VI CONSINPRO do Sinpro/ ES: Educadora explica o que está acontecendo com as Escolas

“Trabalhamos em instituições que estão sendo demolidas. Desses escombros, tão fartamente produzidos, vão se erguendo novos projetos de Escolas” foi o que afirmou a educadora Célia Linhares em sua palestra “O Sonho Não Acabou: Professoras e professores redescobrem suas potências, instituindo novas escolas”, durante o VI CONSINPRO.

Célia Linhares explicou que em algumas escolas, ainda predominam esquemas elitistas que conservam desigualdades, gerando outros estilos de injustiças e submissões, e em outras, prevalecem relações mais horizontais, includentes, criadoras que vão re-inventando formas potentes de ensinar e de aprender, onde processos de diferir e criar confluem com os empenhos de justiça, respeito e igualdade. Vale a pena lembrar, que esses tipos de escolas não se estabelecem de forma fixa e duradoura. Pelo contrário, convivem em diferentes níveis em todas as escolas, que ora são assustadoramente reprodutoras e autoritárias, mas que em determinados espaços abrem frestas democráticas, em que é possível criar acontecimentos incríveis. E vice-versa.

“Não podemos esquecer que apesar da grande variedade de relações que compõem as instituições escolares contemporaneamente, há alguns discursos recorrentes, afirmando que a Escola está piorando, que os alunos nunca aprenderam tão pouco, para concluir que, tudo isto comprova, que as desigualdades educacionais não têm jeito e, finalmente, insinuam que nem todos que “querem” aprendem. São muitas e muito perversas as profecias anunciadas, que abatem as esperanças populares e fazem crescer o coro do “não tem solução, culpabilizando as vítimas dos insucessos sociais e educacionais”, disse a professora.

Segundo ela, o tratamento das questões docentes não pode renunciar ao enfrentamento de sérios desafios que estão atravessados por “verdades manufaturadas”, para usar uma expressão de Chomsky, que divulgam e impõe só uma parte dos acontecimentos. É bem o caso das notícias que correm disseminando crenças, como as que mencionamos anteriormente: de que a escola pouco ensina e que a “culpa” desta baixa aprendizagem é dos professores ou dos estudantes.

Para mudar este quadro de longa duração é necessário articular muitas frentes, interligando muitas dimensões e instâncias sociais.
Uma dessas frentes pode ser a organização das escolas, como comunidades de aprendizagem em que todos e todas os que participam do processo escolar possam, em alguma medida, participar de múltiplos tipos de pesquisa-intervenção, observando, registrando, propondo caminhos, discutindo resultados, valorizando as experiências, como trajetórias para aprender as possibilidades de criar outra escola, partindo desta que temos, avaliando, permanentemente, sua própria instituição escolar (seus estudantes, seus profissionais) e suas múltiplas conexões sociais, desde as famílias dos estudantes e seus círculos de vizinhança.

Por este caminho é possível entender que, embora as dificuldades de aprender e ensinar sejam espalhadas na escola, até porque a economia de mercado vem impregnando a sociedade e entranhando-se em todas as instituições, produzindo mercadorias e compulsões para acumulá-la,  há também movimentos instituintes, que resistem e vão aproveitando frestas, para a criação de uma outra cultura escolar que procura aproximar a vida, as forças sociais transformadoras da escola, dos processos de aprender e ensinar.

Por tudo isso, os professores devem ter tempo para pesquisar sua prática e para escrever sobre ela, buscando movimentos cada vez mais includentes de pessoas, de linguagens, de métodos, de espaços e tempos educativos.  É preciso olhar para a escola e ver suas relações com esta sociedade de mercado, atentando para os esquemas de garroteamento que oprimem professores, empurrando-os a assumirem o papel de tarefeiros, operadores de programas, com processos de controle externo que os vai limitando em sua indispensável criação de pensar e agir.

As maiores dificuldades da docência passam pela indisciplina:
- Os professores estão dentro de instituições que estão sendo desconstruídas. Há tensão e pluralização de projetos, que muitas vezes se embaralham, dificultando uma clareza nos projetos docentes de como devem, querem e podem participar na reconstrução e na reinvenção das escolas. Portanto, a confluência dos professores, dos pais, dos estudantes sobre alguns objetivos a serem alcançados, sobre os métodos a serem usados e avaliados, pode ir propiciando decisões coletivas mais participadas que são de alta importância para a condução do trabalho escolar.

- Também vem sendo muito reclamado pelos professores, a falta de disciplina e uma cultura que parece primar por poucos exercícios dialógicos. É como se estivesse faltando em casa, nos espaços de convivência por onde os estudantes transitam e professores sem maiores oportunidades de conversas, de escutas, do uso da palavra. Seriam ressonâncias de uma preponderância das imagens? Seria o silenciamento dos jovens e crianças diante da TV e do computador? Seria uma certa obsolescência escolar, que não sabe estimular curiosidade e casar saberes e sabores, conectando conteúdos escolares com experiências infantis, juvenis, sociais?

