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Duas décadas para universalizar ensino básico no País
Ipea revela que, apesar de avanços, meta de escolaridade de 11 anos para todos no país ainda vai demorar
Apesar dos avanços obtidos na área educacional desde os anos 1990, o Brasil somente conseguirá atingir a escolaridade obrigatória prevista na Constituição - oito anos de estudo, o ensino fundamental - em 2012. Para alcançar 11 anos, o que corresponde ao ensino básico (o antigo 2º grau), será necessário um tempo ainda maior, duas décadas e meia. Essa foi a conclusão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) após analisar os dados do indicador contidos na edição de 2007 da Pesquisa por Amostra de Domicílios (Pnad), conduzida pelo IBGE.
Segundo o estudo, o número médio de anos de estudo saiu de 5,2 em 1992 para 7,3 no ano passado. Ou seja, o país consegue adicionar apenas um ano e meio na escolaridade média dos brasileiros a cada dez anos. A forma desigual como o indicador melhora é outro aspecto negativo apontado pelo Ipea.
O levantamento mostrou ainda que, nos últimos 14 anos, a taxa de analfabetismo recuou 7,2 pontos percentuais, saindo de 17,2% para 10%, o que representou uma média de 0,5 ponto percentual ao ano. Entretanto, o percentual ainda está muito acima do de países da América do Sul como Argentina e Chile, que apresentam taxas registradas apenas na Região Sul do Brasil (5,4%), disse o pesquisador do Ipea Jorge Abrahão.
Além disso, a redução do analfabetismo ocorreu de forma desigual no país: entre regiões e raças. A taxa no Nordeste, por exemplo, ainda é o dobro da média nacional. Sul e Sudeste apresentaram os melhores indicadores, com 5,4% e 5,8%, respectivamente. Entre os brancos, o percentual de pessoas que não sabe ler e escrever é de 6,1%, e entre os negros é de 14,1%.
Analfabetismo varia por região e raça, diz Ipea
A taxa de analfabetismo entre os jovens (até 24 anos) é inferior à dos adultos, o que, na avaliação do Ipea, é um reflexo da política de universalização do ensino fundamental, iniciada pelo governo Fernando Henrique.
“O analfabetismo é heterogêneo. Quem está nos grandes centros urbanos, é branco e mora nas regiões Sul e Sudeste está em situação mais favorável”, afirmou Abrahão, acrescentando que a situação reproduz desigualdades e menos oportunidades de emprego.
O Ipea apontou também que o problema da escolarização atinge mais as faixas etárias entre 15 e 24 anos, pois a maioria dos jovens nessa idade, apesar de estar na escola, está atrasada nos estudos. Segundo a pesquisa, 82,1% % dos jovens entre 15 e 17 anos estão na escola, mas apenas 48% deles estão na série adequada. Entre 18 e 24 anos, o a situação é pior: apenas 13%.
Segundo o Ipea, as deficiências educacionais, sobretudo no ensino médio, têm efeitos negativos na vida profissional dos jovens. Em 2007, 4,6 milhões de jovens estavam desempregados, o que representava 63% do total de desempregados do país. Em contrapartida, as contratações de jovens com carteira assinada subiram nos últimos dois anos.
Ao analisar dados de moradia, o órgão apontou que quase metade dos jovens dos centros urbanos (48,9%) moram em favelas. Além disso, 28 milhões de jovens vivem em condições inadequadas, sem água canalizada e sem rede de esgotos.
O estudo também reforça a persistência da desigualdade racial e seus efeitos nos rendimentos das famílias. Em 2007, a renda média das famílias brancas representava pouco mais de duas vezes (2,06) o valor auferido pelos negros. Em 2000, essa diferença era de 2,4 - valor que vinha estável desde 1986.
“Esses dados são preocupantes e reforçam a existência da desigualdade estrutural e histórica no Brasil”, disse o pesquisador do Ipea Mário Theodoro.
Na avaliação do Ipea, numa perspectiva otimista, o país somente conseguirá acabar com essa distância em 2029, mantido o atual ritmo. No entanto, para Theodoro, este cenário é pouco provável caso não sejam criados programas específicos para a população negra.
Segundo ele, políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, já estão no limite e quem tinha que ser incluído nesses programas já o foi. A pesquisa mostrou que a pequena queda na desigualdade de renda entre brancos e negros se deveu à melhoria geral na distribuição de renda.
Fonte: O Globo
Publicado em 15/10/2008 |
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