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Na era da multimídia
Saiba como os cursos de jornalismo e o mercado estão se preparando para a convergência de todas as mídias: web, televisão, rádio e jornal
Crianças e adolescentes que cresceram brincando em computadores, vídeogames e celulares já não vivem sem ela. É na web que essa geração encontra respostas para trabalhos escolares, mantém relacionamentos e conversa. As possibilidades de comunicação no mundo virtual se proliferam. O desafio de quem trabalha na área é saber como lidar com tantas ferramentas tecnológicas e a quantidade de conteúdos disponíveis a um clique.
Há 10 anos, ninguém poderia imaginar que os blogs causariam tanto impacto. Que os internautas poderiam fazer download de matérias para ouvir no celular ou que, em um mesmo site, seria possível reunir conteúdos de interesse do usuário que fossem atualizados automaticamente. O ciberespaço oferece múltiplas possibilidades de interatividade. Por isso, os especialistas afirmam que o futuro do jornalismo é mesmo a convergência de todas as mídias: texto, imagem, vídeos, áudio e internet.
No mundo todo, empresas de comunicação estão em fase de mudanças, necessárias para dar conta dos desafios originados por essa nova realidade. Mas ainda é cedo para se chegar a conclusões sobre como vão funcionar os sites de notícias, as agências, os jornais, as emissoras de rádio e TV. Para Marcos Palacios, especialista na área de ciberjornalismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o novo formato da comunicação não implica economia de mão-de-obra. Os repórteres não poderão fazer tudo sozinhos.
O mais importante é que os profissionais que lidam com a comunicação conheçam as ferramentas tecnológicas para produzir materiais mais criativos e de conteúdo rico em diferentes formatos. "Os futuros profissionais devem ter um alto grau de alfabetização digital. Mesmo não conhecendo determinadas ferramentas, eles têm de ser capazes de aprendê-las com agilidade", destaca.
As instituições de ensino deverão dar conta desse recado. Todos sabem que é preciso mudar a formação dos futuros jornalistas e que os princípios básicos de apuração, ética e agilidade não podem ser abandonados. Mas ainda é difícil definir os novos rumos dos cursos de graduação.
Universidades: longo caminho a percorrer
O desafio de encarar a nova realidade da comunicação atinge de cheio as universidades. Para Palacios, é obrigação das instituições de ensino dar aos alunos a capacidade de dominar diferentes linguagens e integrá-las. As universidades ainda caminham lentamente nesse processo de mudança. Ainda discutem alterações nos currículos e pouco foi colocado em prática. Além do desafio de vencer resistências a transformações, as instituições públicas, por exemplo, esbarram nas dificuldades financeiras para adquirir equipamentos e montar laboratórios.
A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Brasília (UnB) elaboraram a criação de laboratórios multimídia. Porém, as instalações não estão prontas por causa da falta de recursos e da burocracia para a compra de equipamentos. Na UnB, o laboratório de rádio também será equipado para transmitir programas pela internet. Nas duas instituições, os estudantes participam de laboratórios de jornalismo online, mas os portais ainda não comportam outras mídias. Na USP, a partir de abril, os alunos devem iniciar a produção de conteúdo para a televisão por internet da universidade.
José Luiz Proença, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, recorda que os professores da instituição trabalham com os conceitos do ciberjornalismo há cerca de oito anos. Mesmo assim, eles ainda não conseguiram mudar a mentalidade de todos os professores e promover as mudanças que gostariam no curso. Para Maria Fernanda Valentim, coordenadora de graduação da UnB, a formação dos jornalistas terá de ser mais interdisciplinar. O currículo da UnB passará por revisão e novas disciplinas serão criadas.
Para Elton Antunes, coordenador da comunicação social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a falta de compreensão sobre os novos processos também impediu as universidades de mudar estruturas. A partir de agora, ele acredita que o mercado e a educação superior se dedicarão mais ao tema. Na UFMG, não há projetos específicos para atender a nova realidade. "As iniciativas aparecem de forma dispersa. À medida que a prática do mercado se estabilizar, isso refletirá na formação", defende.
Na Faculdade Cásper Líbero, instituição privada de São Paulo, as novas tecnologias fazem parte do cotidiano dos alunos. Porém, a instituição estuda alterações nos currículos. "Os valores do jornalismo não mudarão, mas as práticas pedagógicas sim. Temos que preparar nossos estudantes não só para a realidade atual, mas para o futuro", destaca Carlos Costa, coordenador do curso de jornalismo.
Futuros jornalistas: o que esperar da carreira?
