Entrevista Sinpro-Rio: Reivindicações foram rejeitadas de forma intransigente

Publicado em 17/06/2010

Leia abaixo a entrevista do Presidente do Sinpro-Rio, Wanderley Quêdo, publicada na Folha Dirigida, dia 15/06, onde ele analisa a Ca mpanha Sarial de 2010 e as perspectivas da categoria para 2011.

"Em 2011, o Sinpro-Rio completará 80 anos. Ele tem peso na História, na categoria que representa e na Educação", afirma o presidente do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio), professor Wanderley Quêdo, durante a última assembleia dos professores da educação básica na rede particular de ensino, realizada no dia 12 de junho.

Reunida em mais um sábado de assembleia, na qual outras quatro atividades eram desenvolvidas pelo sindicato em lugares distintos, a diretoria alinhavava detalhes para o fechamento da negociação salarial com a categoria. Apesar de pedirem inicialmente 5,3% de reajuste, relativos ao Índice Nacional de Preço ao Consumidor (INPC), somados a 2% de ganho real, a categoria aprovou, na sexta assembleia para abordar o assunto, o índice de 5,5% de reajuste total.

"Durante diversas paritárias, o patronato dizia que não podia dar aumento salarial porque a inadimplência já passou do nível tolerável, que os pais não estavam pagando as mensalidades escolares. Mas o reajuste das mensalidades, em janeiro, teve média de 6% a 18%", questiona o sindicalista.
Em entrevista, o sindicalista comenta as posturas da negociação salarial, prestes a ser assinada com o patronato, e fala dos problemas cotidianos do professor e o sonho comum de todos os envolvidos com o ensino no país: uma efetiva valorização da Educação.

Folha Dirigida - Como o senhor avalia as negociações com a classe patronal a respeito do reajuste salarial para a educação básica, este ano?
Wanderley Quêdo -
oi uma negociação que teve um desfecho, de certo modo, frustrante para os professores. Entramos na negociação com o intuito de avançar em questões como a condição de trabalho e saúde do professor, o assédio moral que a categoria sofre, e a questão das férias e do calendário unificado. Mas essas reivindicações da categoria foram rejeitadas de forma intransigente pelo patronato. Ainda por cima, apontaram para a retirada de conquistas dos trabalhadores, como a gratuidade para filhos de professores nas escolas, a estabilidade na pré-aposentadoria e também queriam estabelecer banco de horas. Essas propostas desqualificavam o processo de negociação e rompiam a lógica negocial de anos, como a proposição de um reajuste baixo como esse, de 5,5%, em relação ao pedido do sind icato, a ser colocado sobre um piso de R$7,73 hora/aula. Foi decepcionante o comportamento do patronato mas, ao mesmo tempo, foi extremamente revigoradora a presença da categoria nas passeatas, da diretoria na porta das escolas e da sociedade, nos apoiando. A luta não termina numa convenção coletiva. Ela dura o ano todo e vamos lutar pela melhoria das condições de trabalho, que, na educação privada, está precarizada.

Todo ano acontece esse mesmo tipo de negociação. Na sua opinião, por que o patronato ainda não conseguiu acertar os ponteiros?
O sindicato patronal teve mudanças nos últimos anos, na presidência e na direção e, pelo que sentimos, também na linha de trabalho. Diferentemente do que aconteceu com o Sinpro-Rio, que continua na perspectiva de ampliar direitos, principalmente na área de saúde e condições de trabalho. Classificaria as últimas negociações como ruins, porque estão rompendo com determinados procedimentos que vinham sendo realizados nos últimos dez anos, e que já havia estabelecido alguns patamares, como o fato de que a recomposição salarial pelo INPC não era ponto de discussão. Era um direito do trabalhador e ponto claro para os dois sindicatos. Discutíamos a lógica do ganho real, mas não pelo mérito e sim pelo fato de que deveria recuperar, em médio ou longo prazo, um piso salarial baixíssimo. O piso mais baixo d a categoria, para a educação infantil, é de R$7,73 a hora/aula. A lógica do ganho real, com a garantia do INPC, era para essa recuperação. Só que tal atitude não surtiu o efeito esperado, pois em dez anos não chegamos a uma recuperação significante desse valor. Ao se constatar isso, pensamos que estava na hora de sentarmos e negociarmos seriamente um Plano de Carreira na educação privada, que não existe ainda. E ter um Plano é apontado pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e pela Conferência Nacional de Educação como uma necessidade e direito do trabalhador. Além disso, queremos continuar discutindo os pisos da categoria, para saber qual é realmente a intenção desse patronato - que diz que suas escolas são democráticas e têm qualidade - em elevar o piso para algo digno. Para se ter uma ideia, se tirado o aumento salarial da perspectiva percentual, já que só falamos que pedíamos os 5,3% do INPC acrescidos de 2% de ganho real, em valores totais, o au mento não representaria nem um acréscimo de cinquenta centavos sobre o piso.

