"Mataram um estudante. Podia ser seu filho"

Há 40 anos, o Rio parava para se comover e protestar contra o assassinato de Edson Luis no Calabouço

Era um garoto como tantos freqüentadores do Restaurante Central dos Estudantes, no Calabouço, Centro do Rio. Edson Luis de Lima Souto, de 18 anos, estava na cidade havia dois meses, vindo de Belém, no Pará.

Com outros jovens pobres, muitos migrantes como ele, almoçava e jantava no bandejão subsidiado pelo governo. Por 50 centavos de cruzeiro novo, cerca de R$ 2,50, servia-se de sopa, arroz, feijão, carne ensopada, folhas de alface e rodelas de tomate, goiabada e leite ralo.

Edson morava no Campo dos Afonsos, Zona Oeste, com a tia Enedina Pau-Ferro, casada com um sargento da Aeronáutica. Estudava no Instituto Cooperativo de Ensino, que funcionava no Calabouço. A área incluía um teatro, uma clínica e um pequeno comércio, além de sediar a União Metropolitana dos Estudantes (UME). A entidade administrava o restaurante, custeado pelo Ministério da Educação.

Edson queria completar o secundário cursando o supletivo, o antigo Madureza. Para ganhar uns trocados, engraxava os sapatos dos colegas mais abastados e faxinava o restaurante.

Uma morte que não seria negada
Em 1968, o "Calaba" era visto pelo regime militar como um centro de agitação estudantil, de onde partiam aguerridas passeatas lideradas pela Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (Fuec). Protestavam especialmente contra a qualidade da comida, ou reivindicavam a conclusão das obras no local - o primeiro restaurante fora demolido dois anos antes para intervenções no trânsito.

Edson não era ativista da luta contra a ditadura, mas brigava pelo restaurante onde comia, e participava ajudando a colar cartazes e jornais nos murais.

No dia 28 de março daquele ano, mais uma manifestação era organizada. Por volta das 18h, a tropa da Polícia Militar chegou.
Cassetetes dispersaram os cerca de 600 estudantes. Eles voltaram, atirando paus e pedras. A polícia revidou à bala, e um disparo de pistola 45, atribuído ao aspirante Aloisio Raposo, acertou o coração de Edson Luis.

Imediatamente os estudantes cercaram o colega para evitar que a PM o levasse. Sem camisa, Edson foi carregado. Seu corpo abria espaço para um cortejo que se formava rumo à Assembléia Legislativa, hoje Câmara de Vereadores, na Cinelândia.

"Mataram um estudante.
Podia ser seu filho". A frase correu o Rio naquela noite. O tiro comoveu a cidade e levou uma multidão às ruas para velar o primeiro cadáver simbólico da ditadura militar instalada havia quatro anos.

"O tiro que matou Edson Luis disparou também um processo que a própria direção do movimento (estudantil) não conseguiu controlar. Primeiro, foi o choque, o grito de ódio. Em seguida, foi o corre-corre, o vaivém, o zunzum, sem que se soubesse exatamente o que fazer. A idéia de levar o corpo para a Assembléia foi muito importante.
Com o corpo nas mãos, ninguém poderia negar aquela morte", escreveu o deputado Fernando Gabeira, então repórter, no livro "O que é isso, companheiro?".

O corpo de Edson chegou à Assembléia interrompendo imediatamente a sessão. Os 55 deputados presentes correram ao saguão, que também se enchia de curiosos. Era preciso fazer a autópsia, mas os estudantes não permitiam que Edson fosse levado ao Instituto Médico-Legal.

Após intensa negociação, decidiuse que o exame seria feito na Assembléia. Às 2h30m da madrugada, começava o velório.

O ex-deputado Vladimir Palmeira, em depoimento ao Projeto Memória do Movimento Estudantil, da Fundação Roberto Marinho, diz que a turma do Calabouço era a mais combativa à época. "O pessoal de lá era de uma pequena burguesia pobre e revoltada, muito mais que o pessoal das universidades. Era uma mistura de estudantes e gente pobre que arrumava a carteirinha estudantil, saía para passeatas", contou Vladimir, um dos mais importantes líderes dos estudantes dos anos 60.

Na Assembléia, artistas como Tônia Carrero, Nara Leão, Di Cavalcanti e Ferreira Gullar uniamse aos jovens, enquanto populares formavam uma imensa fila diante do caixão. Os discursos se sucederam até a manhã. "Estava maravilhado com os discursos que se faziam na porta da Assembléia. Era uma tribuna livre. O tema também era livre: o ponto de partida era a morte de Edson Luis, mas o ponto de chegada era o mais disparatado possível", escreveu Gabeira.

