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Sinpro/SP entrevista: Educando educadores
Pierluigi de Piazzi fala sobre o ensino, a aprendizagem e a importância do estudo solitário
“É hora de o professor dar uma volta de 180º, parar de olhar para a lousa e olhar para os alunos. O educador precisa aumentar o universo dele, ler muito, ser inteligente! Quanto aos alunos, se soubessem o quanto é importante estudar sozinho, depois da aula... A escola não acaba quando bate o sinal. Aí é que começa, na verdade”. Essas são algumas das opiniões de Pierluigi Piazzi sobre os atuais desafios vividos pela educação e a respeito da forma como os educadores devem enfrentar essa realidade tão complexa.
Formado em Física e Química, Piazzi já foi professor de Teoria Geral dos Sistemas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e atualmente apresenta o programa Plug Eldorado, na rádio Eldorado AM de São Paulo. Não bastasse isso, é também professor de física do Curso Pré-Vestibular Anglo e autor do livro sobre educação Aprendendo inteligência; em breve lançará mais dois: Estimulando inteligência e Ensinando Inteligência, todos publicados pela editora Aleph.
Este último, aliás, que chega às livrarias em setembro e é especialmente dedicado aos docentes, será também lançado em palestra que Piazzi ministrará no SINPRO-SP, no próximo dia 15 de outubro, como parte das comemorações do Dia do Professor. Será uma excelente oportunidade para que os educadores da rede privada de São Paulo possam compartilhar idéias com alguém que, apesar de todos os obstáculos e dificuldades, dos problemas acumulados e cada vez mais complicados, continua a acreditar na importância transformadora da educação, na sociedade que tem no professor a figura de um mestre, em um educador bem preparado para desenvolver suas tarefas, em professores que escolheram efetivamente a carreira docente e não só vêem nela um complemento de renda.
Um pouco desse otimismo você pode acompanhar na entrevista a seguir, uma espécie de vôo panorâmico e de prévia de alguns dos debates que certamente serão aprofundados durante o evento de outubro.
Professor, para ir direto ao ponto: qual é o papel que cabe ao professor diante de tantos e tão complexos desafios?
O papel do professor mudou muito nos últimos tempos. E para pior. Antigamente, o professor era visto como o sábio que orientava as novas gerações. Hoje é visto quase como um mordomo educacional, muito parecido com o sentido original da palavra pedagogo. Na Roma antiga, os pedagogos eram escravos semi-analfabetos que tinham como única tarefa conduzir os filhos dos seus patrões até a escola e zelar para que eles ficassem lá. A sociedade atribui esse valor medíocre ao professor, o que também faz da educação um processo não-eficiente. Mas eu não acho que esse seja um caminho sem volta; caso contrário, não teria escrito meus livros, não daria aulas nem faria as minhas palestras.
E qual é o caminho de volta para concretizar a relevância social da tarefa do educador?
Primeiro, a sociedade precisa se conscientizar do lugar do professor. O lugar que ele tem hoje e o que tinha no passado. O sistema de educação e a relação das famílias com a escola, em outras palavras, a educação mesmo, precisa voltar a ser como era antigamente. Os pais confiavam seus filhos aos professores com a recomendação expressa de que era para o mestre fazer o pupilo se comportar e, se isso não acontecesse, o aluno sofreria as conseqüências em casa. Hoje, se um professor tem a coragem de chamar um aluno de mal-educado, ele toma um processo nas costas. Para ilustrar essa situação de desmerecimento, vou contar uma coisa: já preparei 100.400 alunos para o vestibular, então eu tenho mil histórias para contar. Uma das perguntas que mais ouço é: professor, o senhor trabalha ou só dá aula? Muitos professores já devem ter ouvido isso, ficam chateados com a pergunta. Eu sempre digo que não fiquem, porque no fundo trata-se de um elogio. O aluno quer dizer: o senhor é tão competente que podia estar no mercado de trabalho! O problema mora no fato de que a sociedade não acha que o professor é um sujeito competente, caso fosse estaria no mercado de trabalho e não dando aula. E é esse pensamento que devia ser revertido.
Como o senhor explica essa decadência?
