Ato homenageia Edson Luiz, morto pela
ditadura há 40 anos

O estudante Edson Luiz Lima Souto, assassinado há 40 anos pela ditadura militar, será homenageado nesta quinta-feira (27) na praça Ana Amélia, centro do Rio de Janeiro. Na ocasião, será inaugurada uma escultura em homenagem ao estudante morto no dia 28 de março de 1968. O evento é resultado de uma parceria entre a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Prefeitura do Rio de Janeiro, União Nacional dos Estudantes (UNE), e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

A cerimônia será realizada no auditório da Casa do Estudante do Brasil (em frente à praça), com a participação do ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR), dos presidentes da Ubes, Ismael de Almeida Cardoso, e da UNE, Lúcia Kluck Stumpf.

O representante da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço, local do assassinato de Edson, Elinor Brito e Benedita da Silva, secretária de Ação Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro, também estarão no ato.

Um presença que com certeza emocionará os presentes será a da mãe de Edson Luis, Maria de Belém Souto Rocha, que também deve inaugurar o busto em homenagem ao filho.

Após a inauguração da escultura, está prevista uma passeata até o terreno da sede da UNE, no aterro do Flamengo, onde será aberta a exposição fotográfica ''Direito à Memória e a Verdade — a Ditadura no Brasil 1964-1985''.

Edson Luís, presente!
Edson nasceu no dia 24 de fevereiro de 1950, em Belém, no Pará. O filho de Maria de Belém de Lima Souto era de família muito pobre e começou seus estudos primários na Escola Estadual Augusto Meira, em sua cidade natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro e prosseguiu seus estudos secundários no Instituto Cooperativo de Ensino, que funcionava no tradiconal restaurante carioca Calabouço.

Edson foi assassinado a queima roupa durante a repressão policial da ditadura utilizada para desalojar os estudantes que haviam ocupado o Calabouço no dia 28 de março de 1968.

O corpo de Edson, baleado não chegou a ir para o IML. Foi levado imediatamente por estudantes para a Assembléia Legislativa. A necrópsia foi feita no próprio local do velório, pelos Drs. Nilo Ramos de Assis e Ivan Nogueira Bastos, na presença do Secretário de Saúde do Estado. Seu óbito de n. 16.982 teve como declarante o estudante Mário Peixoto de Souza.

O registro de Ocorrência n. 917 da 3ª D.P. informou que, no tiroteio ocorrido no Restaurante Calabouço, outras seis pessoas ficaram feridas, sendo atendidas no Hospital Souza Aguiar. Foram elas: Telmo Matos Henriques, Benedito Frazão Dutra (que veio a falecer, logo depois), Antônio Inácio de Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias Pinto.

Outras três pessoas foram feridas na Praça Floriano, durante o velório de Edson Luiz, realizado na Assembléia Legislativa, são elas: Jouber Valan, João Silva Costa e Henrique Rego Carnel, também atendidos no Hospital Souza Aguiar.

O corpo de Edson Luiz foi levado por milhares de estudantes em passeata até o Cemitério São João Batista. O fato marcou a luta de resitência à ditadura sob o slong ''um estudante foi assassinado, ele poderia ser seu filho!'' e inspirou as centenas de  grandes manifestações que ocorreram até a redemocratização do país com as eleições diretas de 1989.

Calabouço da resistência
Sobre a comida ali servida, nunca se ouviram elogios. Era péssima. Mas as recordações dos anos finais do Restaurante Central dos Estudantes, no Calabouço, Centro do Rio, revelam que o lugar era mais indigesto para o governo militar do que para os universitários que pagavam 50 centavos por um prato. Do golpe militar, quando a UNE foi posta na clandestinidade, até março de 1968, o restaurante foi o centro de ebulição da resistência à ditadura. De motivos mais triviais, como comida podre, às lutas mais encarniçadas, de lá partiram passeatas que desafiaram os generais e entraram para a História.

Muitas vezes, as manifestações começavam antes mesmo que os comensais largassem garfos e facas. Ex-dirigente estudantil em 68, o jornalista Bernardo Joffly, de 57 anos, foi um dos que enfrentaram os militares a golpes de talheres nas mesas do bandejão.

''Ficava todo mundo comendo naquele galpão enorme. De repente, um deles subia na cadeira e dizia: ''Companheiros, acabo de achar uma barata no meu feijão''. E aí todo mundo batia com os garfos nas bandejas, fazendo uma barulhada imensa contra a barata no feijão'', recorda-se.

Da barata no feijão ao FMI
Da barata no feijão, os manifestantes passavam num átimo à luta pelo calote ao FMI. Como juntava até 10 mil estudantes por dia, o pavio do lugar era curtíssimo. Em depoimento do projeto Memória do Movimento Estudantil, Joffly disse que a escalada de agitações chegou a tal ponto que ''alguém do staff pensante da ditadura militar chegou à conclusão de que eles tinham de acabar com o restaurante''. Esta briga, tempos depois, terminaria de forma trágica.

O começo, porém, foi cercado de afagos governamentais. O restaurante, inaugurado em 1951 na sede da UNE, na Praia do Flamengo, foi mais um produto do governo populista de Vargas. Embora vinculado à Divisão de Educação Extra-Escolar do Ministério da Educação, responsável pelo custeio, e ao Serviço de Alimentação da Previdência Social (Saps), espécie de mãe do Fome Zero, quem o administrava na prática era a União Metropolitana dos Estudantes (UME).

