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Ensino de Ciências - caminhos conhecidos
Por Amélia Império Hamburger e Ernst W. Hamburger são professores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo
"(...) A partir da escola infantil (4 a 6 anos) à Universidade... a 'continuação ininterrupta de esforços criadores' deve levar à formação da personalidade integral do aluno e ao desenvolvimento de sua faculdade produtora e de seu poder criador, pela aplicação, na escola, para a aquisição ativa de conhecimentos, dos mesmos métodos (observação, pesquisa e experiência), que segue o espírito maduro, nas investigações científicas." (Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova), 1932 - Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Júlio de Mesquita Filho, entre outros.
Seguindo esse Manifesto, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras passou a formar professores e pesquisadores na mesma instituição. Causaram uma imediata melhoria no ensino médio, mas não houve ações persistentes na formação de professores. Não surpreende que a aprendizagem se revele deficiente em qualquer censo, como o exame internacional Pisa. A desvalorização e a desorganização da profissão de professor, nos anos 70, não foram ainda compensados. A não existência de carreira e a suspensão de concursos públicos por vários anos atingiram o prestígio social da profissão. A formação dos professores e os ambientes escolares deixam muito a desejar.
Melhorar a Educação no Brasil, vasto território com 60 milhões de estudantes e 1 milhão de professores, exige compromisso de todos os níveis de representação da sociedade, com clareza de objetivos em relação aos conteúdos e para uma sociabilidade democrática nas escolas.
Muitas escolas públicas desenvolvem bons projetos, mas são interrompidos. Não atingem escala necessária para causar mudanças duradouras. Citamos algumas ações que, no passado, foram significativas com professores nas salas de aula.
Nos anos 1950 foi fundado o Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, liderado, em São Paulo, pelo professor Isaias Raw, com apoio da Unesco. Introduziu experimentos científicos nas escolas e treinou professores. Essa atuação alcançou outros Estados em Centros de Ciências criados pelo MEC em convênio com Secretarias de Educação locais. Nos anos 70, o Cecisp lançou a série de kits com experimentos e biografias de cientistas. Vendidos às centenas de milhares em bancas de jornal, repercutiram na formação de estudantes.
Nessa época, equipes mistas de professores universitários e de ensino médio desenvolveram projetos curriculares de Física, Química, Biologia, Ciências, enfatizando a realização, pelos alunos, de experimentos e observações.
Nas sociedades científicas se originaram discussões e propostas. A Olimpíada de Matemática, que hoje atinge milhões de alunos, as revistas Ciência Hoje das Crianças e Física na Escola são exemplos.
A divulgação do conhecimento científico em jornais, revistas, Centros e Museus de Ciências ainda tem pequeno alcance. A repercussão e a qualidade da televisão no Brasil requerem programas educacionais inspiradores.
A Academia Brasileira de Ciências redigiu documento de análise e sugestões para o ensino de ciências (www.abc.org.br). A Academia coordena, desde 2001, o Programa ABC na Educação Científica - Mão na Massa para o ensino de ciências desde a primeira série escolar, articulado com a alfabetização. As crianças trabalham em grupo, discutem questões como: "O ar é invisível. Como demonstrar seus efeitos?", e realizam experimentos. O professor conduz a classe que registra resultados, por escrito e por desenhos. A articulação da linguagem, aumento de vocabulário e a socialização reforçam a alfabetização e o desenvolvimento da personalidade.
A perspectiva desse ensino remete ao Manifesto dos Pioneiros. O programa atual de ensino de ciências baseado em investigação é dos anos 90, desenvolvido nos Estados Unidos, depois na França, no Brasil e em dezenas de outros países, apoiado pelas respectivas Academias de Ciências. Mão na Massa, traduzido de La Main à la Pâte, ou de Hands On, diz respeito à manipulação dos fenômenos na cultura científica.
Há pólos pilotos desse programa de Santa Catarina a Pernambuco. Os mais antigos estão em São Paulo (apoiados pela USP, na Estação Ciência, na capital, e no CDCC, em São Carlos) e no Rio de Janeiro (apoiados pela Fundação Oswaldo Cruz). O importante no programa é ter a instituição de pesquisa colaborando com a Secretaria de Educação. Há contatos entre pólos, Ministério e Secretarias de Educação, participantes do exterior, como no Seminário Nacional realizado em novembro passado no Recife.
A formação de professores em serviço nas escolas, nesse método - interação entre os participantes, mediatizada pelo professor; mãos que realizam as experiências e liberdade para perguntas -, demora alguns anos, no Brasil e em outros países. Seria melhor realizada já nos cursos de licenciatura, com disciplinas especiais, trabalhos em laboratório e experiências demonstrativas de fenômenos nas aulas teóricas.
Em 1962 foram estabelecidos currículos mínimos para as licenciaturas, com conteúdos de ciências, disciplinas para educação e disciplinas reunindo conteúdo e metodologia de ensino. As de Instrumentação para o Ensino de Física e de Prática de Ensino influíram positivamente em várias universidades.
Qualquer experiência em educação mostra os complexos problemas da valorização do trabalho dos professores, dos cursos de licenciatura e das múltiplas providências nas escolas: planejamento e investimentos em gestão, equipamentos, manutenção (inclusive de laboratórios), novas instalações. São essenciais as relações humanas entre diretores, professores, pessoal administrativo e técnico, segurança, serviços, estudantes e suas famílias e a comunidade local. Será a escola que se configura como núcleo de cultura, de conhecimento e de participação social.
Fonte: o Estado de São Paulo
Publicado em 13/02/2008 |
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