Ato em São Paulo contra-ataca a velha mídia golpista

O auditório do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo foi pequeno para abrigar as centenas de pessoas que compareceram, na noite desta quinta-feira (23), ao ato convocado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé com o apoio de dezenas de entidades da sociedade civil para protestar contra o “golpismo midiático” que tem pautado a cobertura de parte da chamada grande imprensa nacional nestas eleições.

A abertura do ato foi feita pelo presidente do Centro Barão de Itararé, Altamiro Borges, e pelo presidente do Sindicato dos Jornalistas, Augusto Camargo. Altamiro agradeceu a mobilização das cerca de 500 pessoas - segundo a organização do ato e, em seguida, leu o documento intitulado “Pela ampla liberdade de expressão”.

O documento inicia esclarecendo os objetivos do ato, distorcidos por manchetes durante a semana como sendo um ato “chapa branca”. “Após ataques de Lula, MST e centrais sindicais se juntam contra a imprensa” (O Globo); “Oposição critica ato contra a mídia apoiado pelo PT” (Estadão); “Entidades fazem ato contra a imprensa em São Paulo” (Folha), entre outras. O manifesto é contundente: “é um absurdo total afirmar que este ato é “contra a imprensa” e visa “silenciar” as denúncias de irregularidades nos governos. Só os ingênuos acreditam nestas mentiras. Muitos de nós somos jornalistas e sempre lutamos contra qualquer tipo de censura (do Estado ou dos donos da mídia), sempre defendemos uma imprensa livre (inclusive da truculência de certas redações).”

Após valorizar a realização do ato no auditório denominado Vladmir Herzog, o documento contra-ataca: “esta visão autoritária, contrária aos próprios princípios liberais, fica explícita quando se tenta desqualificar a participação no ato das centrais sindicais e dos movimentos sociais, acusando-os de serem ‘ligados ao governo’. Ou será que alguns estão com saudades dos tempos da ditadura, quando os lutadores sociais eram perseguidos e proibidos de se manifestar?”.

Propostas provocativas ou provocações propositivas?

A primeira parte da carta lida por Altamiro é finalizada com a defesa da liberdade de expressão e em seguida são apresentadas cinco propostas, dentre as quais a solicitação de abertura dos contratos e contas de publicidade de veículos da Editora Abril, dos grupos Estadão e Folha e das organizações Globo. O pedido é direcionado à vice-procuradora regional eleitoral, Dra. Sandra Cureau, “a exemplo do que fez recentemente com a revista Carta Capital”. Segundo o documento, “é urgente uma operação ‘ficha limpa’ na mídia brasileira”.

Em seguida, o presidente do Sindicato dos Jornalista leu a nota “Em defesa dos jornalistas, da ética e do direito à informação”, que esclarece o apoio do sindicato ao ato e é assinada por ele. Segundo Guto Camargo, a nota se fez necessária porque a divulgação de que se tratava de um ato “contra a imprensa” fez com que o sindicato recebesse inúmeras ligações questionando sua postura.

Cobertura enviesada

Para Altamiro Borges, parte da imprensa faz uma cobertura 'enviesada'. "Claro que tem que apurar o caso da Erenice Guerra, mas não falam dos problemas da filha do Serra. Porque isso não dá manchete?", diz referindo-se à denúncia feita pela revista Carta Capital, que acusa Verônica Serra de ter violado o sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros.

Na sua opinião, quem é contra a imprensa "são os donos das empresas, como já foram no passado ao defenderem o golpe, ao defenderem a ditadura. Continuam sendo ao defenderem golpe na Venezuela, em Honduras." Além disso, "eles fazem uma confusão grotesca, ao confundir liberdade de expressão com liberdade de imprensa e liberdade de imprensa com liberdade de empresa", afirmou.

Representatividade

Sob gritos como "Serra é Frias!", vindos da galera que se acomodava no pequeno auditório, falaram no ato, ainda, o vice-presidente da CGTB, Ubiraci Dantas (Bira), representando o movimento sindical (estiveram no ato, ainda, CTB, Nova Central, Força Sindical e CUT); o presidente da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom), Joaquim Palhares; o representante do MST, Gilmar Mauro, e o do Movimento dos Sem Mídia, Eduardo Guimarães; além dos representantes de partidos: o jornalista Osvaldo Maneschy (PDT) – que fez uma respeitável referência ao histórico dirigente do partido Leonel Brizola –, a deputada federal Luiza Erundina (PSB) e o presidente do PCdoB, Renato Rabelo. A UNE também foi citada como apoiadora do ato.

Se falam bem, estamos mal

Gilmar Mauro zombou da velha mídia ao dizer que estava se divertindo, e explicou: “em que pesem os ataques, o povo ta se lixando”. Ao dizer que o MST assina embaixo do documento lido por Miro, Gilmar disse ainda que "quando começarem a falar bem de nós, é porque estamos errados", e deixou um recado: “o próximo governo tem que investir na democratização da mídia”.

Já Eduardo Guimarães disse sentir “vergonha alheia” pelo comportamento da velha mídia: “essa gente é risível, dizendo que nós queremos censurar impérios de comunicação que faturam bilhões...! Tenham noção do ridículo”. E finalizou com uma provocação: “será que os leitores dessa velha mídia não perguntam ‘o que pensam esses bichos-papões?’”. E completou “no dia 3 nós vamos responder”, referindo-se às eleições.

Renato Rabelo, ao lado de Gilmar Mauro (MST) e Nivaldo Santana (CTB), homenageou Guto Camargo com a seguinte frase: "a gente faz história com coragem e determinação"

Quem tem história, tem autoridade

Para Renato Rabelo, o ato foi “emblemático”. Após dizer que a mídia vem radicalizando a luta política no país, Renato afirmou que “o PCdoB tem autoridade para dizer que nós somos os defensores da liberdade de expressão, não eles. Na Ditadura Militar, de que lado eles ficaram?”. Em seguida, fez troça do discurso utilizado por alguns veículos do “autoritarismo” do presidente Lula, assegurando: “não tem país no mundo que tem essa liberdade de imprensa que tem o Brasil”. Para Renato, a velha mídia vai além do golpismo, “é conspiração”.

A última a falar foi também a mais aplaudida. Reconhecida pela sua luta em defesa da democratização da comunicação, Luiza Erundina fez referência à 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e disparou: “sabe por que eles estão bravos? Porque deu certo o primeiro presidente operário... Sabe por que a reação irada? Porque vamos eleger a primeira mulher presidente, e no primeiro turno!”.

Luiza Erundina acusou Macartismo na imprensa e afirmou que "o controle social terá que acontecer". "É o estado que faz a outorga, a sociedade vai ter o controle", afirmou. Ao final, Erundina resumiu um pouco do sentimento do ato: “Não venham nos dar lição sobre democracia, nós pagamos muito caro por esta democracia que temos”.

De forma inesperada e emocionante, os manifestantes puxaram espontaneamente o Hino Nacional ao fim do ato.

Da redação com informações do Vermelho e Estadão

 

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