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Sinpro/SP: Resultados do Enade põem em xeque modelo privatista
Leia o manifesto divulgado pelo Sinpro/SP sobre os resultados do Enade e a comprovação do descompromisso de diversas instituições privadas de ensino superior com a qualidade de educação e o desenvolvimento do Brasil.
O fracasso generalizado das instituições universitárias particulares no Enade de 2007 tem razões mais profundas do que as questões metodológicas que os donos de escola estão tentando questionar. Ele é resultado da desordem provocada pelos próprios gestores do sistema com todas as conseqüências negativas que acarreta para o trabalho dos professores e para a qualidade do ensino.
O melhor exemplo desse estado de alienação dos empresários em relação aos imperativos da estrutura universitária (que reflete seu desconhecimento sobre a dimensão do problema) são as declarações do seu principal representante, Gabriel Mario Rodrigues, presidente da entidade máxima do ensino privado: Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES). Logo após a divulgação dos resultados do ENADE, Rodrigues, perguntado sobre a relação entre qualidade de ensino e titulação de docentes, afirmou que essa não é uma questão que se reflete no baixo desempenho dos alunos, porque “esse professor [titulado], às vezes, não é um bom comunicador”.
Essa compreensão rasteira é um pequeno exemplo que mostra o abismo existente entre a natureza do ensino superior e a forma como ele é gerido por essa perspectiva empresarial e mercantil que o leva a um impasse. A dimensão da Universidade, seu compromisso com a qualificação acadêmico-profissional, sua responsabilidade com projetos nacionais de desenvolvimento, é muito mais ampla do que a visão gananciosa e autoritária que prevalece entre os gestores do setor.
Como é possível imaginar que uma instituição universitária demita doutores para enxugar sua folha de pagamentos, sem medir o custo social da formação de um doutor no Brasil? De outro lado, como é possível que uma instituição universitária mascare um plano de carreira com objetivo de reduzir salários, ignorando a finalidade aprimoradora da docência que esses planos têm? Ou ainda, como um sistema de ensino pode funcionar com padrões de qualidade acadêmica com salas de aula superlotadas? Como imaginar que o potencial inclusivo da educação a distância possa ser atingido se essa modalidade de ensino tem sido usada com uma extraordinária sobrecarga de trabalho dos professores?
As respostas a essas questões se traduzem diariamente num sistemático exercício do arbítrio administrativo que os professores conhecem: autoritarismo das instâncias internas de poder, insegurança profissional, encenação de decisões colegiadas e todo o conjunto de dificuldades, para dizer o mínimo, que o corpo docente enfrenta para desempenhar com consistência acadêmica a plenitude de suas funções. E tudo isso acontece com incríveis privilégios fiscais...
No entanto, a imagem pública que essas empresas procuram construir, sem êxito, como se vê agora, é a da ostentação financeira e do êxito de seus empreendimentos, como comprovam essas iniciativas de associação com o capital estrangeiro, ações na bolsa e toda a pirotecnia que mais oculta do que revela a sua incompetência para lidar com o ensino. As articulações lobistas que esse setor promove em várias instâncias da vida nacional mostram bem quais são suas prioridades.
No próprio dia da divulgação do Enade, os empresários, capitaneados pela ABMES deram uma demonstração desse delírio com a tentativa, felizmente frustrada, de evitar que os resultados do exame chegassem ao conhecimento da opinião pública. E houve de tudo um pouco nesse ambiente carregado de descompromisso com a realidade do ensino particular, inclusive bizarras discussões sobre questões de metodologia do processo de avaliação, como se fosse hora disso.
Os professores devem estar atentos para esse quadro, porque uma das maneiras de escamotear as causas mais profundas dos resultados do Enade pode ser uma tentativa de atribuir à nossa categoria a responsabilidade pelo mau desempenho que as instituições tiveram. Os professores enfrentam, no ensino privado, difíceis condições de trabalho e são essas condições que agora precisam ser levadas em conta pelo Ministério da Educação e pelas comissões que visitarão aquelas escolas que obtiveram conceitos baixos. De sua parte, o Sindicato dos Professores de São Paulo pretende interceder junto ao próprio ministro Fernando Haddad, ao Conselho Nacional de Educação e ao INEP, com o objetivo de expor as restrições que tem a fazer sobre a forma como o ensino superior privado tem atuado no país.
Nossa categoria exige que sua voz seja ouvida.
Sindicato dos Professores de São Paulo – SINPRO-SP
Fonte: Sinpro/SP
Publicado em 08/08/08 |
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