Que outros problemas o Sinpro-Rio vê ocorrer no cotidiano das escolas e que está buscando solução?
Na educação infantil, por exemplo, apontamos para ausência de acompanhamento do Poder Público no cumprimento da Deliberação 15, do Conselho Municipal de Educação, que obriga as escolas a terem uma auxiliar a cada seis alunos nas classes de educação infantil até três anos. Isso não é cumprido. Estabelece-se um sistema de trabalho enlouquecedor para o professor. O patronato diz que, como é lei, não precisa estar em convenção. Ao mesmo tempo, não é cumprida à risca por muitas escolas, especialmente porque os pais não sabem disso. E é função do sindicato lembrar aos pais que é direito deles, é segurança e qualidade para seus filhos. Também nos preocupamos com o número excessivo de alunos em sala de aula; e os problemas constantes na voz do professor, muitas vezes causados pelo fato de lecionarem em salas sem a menor condiç ão acústica, em beiras de ruas. Temos buscado alertar ainda para a violência. Quem dá segurança a esses alunos e professores dentro das escolas? Sabemos que o número de professores agredidos física e moralmente tem aumentado consideravelmente. O assédio moral, outro problema sobre o qual temos nos debruçado, especialmente durante os últimos dois anos, deve ser trabalhado de modo preventivo, porque vem se transformando em uma epidemia, em diversas classes trabalhadoras. Quando o patronato não tem a sensibilidade e não demonstra o interesse em debater e poder agir de forma a solucionar todas essas questões, coloca em risco a qualidade de ensino que ele afirma oferecer, além da segurança dos alunos e saúde do professor.

O Sinpro-Rio tem apontado para problemas na saúde do professor, através de campanhas. Os estabelecimentos de ensino têm feito algo para minimizar o problema?
Não tenho conhecimento de iniciativas significativas nesse setor. O Sinpro-Rio tem um projeto, com duas oficinas. Uma oficina de voz, que continua sendo oferecida e levada às escolas, como um ato não só de instrumentalização do professor para prevenção do seu instrumento de trabalho, que é sua voz. E mais, estamos oferecendo uma oficina de saúde emocional, com psicólogos. São mais de 80 fonoaudiólogos conveniados dando oficinas no sindicato e dentro das escolas, por um ato de responsabilidade pública do sindicato, e também atendendo nos consultórios deles. Já a oficina de saúde emocional conta com cerca de 60 psicólogos, psicanalistas e terapeutas, qualificados por nós durante cursos em 2009. São profissionais extremamente competentes, ao dispor em oficinas dentro das esc olas, de maneira gratuita a todos, e nos consultórios, com preços acessíveis aos sindicalizados, para tratamentos de distúrbios como Síndrome do Pânico, depressão ou Síndrome de Burnout. É importante atentar para o fato de que esses três fatores conjugados - piso salarial baixo, problemas de saúde e assédio moral - trazem sequelas. Um piso de R$7,73 força, necessariamente, uma professora de educação infantil a dobrar sua carga horária, completando com serviços extras, como recreação de festas. Isso leva a pessoa a um esgotamento físico, mental e emocional imenso, que acaba gerando um quadro somatizador.

