Empresa privada utiliza nome do Enem

Candidatos acreditavam estar atendendo um chamado do governo para inscriçõesNa última sexta-feira, 4, a empresa privada 'Portal Enem' passou por Santa Cruz anunciando uma inscrição que, na realidade, era venda de apostilas. A semelhança no nome induziu interessados ao erro. Muitos dos candidatos que compareceram no local divulgado pela empresa foram pensando em se inscrever nos programas governamentais. Eles estranharam quando foi oferecido um sistema de estudos para conseguir ingressar nestes programas.

O panfleto da empresa, distribuído pela cidade, lembrava uma espécie de "carta oficial" do governo. O texto anunciava bolsas gratuitas em faculdades através de programas governamentais. O panfleto também anunciava as "inscrições 2011" para sexta-feira, no salão da Associação Comercial.

A doméstica Juliana Rosa Américo não comprou as apostilas para a filha Josiane, pois achou o preço alto demais. "Primeiro o rapaz do governo falou sobre como funcionava o Enem, o ProUni e o Sisu e depois pediu para quem tinha interesse sentar nas mesas com umas moças. Aí a moça oferecia apostilas por R$ 300 para pagamento em até quatro vezes. Fiquei sem entender. Não tenho condições de pagar. Minha filha vai se inscrever na internet e estudar com os livros dela mesmo", diz.

Questionada sobre quem é "o rapaz do governo" e se ele disse que trabalhava no órgão, Juliana respondeu que "ele falou que trabalha no Portal Enem", deixando claro que o nome fez as pessoas confundirem a empresa privada com um órgão governamental.

Os representantes da empresa não confirmaram que trabalhavam para o governo, mas não explicaram com clareza que era uma empresa particular, sem qualquer vínculo com o MEC (Ministério da Educação).

Giovani de Oliveira Machado, 18, também se enganou. "Explicaram que o método de ensino que estavam vendendo era próprio para o Enem. Achei muito caro R$ 300 para uma apostila do governo. Acho que ele não poderia vender um material do governo. Deveria ser de graça", disse, revelando ter acreditado que o material e o funcionário eram ligados ao Governo Federal.

Denúncia - Procurada pela reportagem, a assessora de imprensa do MEC, Gláucia Magalhães, alertou que o governo não oferece curso nenhum e nem material didático. "Se eles estiverem afirmando que o material é do MEC, é uma denúncia muito grave", diz.

Analisando os fatos narrados pela reportagem, ela acredita que o caso é de "propaganda enganosa" por induzir o consumidor ao erro. Além disso, a empresa utiliza o nome dos programas governamentais e obtém lucro com isso. O fato será investigado, disse a assessora.

O espaço na Associação Comercial de Santa Cruz foi alugado pela Empresa Portal Enem. A reportagem esteve no local e conversou com o responsável Doni Alves. Ele explicou que o "Portal" é um curso preparatório para o Enem. "Temos um material específico para a prova, mas deixamos claro que o aluno não depende do Portal Enem para fazer a inscrição e nem a prova", diz. Doni explicou que o programa tem assessoria on-line e o material didático são as apostilas. O candidato que compra o programa recebe uma senha individual para ingressar no Portal e ter acesso aos professores.

Questionado se o nome "Portal Enem" não induz as pessoas ao erro, Doni negou. A reportagem questionou se o interessado não poderia confundir a carta da empresa com a inscrição. "Pode até achar, porque achar todo mundo tem direito, mas eu explico tudo que ela precisa. Então, não induz [ao erro]. A carta não diz absolutamente nada. Se paga, se é do governo, se não é. É um convite. Não induz ao erro", repetiu.

Apesar de ter concedido entrevista ao DEBATE, ao final dos questionamentos, já irritado com a reportagem pelas perguntas sobre o Enem, Doni fez ameças e disse que não queria mais seu nome publicado no jornal.

Fonte: UOL