Paraná entra na rota das fusões do setor de ensino no país

Com dinheiro em caixa depois de abrir o capital na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), grandes redes educacionais do Sudeste vêm ao estado em busca de aquisições. Elas já movimentaram perto de R$ 170 milhões nos últimos meses

Os nomes SEB, Anhangüera, Estácio de Sá e Kroton podem ser pouco conhecidos do mercado paranaense, mas eles prometem movimentar o setor de educação nos próximos meses no estado. Depois de levantarem R$ 1,38 bilhão no mercado de ações, essas redes de ensino colocaram o pé no acelerador e vêm investindo pesado em aquisições por todo o Brasil. A compra do Dom Bosco, um dos maiores grupo educacionais paranaenses, pelo paulista SEB (Sistema Educacional Brasileiro) há pouco mais de uma semana, por R$ 94,55 milhões, mostra que o Paraná não deve ficar de fora da invasão: o estado entrou definitivamente na rota de consolidação do setor.

"O movimento, que até agora tinha sido tímido, promete ganhar fôlego no estado", acredita o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinepe) no Paraná, José Manoel de Macedo Caron Júnior. Desde o ano passado, pelo menos quatro grandes aquisições foram realizadas no Paraná, que movimentaram perto de R$ 170 milhões.

Confira as aquisições das redes de ensino superior do Brasil
Além do SEB, a carioca Estácio de Sá comprou por R$ 57 milhões a Radial, que atua em São Paulo e em Curitiba. A mineira Kroton, dona da marca Pitágoras, adquiriu, por R$ 18 milhões, a União Metropolitana de Ensino Paranaense, de Londrina. A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) comprou a Nobel de Maringá, por um valor não revelado. E esse ritmo não deve arrefecer tão cedo. De acordo com informações de mercado, a Anhangüera, que hoje não tem operações no Paraná, está prospectando faculdades em Curitiba, assim como a Estácio de Sá, que é dona da Radial e teria intenção de ampliar sua atuação.

O movimento se verifica em todo o Brasil, puxado principalmente pelas empresas que abriram capital. Em 2007, das 25 aquisições realizadas, 14 foram comandadas por empresas que fizeram IPOs (sigla em inglês para ofertas iniciais de ações). Com dinheiro em caixa e pressionadas para gerar dividendos, as empresas de ensino estão em busca de um rápido crescimento da base de alunos. "A expansão orgânica, por meio de investimentos em novas instalações e professores é mais lenta. E essas empresas têm que ter retorno rápido", diz Caron Júnior.

No estado, essas empresas vêm para disputar um mercado ainda bastante regionalizado e pulverizado - são cerca de 1,8 mil estabelecimentos, 170 deles de ensino superior. "O Paraná representa um potencial muito grande de crescimento. Com a compra do Dom Bosco, vamos dobrar de tamanho e antecipamos as nossas metas. A expectativa era chegarmos a 320 mil alunos em 2008, mas agora já temos 400 mil", diz Chaim Zaher, presidente do SEB, que não descarta "brigar pela liderança" no estado, terra natal do Positivo, um dos maiores grupos de ensino no país, e do Bom Jesus, que também vêm investindo em outros estados. Procurados, os dois grupos não se manifestaram.

Além da farta oferta de recursos, há um outro fator que deve fazer de 2008 um ano cheio de aquisições no setor de educação. Instituições que antes resistiam às ofertas de compra de grupos maiores estão percebendo agora que não conseguirão sobreviver sozinhas. Até agora, o nível superior tem concentrado o volume de aquisições, mas o ensino fundamental e de nível médio, além da educação à distância também prometem entrar nos negócios. Para o presidente do Sinepe -PR, o mercado deve atrair também fundos de private equity e grupos estrangeiros, como é o caso da colombiana Faculdades Internacionais San Martín que já tem filial em Curitiba.

A CONTEE reitera sua preocupação com a questão da mercantilização da educação e sinaliza que tais processos avançam de forma descontrolada no país. A criação de conglomerados educacionais e a aquisição de Instituições de Ensino Superior por investidores nacionais e internacionais agravam ainda mais o problema. A replicação de um modelo de ensino direcionado exclusivamente para a lucratividade das “empresas de ensino” é grave e pode comprometer o desenvolvimento do país e a soberania nacional. São urgentes a mobilização da sociedade e a ação imediata do governo no sentido de regulamentar o setor privado de ensino no Brasil.

Fonte: Gazeta do Povo/PR, com informações da CONTEE

Publicado em 07/04/2008