Em primeiro lugar, sem dúvida é culpa da desvalorização financeira da profissão. Para você ter uma idéia, há 50 anos uma professora primária ganhava o mesmo salário de um juiz recém-nomeado. O salário desse juiz se manteve no mesmo nível. O da professora, não. Então as pessoas acham que primeiro foi a desvalorização da carreira e por isso os baixos salários. Na verdade é o oposto. Reduziram os salários para diminuir a carreira, porque infelizmente, na nossa sociedade, as pessoas confundem valor com preço e julgam que só tem valor o que tem um alto preço. Para explicar essa redução proposital no salário, é preciso lembrar o que aconteceu no Brasil e em muitos países subdesenvolvidos. Houve um projeto político e ideológico para fazer a educação perder qualidade. Foi, portanto, intencional. A idéia era que o sistema de educação do terceiro mundo não poderia ser tão eficiente, porque se não as pessoas começariam a votar certo. E isso era muito perigoso para o projeto político vigente. A educação tinha que ser ruim a ponto de as pessoas não conseguirem entender e se informar a partir do que estava escrito no jornal, entende? E isso ainda não foi mudado no Brasil e posso afirmar que esse projeto é apartidário, independe da corrente que está no poder. A segunda razão é o círculo vicioso que se cria por conta da baixa valorização. Ou seja, os alunos mais brilhantes não viram docentes, vão para o mercado de trabalho porque lá estão os melhores salários. E acabam sendo professores os alunos com desempenho médio e baixo. E aí cai a qualidade do professor, o que reforça a idéia de que é uma profissão que não deve ser valorizada. A terceira razão é que a docência virou um bico, uma tarefa para complementar à renda. Além do absurdo de qualquer um se intitular professor, até técnico de futebol, os professores dão aulas paralelamente a outros trabalhos e empregos. Eu faço muitas palestras para secretarias municipais de educação, é um trabalho ideológico, eu chego lá nos auditórios para falar para centenas de professoras primárias. Você reparou que eu falei professoras? A mulher dá aula e recebe aquele salário pequeno, que não é a renda principal da casa, o salário dela complementa a renda do marido e isso é muito preocupante.
Qual o conteúdo principal das conversas que o senhor tem com essas professoras?
Entre outras tantas conversas, vou lá para destacar a enorme importância do estudo solitário. Vou lá ensinar técnicas de estudo e vou sugerir que as escolas funcionem em tempo integral. Não para deixar o aluno sobrecarregado com tantas atividades, mas para que ele tenha tempo e um lugar apropriado para realizar seu estudo solitário, para fazer a lição. Eu tenho a convicção de que sem estudo ninguém aprende. Por isso as professoras devem passar a lição, cobrar que o aluno faça e corrigir.
Como se dá esse circuito da aprendizagem? Qual o caminho que a informação dada em aula precisa percorrer para virar um aprendizado?
Vou começar então com um velho ditado chinês que diz que o que ouço, esqueço; o que vejo, entendo; e o que faço, aprendo. Na maior parte das aulas e das escolas, os alunos ouvem e vêem, por isso ali é o lugar de entender. E é na lição de casa, quando ele está fazendo de fato, que o estudante vai aprender. E aprender não é um processo imediato. Eu gosto de usar a seguinte analogia: quando o aluno está acordado e vai à aula, é como se estivesse escrevendo na areia. Escrever na areia, você sabe, é uma escrita que está fadada a ser apagada. Passa o vento, vem a maré e apaga aquilo. Mas à noite, dormindo, é como se alguém viesse e despejasse cimento fresco sobre essa escrita. Aquilo solidifica e quando seca, virou uma placa que ninguém pode apagar. Se está escrito de levinho na areia, a placa fica difícil de ler. Mas se está escrito bem profundo, a placa fica bem legível e fácil de compreender. Para essa placa de cimento ser gravada para sempre, o que o aluno tem que fazer? Estudar sozinho depois da escola. Onde mora o equívoco? Na hora de escrever na areia e gravar a placa. E aqui a culpa é 99% da escola que ensina a escrever na areia só antes da prova. Aí aquilo fica fresquinho na memória, o aluno vai bem na prova, e quando acaba, esquece tudo. Outro equívoco, agora do aluno, é aquele papo de que ele não precisa estudar, que prestando atenção na aula entende tudo. É verdade, entende mesmo, mas esquece tudo depois da prova e a educação não existe nesse caso. Depois da aula é hora de reescrever tudo aquilo que foi dito na classe fazendo a tarefa. Aí o aluno aprende de verdade – e não finge, como acontece hoje – e a escola ensina de verdade – e não faz de conta, como o que acontece hoje.
