem o perfil adequado para estudar conosco", diz.

Às famílias que se interessam a escola apresenta um boletim de desempenho da criança, incluindo as não aceitas, apontando aspectos que podem ser trabalhados.

O filho de Heloísa Helena Gonçalves, que está na lista de espera do Vértice há três anos, fará a vivência em novembro. "Encaro o dia como um quebra-gelo. Vamos tentar fazer o Pedro ver tudo como uma brincadeira", diz.

Para a coordenadora do curso de psicopedagogia da PUC-SP, Neide Noffs, o processo seletivo gera um grau de ansiedade inadequado para crianças pequenas.

"A criança deve ser poupada ao máximo do contato [com a escola], para não criar nenhum tipo de vínculo. Colocar a criança em uma situação de frustração não favorece seu desenvolvimento."

Já a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quézia Bombonatto, discorda. A especialista destaca que a vivência permite à escola avaliar mais as habilidades sociais da criança, e não apenas o conteúdo.

"São ferramentas importantes para avaliar a capacidade de adaptação", afirma.

Critérios pedagógicos ou extraeducacionais?

Já que discriminação é inevitável, pois há mais candidatos que vaga, é necessário discutir a questão abertamente, escreveu o articulista da Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman.

“O problema é físico. Se uma escola tem mais candidatos a alunos do que vagas, precisa de uma fórmula para discriminar quem vai ser recusado. Vale para faculdades e jardim da infância. Sim, a aritmética -como a natureza- pode ser cruel, mas revoltar-se contra ela não altera a realidade dos números”, afirma.

Na sua avaliação, é necessário discutir os critérios da escolha. “O elenco teórico de possibilidades é grande. Inclui desde sorteio até leilão, passando por avaliações pedagógicas”.

O articulista reconhece que nesta seara a questão pode gerar confusões. “Nas séries mais elevadas, testes que medem o conhecimento do candidato costumam ser bem vistos - é a materialização do ideal republicano da meritocracia. Quando se trata de crianças pequenas, no entanto, o consenso desaparece. Alguns consideram inadequado submetê-las ao estresse de uma prova e ao trauma de uma eventual rejeição”.

Em escola do Rio, criança de cinco anos já é "candidata"

Tradicionalmente entre os mais bem colocados no Enem no país, o colégio Santo Agostinho, na zona sul do Rio, aplica prova desde o primeiro ano do fundamental.

Para essas crianças, que devem completar seis anos até 31 de dezembro de 2011, o processo dura dois dias e será feito em novembro.

No folheto informativo sobre a seleção, a escola pede que "o candidato" leve um tubo de cola branca líquida e uma caixa de lápis de cor, sem o amarelo. No cronograma, há divulgação de resultado e reclassificação.

Entre os aspectos a serem observados, o colégio aponta desenvolvimento motor, reconhecimento das vogais maiúsculas, identificação e representação dos numerais até 20, cálculo mental até 12, expressão oral e outros.

Intensivinho

Para a professora Cláudia Horta, que há seis anos prepara alunos de cinco a nove anos para esse tipo de prova, o intuito dos colégios é sondar em que nível o aluno está. "Antes do segundo ano, é muito lúdico. Não se pode falar em "criança reprovada"."

Neste ano, Horta preparou mais de 30 crianças pequenas para as provinhas dos colégios top do Rio, como o São Bento, o Santo Inácio e também o Santo Agostinho.

As atividades que propõe tentam desenvolver nas crianças a percepção visual e auditiva, a lateralidade e a coordenação motora.

A administradora Rosana Sartori recorreu aos serviços de Horta para ajudar as suas duas filhas no processo seletivo do Santo Agostinho.

Sartori conta que sua filha mais velha fez a prova para ingresso no segundo ano uma vez e não conseguiu a vaga. No ano seguinte, a menina se preparou por dois meses e foi aceita. "Não houve trauma para ela."

No ano passado, foi a vez da sua filha mais nova tentar uma vaga no primeiro ano do ensino fundamental. A menina também fez aulinhas de reforço e foi selecionada.

"Eram 450 crianças disputando 125 vagas. Ela nunca soube disso para não ficar nervosa", afirma Sartori, que é ex-aluna e hoje diz que as duas filhas e ela estão muito satisfeitas com a escola.

"Não vejo outro critério que o Santo Agostinho poderia usar para selecionar os alunos. Prova é bem melhor do que se o ingresso fosse por pedido ou indicação", diz.

A Folha procurou a direção do colégio durante todo o dia de sexta-feira, mas não obteve uma resposta.

Preocupação central de pais é não submeter filhos a muita pressão

Para os pais de crianças que se submetem às vivências em escolas, a principal preocupação é não pressionar os filhos pelo resultado.

"Falei para o Felipe ficar à vontade e ver se ele realmente gostaria de estudar lá. Deixamos claro que existia a possibilidade de não haver vaga e, nesse caso, haveria outras opções de escolas tão ou mais legais", diz Gabriela Ferreira, mãe de Felipe, 11, que se candidatou a uma vaga no sexto ano do ensino fundamental no disputadíssimo Vértice, neste ano.

Para que ele pudesse concorrer, ela fez a inscrição com três anos de antecedência.

Assistiu à aula, jogou pingue-pongue na hora do recreio e fez algumas atividades reservadas: um desenho, uma redação autobiográfica e exercícios de matemática.

"Foi tudo tranquilo, ele gostou da escola e das outras crianças", afirma Gabriela.
Felipe conta que gostou da experiência, mas admite que se sentiu um pouco intimidado quando foi chamado para conversar com uma professora reservadamente.

"Não gostei muito dessa parte porque ela fez muitas perguntas e algumas eu não sabia responder. Na hora em que eu cheguei fiquei meio tímido, também", diz ele.

Em vez de vivência, Gabrielle Pandolfe, 10, teve de fazer prova para entrar no Albert Sabin, de São Paulo.

"Ela ficou um pouco ansiosa. Para tranquilizar, expliquei que aquilo não era excludente, que a intenção era apenas verificar o quanto ela já havia aprendido", afirma o administrador André Pandolfe, 30, pai da garota.

Fonte: Folha de S.Paulo