"O esporte é uma escola para a vida", diz ministro do Esporte

No comando do Ministério do Esporte desde março de 2006, o baiano Orlando Silva disse, em entrevista ao Jornal Valor Econômico/SP, que o esporte é um direito constitucional do brasileiro e também uma escola para a vida. De acordo com ele, a experiência proporcionada pelo esporte ajuda na formação da cidadania. Veja os principais trechos da entrevista:

Como o sr. define política pública para o esporte?
Orlando Silva:
A Constituição do Brasil fala do esporte como direito de cada um. Se o esporte é direito do cidadão, ele deve ser objeto de política pública. Porque quem tem a obrigação de garantir o direito do cidadão é a ação do Estado. A noção de política pública parte da premissa de que é preciso garantir esse direito social ao esporte e ao lazer, ao esporte recreativo, ao esporte competitivo e ao esporte educacional, que são as três manifestações esportivas identificadas na Constituição. O Ministério do Esporte se inspira na noção do esporte como direito e procura, em parceria com Estados, municípios e entidades da sociedade civil, para desenvolver políticas de inclusão social, de garantia de direitos para todas as populações.

Como essa política pode levar à inclusão social e à construção de cidadania?
Silva:
O esporte permite vivências que podem se transformar em oportunidades. Para uma criança que vive em um ambiente de risco ou vulnerabilidade social, o acesso a um programa esportivo permite a vinculação com atividades produtivas de ocupação saudável do tempo livre. O esporte pode ajudar na formação da cidadania pelos valores que a experiência esportiva difunde. No esporte, você aprende a ganhar e a perder. A vida é assim. Você aprende que ninguém ganha nada sozinho. É preciso haver laços de solidariedade, de companheirismo, senso de coletivo. No esporte nós aprendemos a seguir as regras do jogo. A vida é também assim. A vida é formada de regras sociais que precisam ser respeitadas. A disciplina, portanto, vale para o esporte e para a vida. Aprendemos que a determinação, a perseverança e a persistência são muito importantes para alcançar objetivos na vida social. Eu diria que o esporte é uma escola para a vida.

O que o Ministério do Esporte realizou até agora nesse sentido?
Silva:
Há alguns programas, como o Segundo Tempo, um programa de inclusão social que atende crianças e jovens. Existe também o Esporte e Lazer na Cidade, que é intergeracional. São programas de caráter social. Há um terceiro, de produção de material esportivo em comunidades carentes. Esse material esportivo é usado em programas sociais, em escolas públicas e é uma forma de gerar emprego e renda.

Como o sr. analisa a questão da continuidade das políticas públicas, já que se elas não forem permanentes não há como atingir objetivos de longo prazo?
Silva:
A democracia brasileira está se consolidando. Uma demonstração dessa consolidação é que muitos governos continuam políticas iniciadas em governos anteriores. Itens positivos de uma política têm de ser preservados, independentemente do partido, do governante, do líder que está no poder naquele momento.

Como o sr. vê a participação de ONGs que lidam com esporte e atuam nessa questão da inclusão social?
Silva:
São muito importantes. Há um conjunto de entidades não governamentais que fazem trabalhos sociais e esportivos importantes, muitas vezes não apenas esportivos, mas com cultura, arte, inclusão digital, que permitem multiplicar atividades que interessam, sobretudo, a crianças e jovens.

Como o ministério lida com a questão de recursos financeiros para adotar suas políticas?
Silva:
Nós batalhamos pela ampliação. Neste ano teremos o maior orçamento da história, R$ 1,150 bilhão. É um investimento crescente. Há uma consciência maior no Congresso, dentro do governo federal, nos Estados. Uma fase que nós vencemos foi a de montar uma rede de gestão. Além do ministério, temos secretarias estaduais, muitas secretarias municipais e a tarefa agora é ampliar o financiamento, sobretudo para garantir melhor infra-estrutura esportiva. O Brasil tem um déficit de pistas, piscinas, ginásios, quadras, que são espaços da atividade esportiva.

O ministério tem uma meta para a inclusão social?
Silva:
Nosso sonho é colocar o Brasil em movimento. Temos quase 200 milhões de habitantes, com perto de 30 milhões de crianças e jovens em condições de ter atividade física permanente. Nosso objetivo é pôr esses 30 milhões em atividade física, praticando esporte. Isso também vai exigir a participação do Ministério da Educação, porque é aí que se encontram esses jovens. Nós temos que trabalhar juntos para que alcancemos esse objetivo.

Quais são as principais dificuldades do ministério para adotar suas políticas?
Silva:
A dificuldade básica é o financiamento. Hoje há um déficit de instalações esportivas. Tem que ter dinheiro para construir, para contratar profissionais e preparar esses profissionais. Eu diria que a principal dificuldade nós já vencemos, que é a compreensão por parte dos dirigentes, de parlamentares e do Executivo de que o esporte é importante para promover saúde, qualidade de vida, ajudar na educação, ter um ambiente social mais amistoso, portanto, ajudar na segurança.

Fonte: Valor Econômico/ SP

Publicado em 06/06/2008