Segundo Vladimir, o clima na Assembléia era de grande indignação.
"Lançaram a palavra de ordem 'Podia ser um filho seu', que foi notável. Não foi uma liderança que criou. Foi uma criação coletiva. Fizeram uma faixa, o pessoal gritava numa manifestação impressionante, popular".

O jornalista e escritor Arthur Poerner estava na redação do "Correio da Manhã" quando soube da notícia. Terminou um artigo sobre a violência da repressão e correu para a Assembléia.

Poerner estava prestes a publicar o livro "O poder jovem - História da participação política dos estudantes brasileiros", que ganhou depois um capítulo sobre Edson Luis. Por isso, o colega do curso de Direito Vladimir Palmeira o convidou a carregar o caixão no dia seguinte.
Na Câmara, em Brasília, deputados se acotovelavam diante do microfone de apartes, exaltados.

Houve socos e pontapés.
O discurso de Leopoldo Peres, da Arena do Amazonas, era exemplo da polarização vivida em 68: "O esquerdismo fanático está dizendo meias verdades aos jovens brasileiros". Bezerra de Melo (Arena-SP) recolhia assinaturas para uma CPI para investigar a morte e a violência contra estudantes. No Senado, Arthur Virgílio, do MDB do Amazonas, pai do atual senador tucano Arthur Virgílio, protestava violentamente contra a polícia da Guanabara: "A nação espera que os bandidos fardados sintam o peso da Justiça".

Por volta das 16h da sexta-feira, 29 de março, começou o cortejo para o enterro. O Rio parou.

A crônica da época registra que foi a maior manifestação vista pela cidade até então. Cerca de 50 mil pessoas foram às ruas protestar contra a violência policial, acompanhando o caixão da Cinelândia ao Cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul, em meio a faixas ("Os velhos no poder, os jovens no caixão") e palavras de ordem.

- O cortejo ia crescendo, das janelas as pessoas acenavam com panos pretos - lembra Poerner.

No caminho, registra Zuenir Ventura em "1968 - O ano que não terminou", letreiros de cinema aludiam à morte do estudante.

No Bruni, "Coração de luto", de Teixeirinha; no Império, "A noite dos generais", com Peter O'Toole; no Pathé, "À queimaroupa", com Lee Marvin.
Edson Luis não foi a única vítima da invasão do Calabouço.

O registro de ocorrência nº 917 da 3ª DP lista outros seis feridos: Telmo Matos Henriques, Benedito Frazão Dutra (que morreu logo depois), Antônio Inácio de Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias Pinto.

Na missa, uma tragédia evitada
No dia 1º de abril haveria novo confronto com a polícia. Estudantes organizaram manifestações em todo o país, pelo aniversário da "revolução" de 31 de março de 1964. A pancadaria no Rio foi grande. Houve dois mortos, dezenas de feridos e mais de 200 prisões. Lojas foram depredadas, carros incendiados.

Os jornais qualificavam a batalha como guerrilha urbana.
No dia 4 de abril, a missa de 7º dia levou uma multidão à Candelária.
A cerimônia foi celebrada pelo vigário-geral dom José de Castro Pinto e por 15 padres.

Pelotões de choque, agentes do Dops e fuzileiros navais cercavam a Praça Pio X. Aviões da FAB sobrevoavam o local. Na igreja, o efeito do gás lacrimogêneo confundia-se às lágrimas de emoção. No fim da comunhão, o ruído das patas dos cavalos já era intenso. Tentou-se organizar a saída, com os padres à frente, em fila, de mãos dadas. Com a dramática intervenção, os religiosos protegeram, contou-se à época, 2,5 mil pessoas. Convenceram os soldados, que gritavam e avançavam, de que não haveria passeata. Evitaram a tragédia.

Mas à saída, a repressão atuou, com prisões e agressões.
"Havia quatro anos a política brasileira estava torta, deformada pela ditadura e pelas conseqüentes pressões exercidas à direita e à esquerda pelas dissidências do regime e da oposição.

A partir da morte de Edson Luis, a contrariedade foi para rua. Isso ocorreria de qualquer maneira, naquele ou noutro dia, com cadáver ou sem", analisa o jornalista Elio Gaspari em "A ditadura envergonhada". "O crime chocara o país. Era como se ele fosse esperado havia anos, uma senha de que chegara a hora de fazer alguma coisa".

Cinco anos depois, os restos de Edson Luis foram levados para o ossário do São João Batista, por falta de interessados em mantê-los numa gaveta.

Fonte: O Globo
Publicado em 28/03/2008