O restaurante só ganharia o nome sombrio que o eternizou na História no ano seguinte, quando foi transferido para a Avenida Infante Dom Henrique, nos limites do Aterro do Flamengo com o Centro, próximo do Aeroporto Santos Dumont. O professor de história Elinor Britto, ex-presidente da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (Fuec), disse que o lugar, nos tempos de colônia, teria abrigado um cárcere de escravos.

Complexo cultural
No complexo do Calabouço, além do restaurante, havia teatro e policlínica central, com exame laboratorial e consultórios. A sede da UME também era lá e produzia um jornalzinho. Na área externa, funcionava um pequeno comércio, com sapataria, relojoaria, alfaiataria, barbearia e lavanderia. Parte dos 10 mil estudantes inscritos, universitários e vestibulandos, era do interior, num Brasil que completava a transição do campo para a cidade. Um desses, chamado Edson Luiz, de 17 anos, viera de Belém do Pará.

''O restaurante ficava lotado o dia todo. Os jovens mais pobres se sentiam amparados. Para o bem ou para o mal, a UME conseguia manter aquilo a funcionando, com comida, médicos e enfermeiros. Comi muitas vezes lá'', contou o advogado José Antônio Nonato de Barros, vice-presidente da UME nos anos finais do restaurante central.

Nos anos JK, havia um clima de entendimento entre o governo e a UME, que negociava a construção de uma biblioteca e outro restaurante. O trabalho no local era voluntário e os estudantes comiam ouvindo notícias das faculdades por um serviço interno de alto-falante. O lema do Calabouço, segundo reportagem de O GLOBO publicada em 1957, era ''feito para servir''.

O tempero não demoraria a azedar. No dia seguinte ao golpe de abril de 1964, a sede da UNE seria incendiada e destruída, marcando o início de um longo período de repressão ao movimento estudantil. Curiosamente, o restaurante na Ponta do Calabouço foi poupado do vandalismo golpista. Ficou três meses fechado, mas os militares decidiram reabri-lo. Apenas tomaram a gestão das mãos da UME, fecharam a policlínica e passaram a controlar o acesso público ao lugar.

''A gente comia e era obrigado a ir embora'', lembra Elinor Britto.

Desde o primeiro momento, os estudantes cobraram do governo a devolução do restaurante à UME. É desta época a criação da Frente Única (Fuec). Além disso, reivindicaram a reabertura da policlínica e do centro comercial, além da formação do Instituto Cooperativo de Ensino (ICE), que os militares chamavam ironicamente de ''instituto comunista de ensino''.

Num período que o jornalista Elio Gaspari cunhou de ''ditadura envergonhada'', primeiros anos do governo militar, quando a repressão conseguia conviver com algum diálogo, a pressão estudantil reconduziu a UME ao controle do Calabouço e abriu caminho para a criação da cooperativa.

O fim do restaurante
Sem outro espaço adequado, o amplo salão do restaurante transformou-se, praticamente, em assembléia permanente contra o regime e tudo mais que incomodasse os estudantes. Havia uma preocupação permanente em defender o Calabouço, a ponto de se manterem estudantes em vigília permanente na área externa. Um deles era o paraense Edson Luiz, espécie de mascote da turma, também empregado em outras tarefas mais simples.

O golpe que levaria ao fim do Calabouço foi desfechado em 1967, por ocasião de um encontro que reuniria gente do FMI no Museu de Arte Moderna (MAM). A pretexto de urbanizar a região, melhorando o acesso ao Centro de quem vinha do Aterro, o governo anunciou a demolição do restaurante do Calabouço.

Até o galpão vir abaixo, a demolição provocou uma batalha campal entre as forças do regime e os estudantes. Para acalmar os ânimos, o então governador da Guanabara, Negrão de Lima, propôs a construção de novo restaurante, a poucos metros do antigo, na Avenida General Justo, esquina com Rua Santa Luzia - onde, segundo Elinor Britto, existe hoje uma unidade de Habilitação do Detran.

''Fomos traídos por Negrão de Lima. O velho Calabouço foi demolido sem que o novo estivesse pronto. Tentamos impedir, quebrando as máquinas, mas eles cercaram com a PM'', disse Elinor.

Três meses de 'pendura'
Com a quebra do acordo, os estudantes se recusaram a ficar de barriga vazia. Fizeram uma seqüência de três meses de ''pendura'', comendo sem pagar em restaurante famosos do Rio, até que o governo anunciou a abertura do novo restaurante do Calabouço, em agosto de 1967.

''Entregaram o restaurante inacabado. O lugar estava cheio de poeira, sem condições de higiene, e a comida continuava intragável. Iniciamos então um conjunto de lutas praticamente diárias'', recorda-se o ex-dirigente.

O regime, ao mesmo tempo, dava sinais cada vez mais fortes de intolerância com os estudantes. A repressão, que até ali já havia produzido alguns feridos (incluindo mutilados), chegaria ao ponto extremo no dia 28 de março do ano seguinte, quando a PM, comandada pelo Exército, entrou atirando no restaurante para abortar mais uma passeata. Na trajetória de uma bala, estava o coração de Edson Luiz. Naquela data, o Calabouço fecharia para sempre.

Fonte: Vermelho
Publicado em 28/03/2008