Amanda, Jairo e maísa, alunos da UnB, apostam na mudança do currículo e nos métodos de ensino para garantir a interdisciplinaridade
Para quem ainda está na universidade, o futuro da profissão é uma incógnita. Ninguém sabe que funções desempenhará em uma redação, que tipo de ambiente encontrarão para trabalhar e muito menos qual o tipo de profissional as empresas vão querer contratar. Mas os estudantes não temem o futuro, porque acham as mudanças desafiadoras. Eles passaram a infância e a adolescência fuçando em computadores e descobrindo a internet e não encontram dificuldades em se inserir nesse novo mundo.
Maísa Martino, 22, Jairo Faria, 20, e Amanda Macedo, 20, acreditam que a formação de jornalistas multimídia acontecerá de modo natural. Na opinião dos alunos do 6º semestre de jornalismo da UnB, com o tempo e o amadurecimento da discussão sobre o novo perfil profissional, a faculdade fará adaptações na grade curricular para atender as novas demandas. Os jovens defendem mudanças nos métodos de ensino e nos currículos, para garantir mais interdisciplinaridade.
Segundo eles, a falta de recursos para adquirir equipamentos prejudica a formação. "A faculdade ainda oferece pouco para preparar um profissional que sabe mexer em todas as mídias", comenta Maísa. Jairo destaca experiências pontuais que propõem a convergência de mídias, como a Radioweb. A rádio pela internet é mantida por alunos, mas não há vínculo com o currículo da universidade. Amanda lembra que alguns blogs também foram criados no Campus on line, o jornal-laboratório da graduação.
Maísa crê que os futuros jornalistas aprenderão a ver a comunicação de maneira integrada. "Os jornalistas terão de pensar como transmitir conteúdos a partir do texto, da imagem, do vídeo, do áudio, dos recursos gráficos. Mas não acredito que o repórter terá de fazer tudo sozinho", completa Amanda.
Para Eduardo Duarte Zanelato, 20, estudante da Faculdade Cásper Líbero em São Paulo, a internet cria novas oportunidades de trabalho. Por isso, se sente animado. Na instituição, ele diz que encontrou o apoio para entender as novas tecnologias. Eduardo também não se assusta diante das novas perspectivas de trabalho. "Por mais que tenhamos contato com essa nova realidade da profissão na faculdade, é no mercado que vamos aprender a nova rotina", analisa.
As empresas se preparam
As empresas de comunicação estão em fase de mudanças. Os sites de notícias ganharam vídeos, galeria de imagens, matérias em áudio para celulares, infográficos animados. Os recursos atraem mais leitores, especialmente os mais jovens, e prendem o internauta mais tempo nos portais. Não há receita ideal para a união dessas mídias. As empresas estão em fase de experimentar, inovar, corrigir, interagir. "Não existe fórmula, mas não há como fugir da convergência. Temos que nos ajustar à realidade", afirma o diretor de redação do Correio Braziliense e do Estado de Minas, Josemar Gimenez.
Marcos Palacios reforça que os jornais e as redes de televisão e de rádio do mundo todo não encontraram o melhor modelo para os negócios ainda. Para o pesquisador, as formas de trabalho precisam ser repensadas. Josemar Gimenez acredita que a convergência das mídias levará tempo para se consolidar. "As pessoas só estarão preparadas para a nova realidade quando esse contexto fizer parte da vida delas desde a alfabetização. Isso não acontecerá em menos de 30 anos", analisa.
Na redação do Correio, repórteres estão sendo treinados para lidar com as novas mídias. No dia 21 de abril, o jornal apresentará novidades no site. "Vamos dar um grande salto rumo à convergência. As mídias terão de se complementar e não concorrer uma com a outra. Queremos fortalecer o jornal, mantendo a nossa credibilidade", enfatiza Gimenez.
Para as organizações Globo, a discussão sobre o tema é antiga. As primeiras experiências de convergência começaram no ano 2000. De acordo com Luis Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação, o grande desafio é produzir o trabalho em tempo real, mantendo a qualidade da apuração da informação. "Só o compromisso com a qualidade pode garantir a manutenção da credibilidade do veículo", comenta.
Segundo Luis, estão sendo desenvolvidos vários projetos para promover a convergência de mídias, sem que um modelo único seja proposto a todas as empresas da organização. O G1, por exemplo, faz parte da experiência da Globo.com. "Nesse primeiro momento, acreditamos que é melhor fazer experiências. A evolução dos hábitos tecnológicos é muito dinâmica e muda a cada dia. O importante é estar aberto, acompanhando as novidades", esclarece.
Os jornalistas da Globo passam por constantes treinamentos e atualizações para dar conta da nova demanda, segundo o diretor. Para eles, a universidade deve continuar preparando os futuros profissionais para exercer a profissão com seriedade e ética. "A própria prática acaba trazendo a formação técnica", argumenta Luis.
Fonte: Correio Brasiliense
Publicado em 31/03/2008 |
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