<%@LANGUAGE="VBSCRIPT" CODEPAGE="65001"%> De olho no lucro: educação a distância já atingiu 1 milhão de alunos



De olho no lucro: educação a distância já atingiu 1 milhão de alunos

Um milhão de estudantes. Mais de 1 bilhão de reais ao ano. Esse é o tamanho do mercado de ensino a distância no Brasil - um negócio que continua a atrair investidores do mundo todo
Após dois anos de estudos, o grupo Veris, dono de sete instituições de ensino brasileiras (entre elas as unidades do Ibmec no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e Brasília), definiu a data em que vai fazer sua estreia no mercado brasileiro de educação a distância: 29 de abril. A partir dessa data, as aulas pela internet serão prioridade para a empresa criada pelo ex-banqueiro Claudio Haddad e que tem entre seus sócios Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, controladores da cervejaria ABInBev. A expectativa é que, em cinco anos, o ensino a distância represente 20% do faturamento total do grupo, que em 2009 deve alcançar algo em torno de 180 milhões de reais. Os primeiros 15 cursos, todos de pós-graduação, serão oferecidos pelo Ibmec, instituição voltada para as classes A e B. O objetivo é manter a qualidade de ensino e praticamente os mesmos preços dos cursos presenciais. O MBA à distância, por exemplo, não vai sair por menos de 18 000 reais - valor 15% inferior ao do curso tradicional. "Queremos ser os melhores desse setor", diz Eduardo Wurzmann, presidente do grupo Veris. Para atingir esse objetivo, uma das primeiras medidas foi contratar o engenheiro Carlos Longo, responsável pela implantação do modelo de ensino a distância na Fundação Getulio Vargas, no final da década de 90. Longo vai comandar uma equipe de sete profissionais e um orçamento anual de 3,5 milhões de reais. Ele já assinou contrato com 15 professores que vão produzir os conteúdos e também começou a selecionar 100 ex-alunos de mestrado do Ibmec para servir de tutores - são eles que vão acompanhar o desempenho das turmas, tirar dúvidas e estimular a interação entre os estudantes.

A chegada do Ibmec é o mais recente sinal do crescimento do mercado de ensino a distância no Brasil. Entre 2004 e 2007, o número de alunos matriculados em cursos técnicos, de graduação e pós-graduação desse segmento cresceu 214% e chegou a quase 1 milhão de estudantes (veja quadro na pág. 108). Hoje, 7% dos 5 milhões de universitários brasileiros estudam longe das salas de aula, participando de cursos que vão de enfermagem a pedagogia, de administração de empresas a turismo. Em 2007, o setor movimentou cerca de 1,5 bilhão de reais. Uma conjunção de fatores é responsável por esse crescimento. Um deles é a dimensão do Brasil, que dificulta o acesso às aulas presenciais àqueles que vivem em cidades mais remotas. Outro é o preço. Segundo dados da consultoria Hoper, especializada em educação, um curso de graduação a distância custa em média 168 reais por mês, ante 457 reais de um tradicional. O terceiro fator é a comodidade, já que o aluno não precisa se deslocar até a universidade e tem um horário de estudo mais flexível. "Essa modalidade de ensino vai continuar a crescer pelo menos 20% ao ano no Brasil", diz Frederic Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância.

A previsão otimista descola o ensino a distância do ambiente de incertezas vivido por instituições centradas no modelo tradicional. Um levantamento recém-divulgado pelo sindicato das universidades privadas de São Paulo aponta que 41,5% das escolas tradicionais vão ter menos alunos em 2009. Em outros estados brasileiros, a situação se repete. A Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), por exemplo, localizada em Canoas, no Rio Grande do Sul, viu o número de alunos presenciais cair de 65 000 em 2006 para 41 000 em 2008. No mesmo período, seus estudantes a distância passaram de 1 500 para 91 000. "Esses cursos custam metade dos tradicionais e atraem um público mais velho, que já havia parado de estudar e se sente novamente motivado", afirma Antônio Sanches, diretor da Ulbra.

