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Italo Moriconi fala sobre Seminário “Os trabalhadores na literatura brasileira”
Leia a entrevista com o pós-doutor em Comunicação pela UFRJ, Italo Moriconi, um dos mediadores do seminário: “Os trabalhadores na literatura brasileira”, que acontecerá em novembro no Sinpro/Rio. Saiba mais.
Professor Italo é também editor executivo da Editora Uerj, além de escritor. Como poeta, lançou Léu (1988), A Cidade e as Ruas (1992) e Quase Sertão (1996). Também foi responsável pela compilação de duas coletâneas sobre literatura Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, ambos editados pela Objetiva.
Em sua opinião, qual a importância de se realizar um seminário que trata da inserção do trabalhador na Literatura Brasileira? O que o senhor acha da iniciativa do Sinpro-Rio de realizar um debate crítico sobre o lugar dos trabalhadores na formação da sociedade brasileira?
ITALO MORICONI: Ninguém melhor que o Sindicato de Professores para realizar um seminário com esse tema. Primeiro, por ser um Sindicato, cuja obrigação é ver a participação política e a educação da cidadania pelo prisma do trabalho e do lugar dos trabalhadores. Segundo, por ser a literatura um espaço permanente de encenação, problematização e compreensão das questões do trabalho e de quem trabalha. Finalmente, porque os professores, por natureza, podem e devem ser uma categoria de trabalhadores interessada pela literatura como área de interesse geral, para além das fronteiras entre as diversas disciplinas, promovendo o diálogo humanístico capaz de dar sentido global e moral àquilo que aprendemos de maneira fragmentária.
De que forma nossa produção literária pode contribuir para retratar a experiência do trabalho?
ITALO MORICONI: Simplesmente existindo. Onde há produção literária, há também a problematização da experiência humana e isso é uma faceta central da experiência humana contemporânea. O trabalho é uma das coisas que dá sentido à vida no mundo de hoje.
O que deveria ser feito para recuperar e valorizar a memória do trabalho na sociedade brasileira?
ITALO MORICONI: Iniciativas como centros de referência, bancos de dados, centros culturais, museus, centros de memória, arquivos públicos e privados, assim como cursos, seminários, eventos multidisciplinares, etc. A Memória do Trabalho constitui uma das disciplinas importantes dentro de cursos universitários como História, Ciências Sociais, Economia, etc. Há muita pesquisa a ser feita e elas podem se traduzir em múltiplas atividades pedagógicas e culturais.
Para o senhor, quais são os desafios da literatura enquanto formadora de opinião?
ITALO MORICONI: Em primeiro lugar, enfrentar o desafio do cinema e da TV. Em segundo, o desafio posto pelas novas tecnologias do computador. Creio que a literatura conseguiu uma boa convivência com os primeiros, já que romances e contos continuam sendo largamente utilizados como argumento e inspiração tanto no cinema quanto na TV. Já a nova tecnologia virtual favorece muito a literatura, como provam tanto a proliferaçào de blogs e sites literários, quanto a multiplicação de formas de divulgação, distribuição e vendas de livros pela internet.
Como ex-diretor do Sepe e considerando sua participação no sindicalismo, como o senhor vê o movimento hoje?
ITALO MORICONI: O sindicalismo passa por uma certa relativização em determinados setores, devido ao aumento de importância de um mercado livre de trabalho, particularmente nas áreas de serviço, cultura, educação e comunicação, onde muitas vezes apenas um indivíduo por si só já pode constituir uma empresa. Porém, para os assalariados, será sempre importante ter uma entidade que lute por seus interesses, que tenha influência sobre o Legislativo e que seja respeitada pelo Executivo. Hoje em dia, é fundamental um sindicalismo de resultados, que seja de lutas, mas que não se desgaste em mobilizações inúteis. A mobilização deve haver sempre, mas não a radicalização, como, por exemplo, greves intermináveis na educação pública. É necessário também que os sindicatos sejam fortes na assistência jurídica e na defesa dos direitos de vida e saúde do trabalhador. Considero que o tema da luta coletiva pela saúde e pela qualidade da vida deveria ser central na pauta de qualquer sindicato neste início de século 21. A saúde da mulher, da criança e do idoso são prioridades na luta social contemporânea, pois, cada vez mais, a diferença de classe social e de renda familiar explicam diferenças tanto na qualidade quanto na quantidade (expectativa) de vida. Hoje em dia, quem tem mais recursos vive melhor e mais. Cabe aos sindicatos lutar pela igualdade de todos os trabalhadores e faixas salariais no acesso aos tratamentos de ponta.