Por que, na sua opinião, o professor ainda não é valorizado no país?
Existem várias pesquisas, mas considero bastante perversa uma delas, pois diz respeito ao gênero. Ela afirma que todas as categorias profissionais onde as mulheres se inseriram, no pós-Guerra, foram desvalorizadas. Além do magistério, podemos citar a Enfermagem, por exemplo. Isso não é um "achismo": está no IBGE, nos números de qualquer censo, nas pesquisas sobre o assunto. Mulheres ganham menos do que homens, e dependendo da raça, se forem mulheres negras, ganham menos ainda. Um outro viés é que o país ainda não tem um projeto de nação. Há projetos de partidos, projetos de políticos, mas ainda lutamos por uma "Política de Estado na Educação". A última Conferência Nacional da Educação (Conae) propõe, em síntese, um Sistema Nacional de Educação, que seja articulado e colaborador. Os entes federados não dialogam com a União e isso precisa ser mudado. A falta de colaboração e articulação atrapalha a Educação, na medida em que, ao mudar o gestor, tudo pode ser modificado: verbas são jogadas fora e projetos são abandonados. Falta uma política de Estado permanente para a Educação. A primeira Conferência foi precedida por 27 conferências estaduais e milhares municipais; envolveu quase um milhão de educadores e cumpriu seu papel. Temos que partir para o Fórum Permanente da Educação e um Plano Nacional de Educação (PNE) com metas mais ousadas, com aumento da verba para Educação e garantia da aplicação delas, a garantia da democratização da escola, e, para nós, a regulação da educação privada no país.

Na sua opinião, quando teremos professores salarialmente valorizados?
Esse é o cerne da questão. Como disse, se o professor ganhasse dez mil reais por mês, não resolveria sua vida, pois há outras questões. Mas se ganhasse, no mínimo, não precisaria trabalhar em seis escolas. Isso já daria a ele condições de se aperfeiçoar, de refletir sobre sua prática e ter uma atenção mais qualificada sobre um número menor de alunos. Atualmente, com esse piso, ele trabalha muito, atendendo muitos alunos e dividindo sua atenção. Um professor do ensino médio, dando aula de Sociologia ou Filosofia, dá dois tempos por semana em cada série. Esse profissional trabalha, em alguns casos, em oito ou até dez escolas. Fazendo as contas, ele pode lidar com cerca de 800 alunos por semana: serão 800 textos, 800 provas. Claro que isso deve se refletir na qualidade.

Já que Educação não é gasto, é investimento, os recursos do pré-sal seriam a solução do problema?
O recurso, o dinheiro em si, é base fundamental para que possa concretizar os projetos, mas ter dinheiro sem projetos ou com projetos inadequados, de nada adiantará. Vejo prefeituras no estado do Rio de Janeiro que tiveram muito acesso aos royalties, mas que gastaram em pedras bonitas para o calçadão das praias. Suas escolas continuaram em más condições, e seus professores, com pisos salariais ridículos. O dinheiro viabiliza, mas não garante nada. As garantias são as políticas de estado e, por isso, acredito em um projeto como o Sistema Nacional de Educação. Estamos também nos preparando para aprovar o Plano Nacional de Educação (PNE) até 2020. Reafirmo que a solução são as políticas de Estado, que não ficarão nas mãos de um grupo, de um partido político ou de uma personalidade. Porque o dinheiro, por si só, não vai fa zer nada.

Que avaliação o senhor faz nesses dez anos de atuação da Escola do Professor?
A Escola do Professor é um centro de formação sindical, onde se faz reflexão sobre o trabalho em geral, e em especial, o trabalho docente. Nesse sentido, tem cumprido seu papel na organização de seminários onde se vai muito além das negociações salariais. Ela tem conseguido manter diálogos com as Academias, com as Centrais e outros sindicatos e com a sociedade. O esforço tem sido recompensador.

Fonte: Folha Dirigida


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