Frei Betto parabeniza petistas que apoiam Flávio Dino

Ex-assessor e amigo pessoal de Lula parabeniza a decisão dos petistas maranhenses em apoiar a candidatura de Flávio Dino ao governo do estado. Confira a entrevista.


Frei Betto
Em visita ao MA, Frei Betto elogiou "coerência" de petistas

Carlos Alberto Libânio Christo. Mais conhecido como Frei Betto. Natural de Belo Horizonte. 65 anos. Tem uma longa trajetória de militância política. Escritor e adepto da teologia da libertação, ele sofreu torturas enquanto esteve preso durante o regime militar. Em 2003, foi nomeado assessor especial do presidente Lula, com quem tem grande proximidade.

Em visita a São Luís durante os dias 5 e 6 deste mês, quando participou de evento promovido pela Igreja Católica, Frei Betto conversou com O IMPARCIAL e sobre a escolha do PT na disputa pelo governo do Maranhão, sucessão presidencial, entre outros assuntos.

O IMPARCIAL: O senhor acompanhou a fundação do PT e é amigo do presidente Lula, mas manifesta opção pela pré-candidata do PV, Marina Silva. Quais os motivos dessa opção?
Frei Betto: Eu não estou seguro a esta altura que eu vá votar em Marina Silva. Estou seguro que eu vou votar em alguém que dê continuidade a algumas políticas que eu considero exitosas do governo Lula, como a política externa. Nesse momento eu não saberia responder em quem vou votar. Estou esperando o posicionamento dos vários candidatos progressistas diante de temas importantes como a reforma agrária, a relação com os Estados Unidos e a defesa desse processo de unidade da América Latina, que o presidente Lula tem desempenhado muito bem.

O PT maranhense recusou apoio a Roseana Sarney (PMDB) na disputa pelo governo do estado, mas o fato recebeu críticas de José Dirceu (PT). Como o senhor analisa esta decisão do PT maranhense?
Eu só tenho a parabenizar o PT do Maranhão pela sua coerência com os princípios fundadores do partido. Eu creio que o PT tem que ter um projeto de Brasil e não um projeto de poder. E certas alianças espúrias não convêm para um partido que sempre teve como um de seus capitais políticos a questão da coerência ética, mesmo na forma de articular suas alianças políticas. Então, eu só tenho a parabenizar o PT do Maranhão.

Como o senhor analisa a polêmica em torno da greve de fome de prisioneiros cubanos?
Primeiro: sou um defensor da revolução cubana. Porque Cuba é o único país da América Latina onde ninguém é excluído e toda população tem assegurado pelas estruturas do estado os três direitos básicos fundamentais do ser humano: a alimentação, saúde e educação. Por outro lado, em Cuba você encontra muitas dificuldades, mas não encontra nenhuma criança na rua, nenhuma família na rua, nem desempregado passando fome, na sarjeta. É o único país que assegura a vida, estruturalmente, para 11 milhões de habitantes.

Acho um cinismo a maneira como aproveitaram a morte de um preso. Esse homem ao fazer greve de fome, como eu fiz durante 36 dias, escolheu o risco de vida. É uma escolha. E depois de 80 dias, com todo o cuidado que os médicos cubanos tiveram, o organismo dele não suportou e ele morreu. Agora, o ano passado, 279 presos se suicidaram na França. Eu não vi nenhuma referência, ninguém ficar indignado diante disso. Durante o governo da Margareth Thatcher, onze militantes do IRA morreram em greve de fome. Eu não vi ninguém protestar contra o governo inglês.

Então, eu não vou entrar nessa campanha cínica de tentar caracterizar ou desautorizar a revolução cubana. Porque uma pessoa que não era um preso político, era um preso comum, pousou de político para que a situação dele tivesse repercussão internacional. Toda a ficha policial dele é uma ficha de delinqüência, de delitos comuns. De modo algum isso justifica o fato dele ter morrido. Um preso tem que ser preservado na sua vida pelo Estado. O Estado é responsável pela vida dele. Agora, o Estado não pode forçá-lo contra a vontade se alimentar. Como aconteceu comigo. O Estado tomou uma série de precauções, mas não conseguiu que eu abrisse a boca e ingerisse alimento. Eu poderia ter morrido. Não morri porque em um determinado momento resolvemos parar a greve de fome. Porque nos foi assegurado que não seríamos mais transferidos de prisão, depois de oito transferências que eu tinha sofrido em quatro anos.

Em 2010, comemoram-se vinte e cinco anos do processo de redemocratização do país. Na sua avaliação quais as principais conquistas deste período?
A maior conquista desse período foi conseguirmos eleger um metalúrgico como o Lula presidente da República. E, ao mesmo tempo não criminalizar os movimentos sociais. Colocar em pauta discussões importantes como a corrupção na política, o movimento ficha limpa. Enfim, hoje o eleitor brasileiro é mais consciente. O que eu lamento é que esse período ainda não tenha sido suficiente e nem tenha havido vontade política para fazer a reforma de estrutura que o Brasil precisa. Não houve nem a agrária, nem a tributária, nem a política, nem da educação ou da saúde. Eu creio que o Brasil e a América Latina amadurecerem muito nessas últimas décadas. Primeiro, ao rechaçarem as ditaduras militares. Segundo, ao rechaçarem os governos messiânicos neoliberais tipo Collor, Menem (Argentina 1989/1999). E agora, elegendo governos democráticos populares como Lula, Chávez, Evo Morales, Correia, Lugo e etc.

O senhor sentiu na pele a repressão do regime militar. Como o senhor avalia a polêmica em torno da abertura dos arquivos da ditadura?
As Forças Armadas tem insistentemente mentido: dizendo que não há arquivos. Há. Recentemente um major das Forças Armadas, chamado major Curió, que participou da guerrilha do Araguaia. Ele mesmo divulgou arquivos que estavam em poder dele. Então, o Brasil, lamentavelmente, é o único país da América do Sul que não trouxe à tona os crimes cometidos pela ditadura militar. Não se trata de vingança, se trata de Justiça. É preciso dizer quem, como e onde estão os corpos dos desaparecidos e assassinados. As famílias têm o direito de um enterro digno dos seus entes queridos. E eu espero que o próximo governo, já que esse não fez, crie de fato a Comissão de Verdade e apure como se fez na África do Sul, na Argentina, no Chile, no Uruguai, em El Savaldor. Apure os crimes de responsabilidade da ditadura. Até para que a nação não confunda o conjunto das Forças Armadas, com aqueles oficiais, soldados, militares, que agiram criminosamente. Porque hoje as Forças Armadas estão inseridas em um processo democrático e elas não podem ser confundidas com aqueles que durante o período ditatorial, em nome da Lei praticaram crimes hediondos. Como a tortura e o assassinato extrajudicial.

Fonte: Agenor Barbosa - O Imparcial Online


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