E dá-lhe mercantilização – avanço das negociatas no ES privado

Mais uma ação comercial movimentou a roda de investidores do setor de educação no Brasil. A compra de 20% das ações da Estácio Participações pela GP inflacionou a cotação dos papéis do grupo educacional na bolsa paulista e agitou especuladores. Atenção, Brasil! O avanço dessas negociatas é perigoso e pode colocar em risco o desenvolvimento do País e a soberania nacional.

Segundo reportagem publicada no Jornal Valor Econômico, mais uma ação comercial na Bolsa de Valores paulista, envolvendo grupos do setor de educação, agitou o mercado na semana. Desta vez foi a aquisição de 20% das ações da Estácio Participações por um grupo de investimento chamado GP. Na mesma hora, as ações da Estácio subiram 36,4%, passando para R$19,60.

A reportagem, em linguagem estritamente mercadológica, mostra que a negociação veio “em boa hora” para o grupo educacional, que apresentava um histórico de queda em suas ações, em relação ao patamar apresentado na abertura de capital, ocorrida em 2007.

O que impressiona, mas não é novidade, é o tratamento meramente comercial que é dado a esse setor dentro da lógica mercantilista. Aos olhos de todos, é possível observar o avanço da caracterização da educação como um serviço, que deve ser gerido com mãos de ferro e que deve ter sua lucratividade e, conseqüente, atratividade preservada e ampliada, de preferência.

Mais uma vez a CONTEE insiste em relembrar o papel estratégico da educação para o desenvolvimento do nosso país, para o crescimento e inclusão social, para a transformação de nossa nação em um país mais justo, igualitário e soberano. Enquanto a Educação, fator primordial para nosso desenvolvimento, for tratada como uma mercadoria, a serviço dos interesses de “grupos de investidores”, de donos de instituições e de especuladores internacionais, não teremos perspectivas de mudanças positivas.

É preciso agir, e rápido, para impedir tais negociadas, estabelecer ações contundentes que afinem a educação com os rumos que desejamos para o país, priorizando-a como instrumento essencial para o crescimento e o desenvolvimento do Brasil.

Leia abaixo a reportagem publicada no último dia 13/05, no jornal Valor Econômico, sobre as ações e negociatas, e atente para o perfil mercantilista que predomina hoje no setor de educação privada do país.

Jornal Valor Econômico, 13/05/2008
Entrada da GP impulsiona Estácio, mas Anhangüera segue na frente

O peso de um nome conta, e muito, no mercado de capitais. Depois que a GP Investimentos imprimiu seu selo na Estácio Participações, comprando 20% da empresa as ações do grupo educacional subiram 36,4% na bolsa paulista, para R$ 19,60.

A valorização fez com que os papéis da Estácio revertessem o histórico de queda e retornassem ao patamar próximo ao de abertura de capital, em meados do ano passado. A companhia, que obteve receita líquida de R$ 237,5 milhões no primeiro trimestre do ano, alcançou valor de mercado de R$ 1,54 bilhão.

A valorização explica-se pelo fato de que o investimento feito pela GP estimulou a confiança dos investidores em relação à Estácio, segundo analistas que preferiram não ser identificados. A firma de investimentos em participações é reconhecida por se envolver na gestão das empresas onde investe e por reestruturá-las para impulsionar receita e resultado - Lojas Americanas e ALL são tidos como casos de sucesso em sua carteira.

Como acionista da Estácio, a GP terá direito a eleger quatro membros do conselho e influenciar na escolha dos administradores da companhia.
A GP adquiriu apenas 20% da Estácio e comprou a participação da família Cavalcanti, controladora da empresa que permaneceu com 55% dos papéis. O tamanho da fatia da GP chamou atenção, uma vez que a própria empresa afirma em seu site que "buscará adquirir (...) o controle isolado ou compartilhado" de companhias. O acordo entre as duas empresas prevê que a Estácio será levada ao Novo Mercado da Bovespa, sendo que as ações atuais serão convertidas em ordinárias (ON, com direito a voto).

Até o acordo ser anunciado, a Estácio estava combalida na Bovespa. Em parte, sofreu nos últimos meses com a fuga de investidores dos papéis de menor liqüidez. Mas isso não explica tudo. A companhia chegou a ser definida como o "patinho feio" do setor de educação, especialmente por não ter um histórico sólido de gestão. A abertura de capital da Estácio foi considerada prematura entre outras empresas de educação e executivos ligados ao setor, pois até o início de 2007 ela ainda funcionava como uma instituição sem fins lucrativos.

"O mercado percebe que falta à Estácio uma presença mais forte em mercados importantes como São Paulo e uma reputação melhor acerca da qualidade de ensino", afirma Sérgio Duque Estrada, sócio da consultoria financeira ValorMax, que atua no mercado de educação. "Surpreendeu o preço pago pela GP, que foi alto", diz. A empresa pagou R$ 16,50 por unit (equivalente a uma ação ordinária e duas preferenciais).

Freqüentemente, a Estácio é comparada com a Anhangüera Educacional, uma vez que ambas atuam apenas com ensino superior. Ao contrário da empresa carioca, a Anhangüera foi preparada pelo Pátria Investimentos por dois anos e chegou à bolsa, em março do ano passado, com um nome de peso entre seus acionistas. Das quatro empresas de educação listadas - Anhangüera, Estácio, Kroton e SEB -, ela era a única cujos papéis haviam se valorizado em relação ao preço de lançamento. E, embora tenha uma receita bem inferior à da Estácio, de R$ 273 milhões em 2007, possui o maior valor de mercado entre seus pares, de R$ 3,12 bilhões.

A Estácio tem a seu favor, entretanto, o fato de ter cerca de 200 mil alunos e possibilidades de ganho de escala. A companhia disputa a liderança do mercado de ensino superior com o grupo de João Carlos Di Genio, dono da rede de faculdades Unip. Um dos objetivos da companhia é elevar sua participação em São Paulo, onde já realizou quatro aquisições. Assim como as outras empresas de educação listadas em bolsa, a Estácio quer crescer especialmente com cursos destinados à população de renda mais baixa, onde o acesso à formação de nível superior é mais restrito. No Brasil, apenas 20% da população entre 18 e 24 anos está matriculada em cursos superiores.

Fonte: Valor Econômico
Publicado em 16/05/2008