Conferência debate rumos da Educação no mundo globalizado

Como a globalização – esse processo ainda incompreendido – está determinando o que deve ser ensinado e de que maneira a aprendizagem deve ser avaliada? Quais as perspectivas de evolução das políticas públicas nessa área, levando em conta o cenário da economia mundial? Estamos diante de uma “outra escola”? De que maneira o professor esta envolvido nesse movimento? Essas e muitas outras questões serão debatidas nesta semana durante a Conferência Internacional Educação, Globalização e Cidadania – Novas Perspectivas da Sociologia da Educação, que NOVA ESCOLA ON-LINE acompanha direto de João Pessoa (PB).

Organizado conjuntamente pela Associação Internacional de Sociologia e pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o evento reúne pesos-pesados da Sociologia da Educação, como o português Boaventura de Sousa Santos, o francês Michel Wivierorka e os brasileiros Moacir Gadotti, Carlos Alberto Torres e Afonso Scocuglia. Constam do caderno de programação a apresentação de 900 trabalhos e a realização de 14 conferências, 14 mesas de debate e, ainda, duas sessões especiais – uma sobre o legado de Paulo Freire e outra sobre a responsabilidade social dos cientistas.

“Nunca tivemos um evento desse porte no Brasil”, diz o coordenador brasileiro do evento Afonso Scocuglia, professor do Centro de Educação da UFPB, que credita as dimensões do encontro ao tema. “Todo mundo que se interessa por Educação hoje está entendendo a globalização – ou ao menos sentindo seus efeitos.” Scocuglia comenta o noticiário do dia anterior, sobre o sistema de bonificação por mérito a ser implantado pela Secretaria Estadual de São Paulo: “a distribuição de verbas na Educação feita com base no desempenho é uma tendência mundial, assim como a padronização trazida pela avaliação – esse conjunto de fatores, que determinam o que deve ser ensinado, apareceram nos últimos 20 anos”.

“Essa é mais uma oportunidade de aprofundar o debate sobre Educação”, comenta a professora Silke Weber, pesquisadora da área. Na conferência que deve ministrar dia 22, ela apresentará alguns dos rumos das pesquisas sociológicas com a temática da Educação. “Avançamos muito nos últimos 20 anos, com a discussão da Lei de Diretrizes e Bases (LDB)”, avalia. Ela se refere à exigência de curso superior para lecionar, à exposição cada vez maior dos profissionais à pós-graduação e ao fato de as políticas públicas terem passado a levar em conta a importância da escola na aquisição do conhecimento abstrato. Segundo ela, os problemas atuais são bem parecidos com os se tinham na década de 1960: questões de gênero, etnia e regionalizações. “Mas, hoje, temos mais massa crítica e as discussões foram aprofundadas”, compara Weber.

Platéia de professores
Ao se defrontar com os temas propostos, pode-se ter a (falsa) noção de que o encontro se presta a trocar idéias muito teóricas, que não encontrariam eco na sala de aula. A estatística da organização desmente a primeira impressão. “Temos cerca de 300 professores das redes municipal e estadual inscritos”, comenta Scocuglia. “Poderia dizer que, somando esses profissionais aos estudantes de graduação e de pós-graduação que são ou serão professores, temos 70% dos participantes.”

Os artigos científicos serão apresentados em 12 diferentes grupos de trabalho. Dois deles se destacam pelo número de pesquisas a serem debatidas – “Educação, Cidadania e Identidade” e “Os outros territórios da Educação e formação”. “Nesses dois grupos temos 30% das pesquisas”, calcula Scocuglia. Para ele, esse é um sinal do interesse e da produção brasileira no campo “contra-hegemônico” da globalização. Que Educação seria essa? “Aquela que favorece os Direitos Humanos, a autonomia e a cidadania”, aponta Scocuglia.

Outra escola
Dentre as questões centrais, o papel da escola na aquisição do conhecimento estará em evidência. “A escola entrou numa lógica econômica e isso tem feito com que as crianças estejam ali mais para passar no vestibular e menos para aprender”, explica o francês Bernard Charlot, professor da Universidade Federal do Sergipe. Em sua conferência, ele pretende explanar sobre esse novo modelo de instituição de ensino que destaca a eficácia e a concorrência. Segundo o pesquisador, existe uma contradição profunda entre a escola que temos – com horários e espaços segmentados – e a escola que podemos ter com os avanços da tecnologia. “A internet abre novas possibilidades pedagógicas em que os professores poderiam focar a inteligência e a criatividade”, diz Charlot.

Fonte: Revista Escola online
Publicado em 22/02/2008