Assim como a Ulbra, quem saiu na frente e hoje domina esse mercado são instituições voltadas para as classes C e D. A Universidade Norte do Paraná (Unopar), por exemplo, com sede em Londrina, começa 2009 com 125 000 alunos assistindo a aulas por satélite em todos os estados brasileiros - dez vezes mais que os alunos matriculados em seus cursos presenciais. Para atender a esse público crescente, nos últimos seis anos a Unopar construiu nove estúdios de televisão de onde transmite suas aulas para todo o país.

O mercado de ensino a distância já desperta a atenção de investidores do Brasil e do exterior. O fundo de private equity Pátria, controlador da rede de ensino Anhanguera, por exemplo, incorporou nos últimos dois anos a Uniderp, de Mato Grosso do Sul, e a Luiz Flávio Gomes, de São Paulo, instituições com experiência e licenças nacionais para operar cursos de graduação e pós-graduação a distância. Com isso, hoje suas faculdades contam com 93 000 alunos matriculados em cursos a distância - responsáveis por quase 20% do faturamento total, de 650 milhões de reais em 2008. Em seu caminho, a Anhanguera deve começar a enfrentar a concorrência de grandes grupos internacionais. Um deles é o Laureate, que em 2008 faturou 2 bilhões de dólares em todo o mundo e controla no Brasil a Universidade Anhembi Morumbi, entre outras escolas. Por enquanto, o Laureate tem apenas 1 000 alunos inscritos em cursos à distância no Brasil. Para expandir os negócios no segmento, deve iniciar aulas por satélite no segundo semestre - até agora a única tecnologia usada pelo Laureate é a internet.

Outro grupo que planeja entrar com força no mercado brasileiro ainda neste ano é o Apollo Global, braço internacional da maior companhia mundial de ensino a distância, a americana Apollo Group, que faturou em 2008 quase 3 bilhões de dólares. O Apollo já tem negócios em países como China e Índia, onde o mercado de ensino a distância está se tornando gigantesco - a universidade indiana Indira Gandhi, por exemplo, a maior do país, tem 1,8 milhão de alunos matriculados nesse tipo de curso. Quatro profissionais do Apollo estão trabalhando em tempo integral no Brasil para encontrar um parceiro local. "O país é uma de nossas prioridades não só pelo tamanho mas pela facilidade com que a população se adapta a novas tecnologias", diz o americano Jeff Langenbach, presidente do Apollo Global. No caminho inverso, a paranaense Eadcon, instituição que lidera o mercado brasileiro, somando cerca de 140 000 alunos, iniciou neste ano sua primeira operação fora do Brasil. O local escolhido foi a Colômbia. A meta é chegar a 8 000 alunos em 2009 e, a partir do próximo ano, usar o país como base de expansão para toda a América Latina. "Se no Brasil sofremos concorrência de grupos estrangeiros, é natural que também busquemos outros mercados", afirma o colombiano Julian Rizo, presidente da Eadcon.

A expansão do setor não apenas trouxe novos concorrentes como também fez com que o Ministério da Educação apertasse o cerco às instituições. Uma das medidas mais drásticas foi tomada em 2007. O governo passou a exigir que as instituições instalem computadores e bibliotecas nos chamados polos de ensino - estruturas com professores para tirar dúvidas nas cidades em que há alunos matriculados em cursos a distância. Foi um golpe duro para muitas escolas. A Eadcon, por exemplo, admite que pelo menos 500 de seus 1 400 centros - basicamente salas com aparelhos de TV - ainda vão precisar passar por grandes mudanças. Para Ryon Braga, da consultoria especializada em educação Hoper, essa nova regulamentação só vai acelerar um processo natural. No médio prazo, os olhos dos investidores tendem a se voltar para instituições bem estruturadas, com modelos de negócios consistentes. Braga calcula que pelo menos 15 fundos de investimento têm interesse no mercado de ensino a distância, mas para atrair sua atenção as instituições vão precisar de gestão transparente e projetos de longo prazo. "Nenhum país do mundo tem tantas instituições oferecendo ensino a distância, e a tendência é de uma consolidação natural no mercado brasileiro", diz.

Fonte: Educar para Crescer
Publicado em 24/03/2009





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