Escola pública não é empresa

A escola pública não é uma empresa onde seus resultados dependem de decisões mercadológicas e capitalistas. Estamos falando da formação do cidadão, de direito humano e social, e não se pode pautar a discussão sobre a educação pública sob a visão simplista de um projeto competitivo, regulado pelo êxito ou fracasso, que só atende às necessidades do mercado de trabalho – conforme defende a secretária de Educação de São Paulo, a educadora Maria Helena Guimarães de Castro, destacada na edição 2.047 da Revista Veja, em entrevista especial.

Os professores da rede pública de ensino enfrentam, sim, salários defasados. O Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN) é acima de tudo uma luta pela valorização do professor e da qualidade do ensino. O profissional de educação precisa estar bem remunerado e com tempo para se qualificar cada vez mais. A realidade atual da educação pública revela que educadores têm que se desdobrar e enfrentar dupla e tripla jornada de trabalho para conseguir, no final do mês, um salário próximo ao digno.

A proposta da secretária de educação de SP é, na nossa visão, mais um projeto político ruim, a exemplo de outros implantados há quase 16 anos, sem resultados positivos, e que tornou o estado em um grande laboratório de experiências ineficazes, que ignoram quem faz a educação e que foram elaboradas para um calendário político. Exemplo recente dessas experiências refere-se à escola de tempo integral do governo Alckmin, que em alguns municípios do estado sofreu embargo judicial. Isto prova que a escola não é uma atividade que se possa organizar só com base em princípios gerenciais. Há necessidade de financiamento, de melhorar a formação dos educadores, a infra-estrutura dos prédios, as condições de trabalho precursoras das doenças profissionais, o caráter democrático da gestão escolar e do sistema... coisas que São Paulo não tem cumprido.

"Em pleno século XXI, há pessoas que persistem em uma visão sindicalista ultrapassada e corporativista, segundo a qual todos os professores merecem ganhar o mesmo salário no fim do mês", defende a secretária. Nós da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), e que representamos o interesse de 2,5 milhões de profissionais em todo o país, compartilhamos a tese de que, em um país democrático, todos têm o direito de dizer o que pensam, mas defendemos também que todos têm o direito à réplica. Por isso, queremos destacar que o pensamento da educadora mostra uma visão autoritária, equivocada e que não condiz com a realidade. Pois, remeter o ônus do fracasso escolar somente aos professores, esquivando-se dos equívocos gerenciais e da falta de compromisso do estado para com a educação - de qualidade - da parcela menos favorecida da sociedade, que utiliza a escola pública e que compõe a massa de trabalhadores do país, é, no mínimo, querer desvirtuar o debate sobre responsabilidades e compromissos políticos de quem governo um estado há quatro gestões.

A CNTE e as entidades ligadas à educação, ao longo dos últimos 30 anos, preocupam-se com um ensino de qualidade; e a comprovação disso está nos anais dos nossos encontros e conferências onde as reivindicações destacam a importância de uma escola cidadã, solidária, humanista e livre. Não queremos alunos robôs que só saibam realizar tarefas para as quais foram treinados, e sim que sejam cidadãos capazes e responsáveis com o futuro do país. Por outro lado, não vestiremos a "carapuça" de profissionais descompromissados, relapsos e irresponsáveis, como sugeriu a secretária em sua entrevista.

Fonte: CNTE
Publicado em 20/02/2008