Para esse estudo solitário ser eficiente, a lição tem de ajudar, certo? Como devem ser esses exercícios de casa para que o aluno reescreva a aula e aprenda de fato?
Os professores devem propor exercícios, questões e situações-problema que façam com que o aluno utilize as ferramentas aprendidas em aula e reaplique em novas situações, novas realidades, novos desafios. O aluno precisa dar sentido para o que viu e ouviu em aula e não só repetir o que foi ensinado. E depois tem uma coisa mais grave. Os alunos dizem que até gostariam de estudar sozinhos depois da aula, mas não conseguem entender o que está proposto na questão, no problema. Por isso, antes de qualquer coisa, precisamos ensinar nossos alunos a ler. Ler mesmo, entendendo e interpretando o que está escrito ali. Hoje, os professores fazem de conta e em vez de ensinar a ler, ensinam os alunos a ser tradutor de signos. Eles traduzem palavras escritas em sons e não em idéias. A escola precisa ensinar a ler de verdade, para que o aluno entenda a lição. E para isso, o aluno tem que compreender o prazer da leitura. Mas há dois culpados externos à escola que complicam essa percepção. O primeiro é a parafernália eletrônica. O sujeito fica horas no videogame, no computador, no MSN, na frente da TV e jamais lê um livro. Essa criança precisa ser conscientizada da importância e do prazer que ler proporciona. E a outra culpada é a família, que deixou essa questão da leitura de lado. Os pais não lêem, não compram livros para os filhos e não se conscientizam de que ler é fundamental para aprender qualquer coisa.
O senhor acha que, além da família, é papel da escola e do professor tentar resgatar esse prazer pela leitura? E como dá para fazer isso na prática?
O professor de Literatura não aprende na faculdade de Letras que ele, antes de ensinar literatura, deveria ensinar leitura, mostrando como se manifesta essa ferramenta prazerosa e eficaz para aprender. Sem saber disso, eles mandam ler Iracema, que não dá nenhum prazer ao aluno, que acha até Harry Potter pesado, e querem que o menino desenvolva o hábito da leitura. Não é por aí. A escola que não se preocupa com o degrau anterior, que é a leitura, não vai conseguir ensinar literatura. Eu venho dando muitas dicas aos professores, para que eles mudem a técnica de abordagem com relação aos livros. A primeira é que eles sugiram livros de ficção científica e de mundos fantasiosos aos alunos, material que costuma fazer muito sucesso entre os adolescentes. A outra é a técnica do leque. Em vez de dar um livro, o professor pode sugerir duas dúzias. O aluno vai lá e escolhe um. Começa a ler e, se não gostar, troca. E pode trocar até achar um que lhe dê prazer. A gente tem que respeitar o gosto e a individualidade. Eu sei que é mais chato e que dá mais trabalho ao professor – que vai precisar ler todos os livros oferecidos – mas sabe o que acontece? 90% dos alunos viram leitores. Os professores que adotaram o leque é que me dizem isso.
E a qualificação do professor? O que o educador pode fazer por ele mesmo?
Sabe quando a aeromoça fala que, em caso de emergência, coloque a máscara primeiro em você e depois nas crianças que estiverem por perto? Aqui vale o mesmo. Todas as dicas de estudo e leitura que apontei para os alunos servem, primeiro, para os professores. Sejam mais inteligentes, mais competentes, leiam mais, mas leiam romances, contos, ficção e não só livros técnicos. O professor precisa resgatar o prazer da leitura também e ampliar o universo das especializações. Com tudo isso ele vai ser um profissional mais completo e vai começar a trilhar o caminho de deixar de ser um “dador de aulas” para ser um educador. Essa escada em direção ao conhecimento é infinita, mas os degraus são baixinhos, a gente sobe bem pouquinho por dia. Mas pode subir para sempre.
» Ouça aqui trecho da entrevista com o Prof. Pierluigi de Piazzi
Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo
Fonte: Sinpro/SP
Publicado em 08/09/2008 |
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