Paraná: particulares gastam menos com pesquisa

As faculdades particulares são maioria absoluta no Paraná: são 158 contra apenas 22 instituições públicas, de acordo com o último censo do ensino superior do país, de 2006. Mesmo assim, as faculdades e universidades mantidas pelo poder público ganham de lavada quando se trata de computar quem forma mais mestres e doutores por aqui. Enquanto as particulares ofertam 44 programas de pós-graduação stricto sensu, as públicas somam 190, conforme a lista de cursos autorizados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Segundo especialistas, isso ocorre porque o investimento nesses cursos, que fomentam a pesquisa científica, traz pouco retorno financeiro às particulares, interessadas no lucro.

Além de as instituições públicas servirem como um leque de possibilidades para quem quer seguir carreira acadêmica - ou simplesmente enriquecer seu currículo para enfrentar o mercado de trabalho -, elas sustentam a produção científica brasileira. Em 2007, pesquisadores do país publicaram 19.428 artigos em revistas especializadas. A produção colocou o Brasil na 15ª colocação do ranking mundial de pesquisas. É a melhor posição entre os países latino-americanos, conforme relatório divulgado pelo Ministério da Educação e pela Capes. A expectativa é de que o país avance ainda mais neste ano. Até agora, o número de publicações já alcança 18.390. E estamos apenas em julho.

Para o doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (Unb), Gustavo Javier Castro Silva, a situação é preocupante porque não se sabe até quando, e como, o setor público conseguirá arcar com a pesquisa. "As públicas são em menor quantidade que as privadas e está claro que elas não atendem à demanda da produção intelectual", diz. Segundo ele, as universidades privadas devem pôr em prática novos conceitos de trabalho para equilibrar a oferta de cursos de pós-graduação, que fomentam as pesquisas. Ainda sobre a concentração de cursos nas públicas, o pesquisador considera que isso não compromete a futura oferta de mestres e doutores na rede privada. Após diplomados, os docentes procuram as melhores ofertas de emprego.

Silva realizou estudo em Brasília, onde constatou que falta incentivo para professores de universidades particulares investir em pesquisa. Ele tomou como exemplo o Distrito Federal, que possui 84 faculdades particulares. Nelas, 62% dos professores entrevistados pelo pesquisador disseram não ter apoio para produção intelectual.

Mercado
Na avaliação do sociólogo, as instituições particulares seguem uma lógica de mercado: há maior retorno financeiro nos cursos de graduação, já que a quantidade de alunos é maior - o que representa mais mensalidades pagas. Além disso, o custo de manutenção é menor em relação à pós. O retorno financeiro pode ser percebido pelo número de instituições abertas a cada ano no país. Entre 1991 e 2006, segundo o censo da educação superior, a quantidade de universidades particulares cresceu 300% no Brasil, enquanto no mesmo período o número de instituições públicas aumentou apenas 11%.

De acordo com o presidente do Conselho Paranaense de Pró-Reitores de Pesquisa em Pós-Graduação, Benjamin de Melo Carvalho, os cursos de mestrado e doutorado exigem planejamento e continuidade, o que põe em risco universidades particulares que investem apenas em graduação. "Alguns cursos de pós-graduação exigem alto investimento em laboratórios e menos alunos para ter maior rendimento", explica.

A lógica de mercado, segundo o pesquisador e presidente do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Sérgio Luiz Gadini, é o que leva à desproporção na oferta de cursos de pós-graduação. "Estamos vivendo um modelo em que a educação é vista como um serviço ao mercado dentro de uma visão mercantilista", comenta. Segundo ele, é importante que a universidade passe a ser vista como um centro de "produção" e não apenas de "reprodução" do saber.

Para privadas, custos são altos demais
O diretor do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Estado do Paraná, José Antônio Karan, admite que os cursos de mestrado e doutorado não dão retorno financeiro às instituições privadas. Como as faculdades particulares não recebem recursos públicos, os cursos são mantidos exclusivamente com as mensalidades dos alunos. "Se houvesse cursos, as mensalidades seriam altíssimas", afirma.
Segundo Karan, a falta de incentivo à pesquisa se deve à falta de condições para a oferta de programas - e não à falta de vontade ou de qualidade das faculdades particulares. Ele lembra que em cursos de doutorado o número de alunos é muito reduzido, e que laboratórios de determinadas áreas de conhecimento exigem altos investimentos.

Renata Dinnies Santos é uma das pesquisadoras que encontrou na universidade pública a chance de seguir carreira acadêmica. Ela é bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no doutorado de Engenharia de Alimentos na Universidade Estadual de Londrina, com co-orientação na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Segundo ela, além de não haver bolsa de estudo nas universidades privadas, há o custo da mensalidade. Ela considera que o curso é fundamental para ser professora da área e, além disso, incrementar a pesquisa científica.

A pesquisa é prevista na Lei de Diretrizes e Bases. O artigo 3º do capítulo 4º retrata que a educação superior deve "incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive".

Fonte: GAZETA DO POVO – PR
Publicado em 14/07/2008