34,4 milhões com carteira assinada
Aos 18 anos, a estudante de biologia da Universidade de Brasília Manuella Beatriz Santos Vieira deu em 2010 uma guinada na vida. Decidiu deixar de lado a loja virtual de produtos temáticos que criou em parceria com a irmã, Marina, 17 anos, após participar de um curso de empreendedorismo quando estava no ensino médio. Em troca, preferiu ingressar no grupo dos que preferem os direitos e a estabilidade da carteira assinada aos altos e baixos de ter um negócio próprio. A oportunidade surgiu com a abertura do Shopping Iguatemi em Brasília. Em abril, ela foi chamada para trabalhar numa grande livraria e deixou de investir no futuro como microempresária para realizar um novo sonho.
“Sou amante de livros. Era cliente da livraria e sempre quis trabalhar aqui. Agora, estou empregada em um local de que gosto, com a vantagem de ter mais estabilidade”, afirma Manuella, para quem a maior previsibilidade do emprego fixo de caixa faz diferença. “Trabalhando por contra própria, há uma variação muito grande na renda. Em alguns meses, eu ganhava bem, mas em outros, não. Agora, sei exatamente quanto vou receber no fim do mês e ainda tenho benefícios, como planos de saúde e odontológico e vale-refeição e vale-transporte.”
Com a instabilidade econômica gerada pela crise internacional, histórias como a de Manuella se repetiram em todo o país. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que o número de empregados com carteira assinada passou de 33,7 milhões em 2008 para 34,4 milhões em 2009, o que indica um crescimento da participação desse grupo de 36,4% das pessoas ocupadas no país para 37,1%. O número é recorde. No mesmo período, 289 mil pessoas deixaram de trabalhar por conta própria no Brasil e o número de empregadores caiu de 4,1 milhões para 3,9 milhões.
“O trabalho por contra própria é, muitas vezes, uma forma de escape de quem já está na informalidade por não ter conseguido se inserir no mercado de trabalho. Mas, no momento em que surge uma oportunidade, a pessoa opta por se formalizar”, avalia o gerente de Integração da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) à Pnad, Cimar Azeredo. “A carteira assinada continua sendo um sonho para os brasileiros que contribui, inclusive, para a saúde do trabalhador por gerar maior previsibilidade. A estabilidade que a pessoa quer é, no fim do mês, ter o salário dela.”
O maior índice de formalização é um contraponto positivo a um dado preocupante. Em 2009, o número de pessoas desocupadas no país passou de 7,1 milhões para 8,4 milhões. Esse dado representa uma alta de 18,5% em relação ao nível de 2008. Excluindo-se o trabalho na área rural, é a maior elevação do desemprego na década. Isso significa que a situação de desocupação gerada pela crise econômica foi maior do que o que vinham mostrando indicadores divulgados anteriormente.
“O primeiro semestre foi de impacto muito forte na economia brasileira. Foi menor no segundo, a ponto de o PIB só cair 0,2% em 2009. A formalização do mercado de trabalho contribuiu para amenizar o impacto da crise econômica no Brasil. Mesmo que não tenha sido alterada a legislação trabalhista, a fiscalização está aumentando”, afirma o presidente do IBGE, Eduardo Nunes.
Além disso, o índice recorde de desocupação pode estar mostrando também que, passado o pior momento da crise, com a retomada da economia, as pessoas que ficaram desempregadas animaram-se a procurar emprego. Só entram no critério de desocupação os que seguem procurando uma colocação. Um índice que meça um nível muito baixo de desocupação pode evidenciar o chamado desalento, quando o desempregado desiste de tentar uma vaga.
Para o gerente da Pnad, o fato de ter havido mais formalização do mercado de trabalho é consequência de um quadro macroeconômico positivo. “Houve um maior número de pessoas desocupadas do que esperávamos. A PME vinha mostrando uma taxa de desemprego mais baixa. Mas o aumento da quantidade de pessoas com carteira assinada é um sinal de que as perspectivas são positivas”, analisa. Azeredo acrescenta que, em comparação com outros países, a taxa de desemprego no Brasil é inferior. “A crise foi um temporal pelo qual o país passou e vai sair sem muito sofrimento."
Fonte: Correio Braziliense
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