Para Conselho Federal de Medicina todos têm que cumprir regras rigorosas

O Ministério da Educação anunciou nesta semana que vai começar a supervisão dos cursos de medicina que tiveram notas inferiores a 3 no Exame Nacional de Desempenho do Estudante (Enade). Dos 175 cursos de medicina existentes no Brasil, 103 foram avaliados e 17 ficaram com os conceitos 1 ou 2, o que implica na supervisão.

Leia abaixo a entrevista exclusiva sobre o tema com o coordenador da Comissão de Ensino Médico do Conselho Federal de Medicina, o médico e professor de psiquiatria infantil da Universidade Federal da Paraíba, Doutor Genário Barbosa. “É necessário que haja critérios rigorosos e que sejam cumpridos”, acredita.

Qual a posição do Conselho Federal de Medicina em relação às novas exigências impostas pelo MEC para abertura e renovação dos cursos de medicina?
Doutor Genário Barbosa – Nosso princípio é defender o ensino de qualidade, independentemente se são (em faculdades) públicas ou privadas. Mas o que vem acontecendo nos últimos anos é uma enxurrada de novas escolas e muitas delas sem condições de funcionamento. Eu acho que essa medida agora normatiza critérios mais claros, mais palpáveis para uma avaliação. O que é muito bom. O problema que nós temos no Brasil não é a questão quantitativa, pois nós temos 330 mil médicos, e, sim, qualitativa: a qualidade do médico, que ele seja bom e atenda a população. E o objetivo do Conselho é que a população seja bem atendida. Na medida em que as escolas não têm condições satisfatórias de funcionar e esses médicos vão ter um diploma na mão e vão trabalhar, consequentemente, o atendimento a população não vai ser ideal.

Quais as condições do ensino médico hoje no Brasil? Quais as mudanças necessárias?
Doutor Genário Barbosa – O ensino médico brasileiro é bom, a medicina brasileira é boa. Está entre as primeiras do mundo. Agora o ensino médico brasileiro é bom quando você verifica escolas públicas. Até agora as escolas públicas tem sido de ponta na qualidade de ensino. A grande maioria das escolas privadas vai começar a formar médicos nesse ano, e até 2010. Então nós não temos condições de dizer se esses médicos são bons. Até porque não é função do Conselho avaliar as escolas de medicina. A função é fiscalizar o exercício médico. Na medida em que nós notamos que aumentam as denúncias, a população fica insatisfeita, reclama dos médicos, é porque o órgão formador não está bem. Então, eu acredito que mais uns dois anos já se tenham uma posição mais detalhada da situação das escolas privadas de medicina. Porque não se pode admitir uma escola de medicina sem um hospital universitário, sem professores qualificados, sem equipamentos. Enfim, não se pode abrir uma escola sem as estruturas mínimas para o bom curso médico. Esse que é o problema.

Agora, acima de qualquer outro curso, não é possível esperarmos o estudante de medicina se formar para se avaliar se aquela formação foi adequada ou não, em função da responsabilidade do tipo de exercício profissional que ele vai ter. Não é?
Doutor Genário Barbosa – Perfeito. O ideal seria que essa avaliação fosse feita em duas etapas: uma no segundo ano e uma quando ele termina (o curso). Porque você teria uma idéia do acompanhamento desse aluno. Realmente o ensino médico é diferente, mais demorado e exige uma capacidade cognitiva muito maior, reflexões e rapidez. Esse é o grande problema da medicina. O médico tem que ser treinado para agir rápido. É diferente de você jornalista. Que escreve, não gosta, reescreve e no fim sai uma matéria boa. O médico não tem esse poder. Ou ele atende ou não atende. E se atender mal mata.

O senhor falou que há um entendimento de que as universidades públicas ainda oferecem um melhor nível de qualidade dos cursos do que as Instituições privadas. Isso acontece devido à formação mais acadêmica, com maior investimento em pesquisa e extensão, que se dá nas universidades públicas?
Doutor Genário Barbosa – Exatamente. As universidades públicas fazem isso muito bem. Quando se fala em Instituições privadas, eles falam que têm um núcleo de pesquisa, mas quem faz são um ou dois. É uma coisa muito incipiente, não tem a mesma relevância. O que podemos observar em algumas faculdades de medicina privadas é que quando se fala em produção científica é como se eles se encolhessem. Eles sabem que deve ter, mas não há uma valorização muito grande. Porque pesquisa significa investimento.

Os representantes das Instituições privadas de Ensino Superior são contra as novas exigências do MEC, alegando que elas vão impossibilitar a abertura ou renovação dos cursos de medicina nas universidades privadas. Qual é a posição do Conselho em relação a esse tipo de resistência?
Doutor Genário Barbosa – Eu quero deixar bem claro que o Conselho Federal é favorável ao ensino de qualidade. E compete ao Ministério da Educação baixar normas para que esse ensino tenha essa qualidade. Porque, assim, nós estamos defendendo não só a medicina, mas a sociedade brasileira. Nós queremos que o cidadão brasileiro, do mais abastado ao mais humilde, tenha um bom atendimento. Eu acho que neste ponto o Ministro Haddad está de parabéns, porque essa não é uma situação fácil. É preciso que os donos de faculdades entendam que o ensino médico tem um sistema diferente. Nós trabalhamos com vida e temos que oferecer (qualidade) ao estudante, para que lá na frente ele seja capaz de zelar por aquela vida que ele está tratando. Então, as normas podem parecer excessivas, mas quem cria uma faculdade tem que se adequar a essa realidade, tem que cumprir as normas. É necessário que haja critérios rigorosos e que sejam cumpridos. A partir daí fica tudo mais fácil.

Por Daniele Moraes
Publicado em 30/04/2008