Os professores se queixam de desrespeitos à autoridade e de dificuldades de escutar os estudantes e de serem escutados. O tamanho das turmas agrava esta situação? O tratamento dos estudantes como consumidores e clientes os colocam em posições de permanente “satisfação” impedindo os professores de educá-los?

Todas essas questões englobadas como indisciplinas são extremamente complexas, pois, com freqüência, elas retratam autoritarismos e controles rígidos das escolas, bem como processos padronizadores de comportamentos, com modelos esquemáticos de percursos de aprendizagem que acabam roubando a curiosidade dos estudantes e professores e a própria magia do aprender e do ensinar.

- Não é de menor importância, o desprestígio do professor - expresso em seu salário -, e nem a posição descartável que coloca os profissionais da escola à mercê da diminuição de estudantes, e da troca de professores que atendem aos requisitos do mercado. Por outro lado, sem uma política de formação permanente na própria instituição escolar, o professor está sempre ameaçado de se desatualizar;

- Estas e outras questões condicionam os professores a um acúmulo de horas aulas que os priva de uma apropriação e elaboração criadora de sua experiência, assumindo uma carga horária muitas vezes desumana e, fazendo de si mesmo um repetidor de matérias.

Como contornar esta situação:
Para contornar esta situação, a professora Célia Linhares sugere que os professores passem a conhecer seus horizontes e a multiplicar suas opções, e que isto não se faz individualmente, pois a instituição é configurada de modo social e político. “É tempo de ultrapassarmos, nas escolas, processos individualistas e competidores, que geram tanto desamparo e estresse, quanto soluções acanhadas que nos prendem em esquemas repetidores. Afinal, na nossa problemática escolar, como na social, temos que reconhecer que os tempos são outros e que como disse Bolívar “ou inventamos ou erramos””, enfatizou.

Penso que só a construção de uma autonomia docente, pedagógica, que não pode prescindir de percursos de teorização, pode ir encontrando caminhos de ação para superar salas de aulas com número excessivo que acabam prejudicando os diálogos fundamentais para bem aprender e bem ensinar, bem como a superação de baixos salários, de hierarquias autoritárias, de concentração de poderes machistas, da compulsão do consumo, da aplicação mercadológica do direito do consumidor e tantas outras mazelas que  a cultura capitalista vem impregnando às escolas.

Ainda importa não dicotomizarmos a escola, separando heróis e vítimas, nem bem feitores e vilões, para atentarmos para as relações que têm vigência entre nós. É preciso entender com seus movimentos e complexidades o que se passa dentro das instituições escolares, para não simplificarmos as experiências escolares, não padronizarmos modelos, reproduzindo, cegamente na escola, as tendências em voga na sociedade, como a atração pelo novo, pelo consumo, que penetra na própria maneira de falar, de pensar, de existir.

Importa ressaltar como os professores cada vez mais descobrem a relevância de discutir os problemas que acontecem dentro das escolas, assumindo suas responsabilidades e entendendo suas inter-relações com a sociedade. É fundamental que os professores, tenham assegurado em seu contrato de trabalho, o tempo para pesquisar e para escrever. Só assim poderemos sair da mesmice e lembrar que apesar de todas as coisas ruins também acontecem coisas boas nesse mesmo cenário, que são nossas escolas.

As mudanças de rumo não aconteceram naturalmente, precisamos saber para onde queremos levar a escola e que posições precisamos tomar, seguindo uma leitura dos tempos e das conjunturas históricas.
É tempo dos professores redescobrirem sua potência e reinventarem as escolas tomando em consideração um projeto de um outro Brasil, com dignidade nacional e uma outra escola em que se exercitem cidadanias docentes e discentes.

Afinal, bem sabemos como os professores têm sido controlados dentro das instituições escolares. Mas, para bem aprender e bem ensinar importa muito o exercício da autonomia e é quem mais sente a falta da liberdade, mais precisa procura conquistá-la.
Já conseguimos avançar em algumas direções. Em nossas escolas crescem agora as populações negras, indígenas, com diferentes preferências sexuais, idosos. Esta entrada e convivência escolar podem trazer uma prática de valores de respeito ao outro, com que a sociedade humana se enriquece.

Também há nas escolas, muitas experiências de autonomização e de pluralização  que confluem no empenho de enfrentarmos as desigualdades. Se os problemas são grandes e sérios, também nossos sonhos continuam vivos e cada vez mais os professores recusam a função de tarefeiros, desejando pensar o Brasil e os rumos das existências de tantas e tantos estudantes que passam por nossa escolas, contribuindo não só na apropriação de informações, mas ajudando-os a expandi-las e a diversificá-las e sobretudo a conectá-las para serem capazes de dar sentido a sua vida, compartilhando ações políticas. Afinal de contas "O sonho ainda não acabou".

Fonte: Sinpro/ES
Publicado em 13/11/2007