Entrevista: "As cotas não acirraram o racismo"

Para a professora da UnB, Glória Moura, enquanto não houver igualdade de oportunidades, será preciso o sistema de cotas

Eles representam mais de 40% da população. Mas são 74% da parcela mais pobre e ocupam apenas 19% das vagas do ensino superior. A situação do negro no Brasil não é novidade e o racismo que permeia as relações sociais também não. Novo é o reconhecimento da existência da desigualdade racial e a possibilidade de mudanças com políticas específicas para essa parcela da sociedade. A adoção de ações afirmativas embora ainda divida opiniões - é realidade em pelo menos 30 universidades públicas. O movimento, iniciado em 2003 pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e seguido pela Universidade de Brasília (UnB) na esfera federal, em 2004, ampliou o debate sobre a questão do negro e o incluiu no ensino superior. Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Glória Moura, as cotas não só favoreceram o debate, como também a convivência entre negros e brancos. "De jeito nenhum as cotas acirraram o racismo", defende. Ela acredita que o Brasil adotará políticas similares em outras esferas sociais. "Enquanto não houver igualdade de oportunidades, precisaremos de políticas específicas. Não dá para um país como o Brasil ter televisão branca, vendedores de shopping brancos, médicos brancos", afirma. Mas embora defenda a adoção de ações afirmativas, Glória acredita que essa é uma solução temporária que deverá durar enquanto houver desigualdade. Segundo ela, a educação tem papel fundamental não só na inclusão do negro, como também no combate ao racismo.

O que é ser negro hoje no Brasil?
­ É aceitar a história: que os africanos foram escravizados para trabalhar no país, que os portugueses vieram para conquistar, que os índios foram massacrados e que chegaram, posteriormente, imigrantes europeus e asiáticos. Essa mistura é o Brasil. E essa mistura é o negro brasileiro. Mesmo na cultura, a miscigenação está presente. É impossível ser brasileiro sem ter a marca do negro.

O preconceito sempre foi tratado de forma muito velada no país, com base no mito da `democracia racial". Isso está mudando?

­ Acredito que sim, mas pre- cisamos mudar mais. Ainda é difícil assumir o preconceito e isso é um desestímulo para acabar com o racismo. Quando as pessoas aceitarem que sentem racismo, seja pela história ou pelos valores sociais disseminados, poderemos mudar. Ter consciência já é um avanço. A democracia racial nunca existiu e isso era uma justificativa para não se tocar no assunto. assam pelo eixo da África.

As relações raciais são de- siguais desde a infância?

­ Sim. O preconceito está tão introjetado na sociedade que a família passa para os filhos. Claro que ninguém nasce discriminando, o preconceito é criado. As crianças crescem vendo os pais desqualificando a pessoa negra e repetem esse comportamento.

O estudo Relações Raciais na Escola: Reprodução de Desigualdade em Nome da Igualdade, divulgado pela Unesco em 2007, aponta um rendimento menor dos alunos negros, devido a um tratamento diferenciado. As escolas brasileiras são preconceituosas?

­ Sim, as escolas brasileiras são preconceituosas. Os alunos negros recebem um tratamento diferenciado e de forma negativa. Eles ganham menos beijo, abraço, atenção, carinho e, claro, por conta disso, o rendimento passa a ser menor. Os professores desvalorizam o aluno negro porque não têm uma formação adequada para abordar o assunto em sala de aula. Não conhecem, não estudaram a questão racial, a história da África, a formação do povo brasileiro em sua totalidade. Toda a extensa história de resistência à escravidão não faz parte dos currículos escolares.

A Lei 10.639 (sancionada em janeiro de 2003), que instituiu o ensino obrigatório de história e cultura afro-brasileira nos ensinos fundamental e médio, veio, exatamente, suprir a ausência do tema nas escolas. Depois de quase cinco anos, a situação não é diferente?

­ A situação é praticamente a mesma. O que mudou foi muito pouco. O Brasil é muito extenso. Há iniciativas nas universidades e escolas, o Ministério da Educação (MEC) tem feito algum esforço, mas ainda está longe de atingir o necessário: a formação de todos os professores. Foi retirado da lei o artigo que previa cursos de formação de professores. Isso é perverso porque temos o instrumento de mudança, mas ele sozinho não funciona. Diante desse panorama, resta muito por fazer.

Levantamento da organiza- ção Ação Educativa demonstra que 47% dos estudantes têm curiosidade sobre a história e a cultura afro-brasileira e que 96% dos professores desejam estudar o tema. A comunidade escolar está realmente aberta para o assunto?