Enquanto professor, o senhor acha que falta mobilização à categoria, principalmente da Educação Superior?
ITALO MORICONI: Acho que o que falta realmente é um sistema mais organizado para a mobilização dos professores. Nas universidades públicas, a mobilização deve ser feita pela própria estrutura orgânica, pois tanto diretores de faculdades quanto reitores são eleitos. Isso não elimina o papel das associações e sindicatos. Sistema orgânico e sistema sindical devem se complementar na universidade pública. Já no ensino superior particular, as dificuldades são imensas e a mobilização se dá através da permanente presença do sindicato mediante atividades culturais e assistência jurídica e outras.
Quais são as diferenças entre uma editora universitária e uma editoracomercial? Por que ainda é tão difícil o acesso aos livros publicados pelas editoras universitárias?
ITALO MORICONI: A editora universitária é subvencionada pela universidade para lançar títulos importantes academicamente que não teriam chance de oferecer lucros numa editora comercial, principalmente, no Brasil, devido à estreiteza do mercado específico para obras em nível de Pós-graduação e Pós-doutorado. Por definição, a editora universitária executa uma política editorial da universidade voltada para: a) veicular sua produção interna; b) veicular a produção nacional nos campos da pesquisa pura e aplicada considerados mais relevantes em cada momento; c) traduzir títulos estrangeiros importantes nas áreas humanísticas, científicas e tecnológicas.
O acesso pelos consumidores potenciais é difícil, devido às precariedades da distribuição comercial, principalmente nas editoras pertencentes a universidades públicas, que não dispõem de uma fundação. É difícil distribuir livros no mercado quando não se tem uma personalidade jurídica e comercial muito clara e isso ainda está por se resolver em nosso país. Algumas editoras universitárias, entretanto, são muito bem sucedidas comercialmente, atuando no mercado em expansão dos leitores brasileiros de nível universitário: EdUSP, EdUFMG e EdUnesp são algumas das maiores do Brasil, eficazes comercialmente, mas sem serem escravas do comercialismo. Muito pelo contrário, são editoras exemplarmente acadêmicas. Hoje em dia, podem-se encontrar os lançamentos das universitárias nos seus sites na internet, encomendando livros através deles, embora isso nem sempre funcione com a presteza necessária ou esperada.
Quantos livros são publicados anualmente na EdUerj? Considerando a proposta da editora em publicar produção científica e intelectual de estabelecimentos de Ensino Superior e pesquisa, na sua opinião, essa quantidade é desejável?
ITALO MORICONI: Assumi a editora este ano. Nos últimos anos, a EdUerj lançou algo entre 15 e 20 títulos por ano. É pouco. Minha missão é dobrar essa média o mais rápido possível.
Caso não seja ainda o esperado, que ações poderiam ser feitas para os professores e alunos tivessem mais acesso às editoras universitárias, no sentido de publicar livros?
ITALO MORICONI: O processo para publicar um livro na EdUerj é semelhante ao de qualquer editora. O autor submeterá seus originais à editora, que fará uma avaliação interna de sua pertinência ou não para publicação. O diferencial da editora universitária é que essa avaliação no nosso caso será feita tendo em vista critérios de mérito acadêmico e científico. São também muito bem aceitos trabalhos de divulgação científica de alto nível, que possam ser adotados em cursos de graduação ou como instrumentos auxiliares de aperfeiçoamento para o professor de Ensino Médio. Ainda não entramos na área de publicações voltadas para o aluno do ensino médio. É possível que venhamos a fazê-lo, mas não de imediato. Depois de ser submetido a pareceristas altamente qualificados, o livro proposto à publicação na EdUerj ainda precisa passar pela aprovação do Conselho Editorial. Caso aprovado, é publicado.
Segundo o site da EdUerj, a editora não publica ficção, poesia ou literatura infantil. Por que a restrição?
ITALO MORICONI: Por definição, o básico de uma editora universitária é a publicação de manuais, tratados, livros de pesquisa, ensaios acadêmicos em todas as ciências e artes... Em suma, bibliografia teórica e crítica. Ficção e poesia correntes, por definição, devem ser publicadas no circuito comercial ou extra-universitário. Mas, é claro que editoras universitárias podem possuir linhas específicas de publicação de ficção e poesia, como, por exemplo, publicação de clássicos esquecidos, de antologias com valor didático para graduação e Ensino Médio ou coleções inovadoras norteadas por critérios claros de escolha. Na EdUerj, estamos iniciando este ano uma série de antologias “para jovens leitores”, começando com uma antologia de Machado de Assis, a ser lançada em novembro.
Fonte: Sinpro/Rio
Publicado em 20/10/2008 |
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