­ Acredito que sim. Nos cursos dados pela Faculdade de Educação da UnB, os professores estavam ávidos por esse conhecimento. Há o desconhecimento e há o preconceito. Precisamos eliminar os dois. O preconceito é uma questão de mentalidade, é um processo lento. Agora, sobre o desconhecimento, o Estado precisa assumir isso, fazer treinamento e cursos de formação. O conhecimento é fundamental para o fim do preconceito.

A questão do negro no Bra- sil, em diferentes aspectos ­ violência, educação, saúde, renda -, coincide com os problemas sociais. Por que as políticas universalistas não são suficientes para resolver a situação do negro no Brasil?

­ Porque os negros são os pri- meiros suspeitos em uma briga de bar. A polícia sabe direitinho quem é negro no país. Nas penitenciárias e nas classes mais baixas, a maioria é negra. Essa parcela encontra dificuldade de acesso à escola e aos melhores empregos. Há uma segregação do negro e uma naturalização dessa segregação, o que é ainda mais grave. Enquanto não houver igualdade de oportunidades, precisaremos de políticas específicas para o negro. As políticas universalistas não resolvem isso porque há um descompasso de raça também. Isso precisa se revertido por meio de políticas específicas para essa parcela, por um período de tempo.

Então, ações afirmativas co- mo as cotas para negros nas universidades públicas devem ser temporárias?

­ As cotas não podem existir para a vida toda. Quando as oportunidades de ingresso na universidade forem iguais para brancos e pretos, as cotas devem acabar. Hoje elas são necessárias. Há alguns anos, em uma formatura da UnB, os únicos negros eram os africanos que participavam de convênios internacionais. Com as cotas, há mais negros nas universidades e isso é visível na própria UnB.

A miscigenação é que po- lemiza ainda mais a adoção de ações afirmativas, uma vez que é difícil definir quem é negro no Brasil. Outros países que adotaram cotas, como os EUA, Canadá e Índia, não sofreram esse tipo de problema.

­ Nós estamos no início do pro- cesso, são poucos anos desde a implantação das cotas (a precursora no Brasil foi a Universidade Estadual da Bahia, em 2003). Os critérios ainda estão em definição, algumas instituições optam por foto, outras por autodeclaração. Se não der certo, vamos mudar esses critérios, aperfeiçoar o sistema. Tudo é um processo. Algumas instituições, como a UnB já estão repensando, aperfeiçoando. Não é fácil mudar algo que está arraigado na sociedade.

São várias as estratégias para driblar a polêmica sobre definir quem é negro, como a autodeclaração da raça ou mesmo instituir cotas sociais, com recorte de renda e raça. Evitou-se um embate?


­ Na verdade, essas são pos- sibilidades de ações afirmativas. O importante é que o debate está posto. A questão do negro precisa ser discutida em todas as áreas, não só na educação. Uma coisa muito triste no Brasil é que não se podia falar nesse assunto, mas isso está mudando. As pessoas já querem debater.

Os oposicionistas ao sistema de cotas no ensino superior alegam que políticas como essa apenas aumentarão os conflitos raciais. Mas há quem diga o contrário: que as cotas induzem a convivência entre negros e brancos. São cinco anos de cotas em universidades. Já é possível descartar alguma dessas possibilidades?


­ De jeito nenhum as cotas acirraram o racismo. Pelo contrário. Elas deram possibilidade de um diálogo, de um debate, de discussão sobre a questão do negro no Brasil. A partir das cotas, as pessoas puderam falar, expor seus sentimento e ter uma visão mais realista do preconceito dentro da sociedade brasileira. Há grupos, mesmo na academia, que querem reafirmar que a cota é um ato de segregação. Mas, na minha experiência, pelo contrário, favorece a convivência.

Estudos que avaliaram os pri- meiros anos de cotas apontam que o rendimento dos cotistas é similar ao dos alunos que entraram pelo método tradicional. Na UFBA constatou-se que a média é quase a mesma para os dois grupos. A diferença não chega a 10%. Mas alguns grupos ainda questionam o mérito. A sociedade não está convencida de que o negro está apto a ingressar na universidade?

­ Aceita-seonegronofutebol,na música, em atividades lúdicas, mas em atividades acadêmicas não se acredita na capacidade do negro. Mas a tendência é que isso mude. O preconceito de que o negro não pode ter acesso à universidade está enraizado, mas está diminuindo.

Qual a probabilidade de o Brasil adotar cotas para negros em outras esferas sociais, além da educação: no trabalho, assistência social e saúde?

­ No Rio Grande do Sul, há cota para contratação de negros nos supermercados, o que é muito positivo. Precisamos ampliar essas iniciativas a todos os setores. Vamos acabar com isso de que para se candidatar a um emprego tem de ser branco.

Fonte: Jornal do Brasil
Publicado em 31/03/2008